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Educação Infantil: entenda as diferentes variáveis que estão por trás do planejamento

Planejar atividades para as crianças é um processo que envolve muitos questionamentos – e as próprias crianças ajudam a encontrar as respostas

POR:
Evandro Tortora

Crédito: Getty Images

Discussões sobre planejamento estão presentes na Educação Infantil há bastante tempo, já sendo parte da nossa rotina como professores. Assim como eu, provavelmente muitos vocês se deparam com diferentes variáveis e questionamentos ao longo desse processo que é tão complexo. Afinal, logo de cara, surge a dúvida: como a ação planejada se concretiza na prática?

Outro ponto de atenção diz respeito às ‘vozes’ levadas em consideração na hora do seu planejamento. Colegas professoras, orientação pedagógica, direção… quais dessas ‘vozes’ ecoam na sua cabeça ao longo da organização do trabalho? Aliás, falando em organização, uma pergunta que surge com frequência no planejamento é: como dar conta de uma rotina tão complexa de aprendizagens das crianças e, ao mesmo tempo, conseguir contemplar as exigências curriculares?

Currículo, inclusive, é outro tópico recorrente, quando fazemos reflexões do tipo ‘de que forma a BNCC e outros documentos podem estar presentes nesse meu planejamento?’. E por fim, temos ainda o componente mais importante da Educação Infantil, os pequenos. Como ficam as vontades e necessidades das crianças no planejamento?

Antes que a nossa cabeça entre em curto-circuito com tantas perguntas, busquei nesse texto compartilhar um pouco do que tenho vivido e aprendido sobre planejar tempos e espaços para as aprendizagens das crianças – sempre partindo do princípio de que o planejamento evidencia claramente a ação intencional docente e que, por isso, compete a nós pensarmos nas particularidades desse processo de planejar. Vamos juntos?

Ensino remoto: inclua a diversidade no planejamento

Confira no Nova Escola Box algumas estratégias para se discutir diversidade (de gênero, etnia, social, cultural, religião, física…) na Educação Infantil.

Um pouco da minha experiência

Quando iniciei na carreira docente, entre as ‘vozes’ que influenciaram meus primeiros passos envolvendo planejamento, estavam algumas colegas professoras, que sugeriram realizar um planejamento semanal por meio do chamado “semanário”. Acho que muitos de nós conhecemos esse tipo de organização: é uma tabelinha na qual as linhas representam o horário das atividades, e as colunas mostram os dias da semana.

E nossa, ao parar para pensar nessa época, fico me recordando o quanto eu era minucioso! Buscava, no dia a dia, ser sempre muito pontual, e queria finalizar as vivências no horário que tinha determinado no planejamento. Ao fazer esse uso do semanário, eu ficava com a impressão de possuir autoridade sobre a sala: lembro que logo que dava o horário determinado para o fim de uma atividade, eu interrompia o que as crianças estavam fazendo, e já propunha outra prática.

Com o passar do tempo, vi que aquele modo de planejar tinha problemas. As crianças queriam continuar brincando e eu as interrompia somente porque eu (professor) queria propor outra vivência, enquanto elas (as crianças) não eram ouvidas nem consideradas naquele planejamento. Fazer um semanário, naqueles moldes, era quase que cronometrar as experiências das crianças, e preencher a rotina com as atividades que ocupassem todo o seu tempo.

Curso intensivo - Metodologias ativas

NOVA ESCOLA preparou um intensivo de cursos sobre Metodologias Ativas, comandados pela professora e especialista Lilian Bacich, que vão ajudar você, professor, a facilitar o protagonismo do aluno e a motivá-lo na construção de seu conhecimento.

Inclusive, há um texto bem interessante de autoria da professora Luciana Esmeralda Ostetto, cujo título é Planejamento na Educação Infantil: mais que a atividade, a criança em foco, em que a autora reflete bastante sobre essa ideia equivocada de planejamento. A descrição que ela faz de um planejamento problemático é exatamente igual ao hábito que eu tinha antigamente: preencher a rotina com atividades, enquanto desconsiderava as vozes das crianças no meu planejamento.

Essa forma de planejar é muito recomendada em materiais que estão pela internet – há vários semanários prontos para serem baixados, impressos e posteriormente aplicados na prática docente. Por si só, baixar materiais da internet apenas para aplicação direta (como se fosse uma receita culinária), já vai contra a ideia de uma prática docente reflexiva e comprometida com as crianças. Sugiro, aqui, uma outra postura ao consultar esse tipo de material: o mais interessante é pesquisar referências que complementem a sua prática, ao invés de buscar materiais que tenham sido elaborados com a intenção de substituir a sua ação docente.

Planejamento em diálogo com as crianças

Quando pensamos em BNCC e planejamento, é válido ter em mente que a Base tem norteado muitas das propostas curriculares municipais, e que ela recomenda a aprendizagem por meio de experiências. Nessa perspectiva, ao falarmos em planejamento, estamos nos remetendo a planejar contextos para que essas experiências ocorram.

Ao contrário dos semanários citados anteriormente, e levando em consideração esse ponto da BNCC, vemos que pode ser bem mais interessante planejar semanalmente uma rotina com as crianças, em que essas experiências possam, então, acontecer! Aqui no site de Nova Escola, por exemplo, temos planos de atividade com recomendações muito interessantes. Alguns englobam atividades recorrentes (aquelas que podem acontecer com frequência), enquanto outros que já vêm com uma proposta mais direcionada ao planejamento de um objetivo.

Assim, em se tratando de planejamento, hoje a minha rotina em sala de aula é dividida, basicamente, em quatro momentos fixos: 1- Roda inicial; 2- Ateliês de trabalho; 3- Parque; 4- Roda Final. Nesse contexto, tenho atividades recorrentes, como a contagem dos ausentes e presentes, e tenho também atividades que proponho, como a leitura de um livro específico. Dessas últimas, me dedico apenas a escolher duas ou três por semana; nos demais dias, deixo para desenvolver algumas propostas que são percebidas a partir da escuta atenta das crianças.

Com essa escuta atenta, as próprias crianças acabam me ajudando a preencher lacunas do planejamento com aquilo que querem fazer, e essas reflexões ocorrem tanto a partir das atividades sugeridas por mim, quanto a partir de questões trazidas inteiramente por elas. Um exemplo prático disso ocorreu com as atividades que planejei certa vez, envolvendo sementes a serem coletadas no parque. Durante a prática, as crianças começaram a brincar com uma das sementes, como se fossem borboletas. Foi então que sugeri levar essas sementes para a sala e pintar! Logo após isso, uma das crianças deu a ideia de fazermos um quadro com os trabalhos, e surgiu assim o quadro das borboletas.

Percebam, a partir desse caso, que para aquela semana a minha única proposta era a coleta de sementes no parque, e a sua posterior catalogação. Em um movimento muito natural, tudo isso se desenvolveu para uma experiência com pintura e expressão artística! E o mais legal: o mesmo aconteceu quando coletamos pedrinhas e penas – a experiência que começou com essas coletas adquiriu continuidade, algo de extrema importância para as crianças!

E você, professor ou professora, como planeja sua rotina? Há muito a ser conversado sobre isso ainda! Convido você a refletir se está fazendo um planejamento “para” as crianças, ou se está planejando “com” as crianças.

Um abraço carinhoso e até breve!

Evandro

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.