Brincar de construir: aprendizado em várias fases do desenvolvimento

Oferecer materiais diversos estimula a criatividade e o raciocínio lógico de crianças desde o berçário

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

Para uma criança, um buraco no pátio pode ser o início de uma brincadeira. Na Escola Municipal de Educação Infantil Globo do Sol, na zona leste de São Paulo (SP), um vão na mureta se tornou uma panela e, em torno dele, criou-se uma cozinha. Caixas viraram armários e mesa para sentar, um graveto serve como colher, a terra misturada com água já resulta na massa de bolo, e folhas secas e sementes são a decoração.

Para dar vida à sua visão, os pequenos transformam os materiais disponíveis e montam todo o ambiente da brincadeira. "A criança cria com materiais não estruturados. Constrói objetos e uma história. É um jogo simbólico que parte da construção", explica Marta Parisi, professora de crianças pequenas na instituição. Para a educadora, os materiais não estruturados e os elementos da natureza são os mais ricos para incentivar a criatividade das crianças, pois oferecem mais possibilidades para os pequenos.

A criatividade e desejo de construir é algo que surge de forma espontânea nas crianças. "Crianças na primeira infância têm um fascínio pela capacidade de construir", afirma Soraia Chung Saura, pesquisadora do Território do Brincar. “É um desejo que vem de dentro e incentivado pelo ambiente. Ela vê peças soltas e faz a construção. Ela tem referências de vivências e de observação das pessoas ao seu entorno, mas a criação vem de dentro dela”, afirma a especialista. Para ela, as brincadeiras de construir estão presentes de alguma forma em todas as atividades. "Todas têm um pouco de construção. São objetos dispersos que ao serem reunidos adquirem uma outra forma e significado", afirma a especialista. Ela diz que mesmo com um brinquedo estruturado é possível fazer isso. Os pequenos podem desmontá-los para criar outra coisa.

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Brincar de construção permite que as crianças se desenvolvam dentro dos cinco campos de experiências colocados pela Base Nacional Comum Curricular. "Elas aprendem todas as linguagens", afirma Marta. A professora explica que aprendem, por exemplo, noções matemáticas quando tentam criar um prédio com embalagens de tamanhos variados. "Elas vão testando e comparando o tamanho das caixas", explica a educadora paulistana. Também desenvolvem habilidades comunicacionais e de cooperação, pois para construir uma torre, conversam e trocam estratégias para definir a sequência das caixas que deixarão a estrutura em pé. Nesse processo, elas precisam buscar soluções para os problemas, estruturar hipóteses e argumentar.

Construir e montar também possibilita o desenvolvimento do raciocínio lógico ao fazer investigações e solucionar problemas. Para ilustrar, Denise de Oliveira, professora na Escola Municipal de Educação Infantil Érico Veríssimo, em Porto Alegre (RS), lembra de uma menina que começou a criar caminhos usando tubos de papel higiênico e toalha de diferentes tamanhos. "Ela testava o que entrava e o que não. Percebeu que não entrava, mas que do outro lado também era aberto e tentava de novo. Não descansou até entender", conta a professora. No caso dos bebês, o manuseio desses materiais também desenvolve habilidades motoras. "Ele trabalha o movimento de pinça, algo que vai usar para desenhar e escrever", diz a educadora. 

Como elas constroem?

Existem muitas possibilidades de brincadeiras de construir, algumas delas são:

  • Construção de brinquedos (pipas, bonecas ou um carrinho de garrafa pet)
  • Criação do espaço e elementos para um faz de conta (por exemplo, construir uma cozinha ou uma casinha para criar um jogo simbólico)
  • Montagem de cabanas, túneis, cavernas ou de uma rede
  • Brincadeiras de empilhar usando blocos, caixas, potes e almofadas de espuma
  • Construções dentro da caixa de areia usando baldes e água
  • Uso de cordas e elásticos para criar circuitos
  • Montar pistas e circuitos usando tubos de papel toalha e higiênico de diferentes tamanhos

Criar instrumentos musicais usando materiais não-estruturados

Qualquer uma das atividades listada acima é possível com todas as idades. A diferença é que crianças maiores conseguem fazer objetos e brincadeiras mais elaboradas. “No início elas não têm tanta criatividade, mas vão evoluindo. Crianças de 5 anos já constroem mais rápido brinquedos mais estruturados e detalhados. É impressionante”, relata Marta. "Quando oferecemos materiais para os bebês eles já conseguem organizar sua brincadeira", diz Denise. A professora conta que brincam com blocos de madeira de diferentes formatos e tamanhos e se divertem na hora de empilhar. "Colocam um em cima do outro até a altura que podem", explica.

Desenvolvendo crianças exploradoras

A exploração é um dos direitos de aprendizagem colocados pela BNCC. Entenda como ela estimula o desenvolvimento dos pequenos e como propor atividades de exploração de materiais e sons em casa usando materiais acessíveis para todos.

A sutil e crucial escolha dos materiais

Dentro das experiências oferecidas para as crianças é importante ter diversidade de materiais. No entanto, as professoras são unânimes: os brinquedos estruturados não engajam tanto as crianças. "Eles já vêm prontos para brincar. Eu gosto de trabalhar com caixas, argolas, tampinhas, potes [isto é, materiais não-estruturados], pois elas podem experimentar, o que dá para construir, o que cabe e o que não", explica Denise.

Além dos momentos em que o aluno explora o ambiente externo e encontra elementos da natureza para aquilo que precisa, também há um trabalho importante do educador de selecionar e colocar à disposição uma variedade de materiais estruturados e não-estruturados. Para planejar essa escolha, o professor precisa definir a intencionalidade pedagógica por trás da atividade. "Eu tenho um objetivo principal, ofereço os materiais e deixo que eles explorem bastante. Depois vou colocando desafios para que eles avancem", compartilha Marta. Para escolher seus objetivos, é possível utilizar documentos norteadores como a BNCC e o currículo adotado pela rede.

A Teoria das Peças Soltas e o desenvolvimento criativo 

No início da de´cada de 1970, o arquiteto britânico Simon Nicholson (1934-1990) desenvolveu a Teoria das Peças Soltas. Ela defende que os materiais que as crianças podem mover, interagir, transformar e construir oferecem mais oportunidades para os pequenos serem criativos. Dentro dessa classificação entraram itens que conhecemos como materiais não estruturados: botões, pedras, rolhas, tampinha de garrafa, palitos de sorvete, elementos da natureza, entre outros. 

Para incentivar a curiosidade, Simon defendia que espaços educativos deveriam ser ricos em peças soltas, pois elas convidam a criança a experimentar, inventar, manipular, construir e brincar. Essas peças são utilizadas para preparar um cantinho de atividade. O professor (ou a família) reúne esses materiais em grupos e os disponibiliza para as crianças. O papel delas é pensar em formas de usar aqueles objetos. Neste vídeo você poderá entender como acontece a teoria na prática e como ela pode estimular a criatividade.

Para incentivar a brincadeira de construir, vale a pena disponibilizar materiais e criar espaços convidativos, mas sem que isso se torne uma imposição. "É uma forma de respeitar quem não quer brincar. Se coloco o bebê sentado numa cadeira e molho a mão dele na tinta, não estou dando uma escolha. Mas costumo disponibilizar os materiais e vai quem tem interesse", afirma Denise. 

No caso da professora, sua turma já sabe que quando ela coloca o tapete laranja vai encontrar diferentes materiais para brincar. “Quando organizamos esse espaço, ele tem que se sentir encantado por participar”, afirma Denise. Essa escolha – se quer participar ou não ou quais objetos vai pegar – também é uma forma de desenvolver a autonomia. Não tem como prever a forma de brincar das crianças. Por isso, é necessário ter abertura, observar atentamente para perceber novas oportunidades de aprendizagem e registrar para analisar posteriormente a experiência.

A riqueza dos materiais não estruturados

Utilizar diversos objetos e elementos da natureza para estimular a imaginação, as experiências sensoriais e as brincadeiras tanto em casa quanto em um possível retorno à escola

Brincando de construir cabanas, cavernas e túneis

A professora Marta dispõe de um conjunto de tecidos de diferentes texturas e cores. À primeira vista pode parecer que o único caminho são as cabanas, mas é um material muito versátil. "Ele vira cabelo, vestido e até rede para se balançar", conta a educadora. Essas estruturas podem ser preparadas pelas professoras para alguma proposta ou ser construídas pelas próprias crianças – segundo Denise, a partir de 1 ano as crianças já conseguem montar. Quando necessário, pedem ajuda do professor para algo que não conseguem sozinhos. Mas elas vão dando instruções sobre onde amarrar e como fazer. "Eles vão sugerindo e nem sempre dá certo. Às vezes não fica esticado ou fica baixo o teto e eles precisam entender por que não funcionou, onde precisa amarrar para ajustar", explica a educadora Marta.

Essas cabanas se tornam um espaço para uma contação de histórias ou brincar de casinha,  de faz de conta dentro dessa estrutura. Se for possível, esse espaço pode ficar montado por um tempo. “Tem que fazer sempre. A repetição é importante. Ela pode ficar lá, renovar o interesse e render muitos dias”, afirma Soraia. Na sala de Denise, ela fica dias no canto para quando os bebês tiverem interesse em brincar.

Na EMEI Globo do Sol parte das crianças já retornou presencialmente. "Não podemos usar tecidos, porque teriam que ser lavados constantemente. As salas têm jogos de montar e outros brinquedos e materiais que temos que borrifar álcool toda vez que usam", conta Marta. No caso de Denise, todos os objetos da sala foram retirados e os bebês recebem kits para uso individual. Para quem está em casa, as brincadeiras de construção são uma boa opção. "Exploração de materiais não-estruturados foi o nosso carro-chefe durante as atividades remotas”, afirma Marta. Ela conta que eles compartilhavam com as famílias fotos dos materiais e do passo a passo, e a explicação do objetivo da proposta.

Na pesquisa Brincar em Casa, desenvolvida pelo Território do Brincar em parceria com o Instituto Alana, Soraia teve a oportunidade de investigar as transformações da forma de brincar em casa. Um dos aspectos interessantes é que cada cômodo tem tipos de brincar - inclusive quando as famílias vivem em um único espaço sem delimitação física. "Em diferentes ambientes, a construção acontece do jeito que se pode e com o que se tem. As crianças têm esse olhar criativo para ressignificar os espaços e os objetos", afirma Soraia.

5 planos de atividade para usar com as crianças

Em Nova Escola temos mais de 450 sugestões de atividades para toda a Educação Infantil que podem ser utilizadas na escola ou adaptadas para o trabalho remoto. Para ajudar você, selecionamos 5 propostas de brincadeiras de construir:

Brincadeiras nas cabanas (bebês)
Com itens que as crianças usam para dormir (travesseiros, almofadas, pelúcias, etc) e tecidos, crie cabanas para que os pequenos explorem. Dentro de cada uma delas, serão oferecidas atividades diferentes.

Livre escolha e construção (crianças bem pequenas)
A proposta desta atividade é que os pequenos utilizem materiais de largo alcance para criar brinquedos e cenários para suas brincadeiras. Devem ser ofertadas mais de uma possibilidade de criação para que escolham aquela que mais chama atenção.

Experimentos de equilíbrio com materiais de largo alcance (crianças pequenas)
Nesta atividade, as crianças colocam a gravidade à prova. Elas utilizam materiais não estruturados para erguer construções, sejam elas pirâmides ou altas torres.

Construção de circuito com as famílias (crianças bem pequenas)
Convide as famílias a participarem de uma construção de circuitos com diversos obstáculos e desafios utilizando materiais simples. Por já envolver os pais e responsáveis, essa proposta pode facilmente ser adaptada para ser realizada durante o isolamento.

Criando brincadeiras com materiais de largo alcance (crianças pequenas)
Nesta atividade são ofertados materiais diversificados que as crianças não encontram normalmente no pátio da escola como, por exemplo, caixotes de madeira ou plástico, tábuas, pneus, tijolos, canos de PVC, caixas de papelão grandes, tocos de madeira, bobinas grandes, pedaços de conduítes, entre outros.

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