Coordenação pedagógica: como fazer uma formação sobre habilidades e competências

Em muitas escolas, a BNCC ainda não saiu do papel e, por isso, é essencial orientar os professores sobre essa nova maneira de ensinar e aprender

POR:
Dimítria Coutinho

Consultoria pedagógica: Selene Coletti

Crédito: Getty Images

“Eu não vou mais ensinar conteúdo?” e “Eu não vou poder ensinar da maneira tradicional?”. Essas foram algumas das dúvidas que surgiram por parte dos professores da Escola Estadual Professor João Câmara, em Belo Horizonte (MG), quando a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi implementada em 2020.

Questionamentos como esses continuam sendo bastante comuns nas escolas brasileiras, desde que o trabalho educacional passou a ser direcionado por habilidades e competências. A mudança, trazida pela BNCC, foi uma virada de página na Educação Básica do país, pois coloca o aluno no centro do processo de aprendizagem. “O foco não é mais o que eu tenho que ensinar, mas o que o aluno precisa aprender. Então, foi realmente muito desafiador”, comenta Luciana Tomaz da Silva Aquino Mendes, coordenadora pedagógica da Professor João Câmara.

Apesar de ser uma novidade, não é uma ideia inédita
Na década de 1990, o sociólogo Philippe Perrenoud propõe um trabalho pedagógico baseado no desenvolvimento de competências. Na época, a ideia foi bastante difundida e discutida pelos profissionais da Educação, porém foi deixada de lado. A BNCC retoma esses conceitos e apresenta as habilidades que devem ser desenvolvidas pelos alunos durante toda a Educação Básica.

Desde que a BNCC passou a nortear a Educação Básica, as decisões pedagógicas passaram a estar orientadas para o desenvolvimento de competências nos alunos, que são definidas como “a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”. Assim, a BNCC indica tudo o que os alunos devem saber e, mais do que isso, tudo aquilo que devem saber fazer.

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Felipe Nóbrega, professor de História, diretor da Escola Municipal Walmir de Freitas Monteiro, em Volta Redonda (RJ), e formador da NOVA ESCOLA, diz que, até hoje, em 2021, grande parte das escolas ainda não entendeu completamente do que se tratam essas mudanças. “Trabalho por habilidades e competências gera uma confusão na cabeça até mesmo daqueles que já atuam há muito tempo com a temática”, afirma. Diante disso, as formações sobre o trabalho por habilidades e competências dentro escolas se tornam fundamentais.

Segundo Felipe, o coordenador pedagógico precisa começar do zero, explicando o que é habilidade e competência e, até mesmo, o que é a BNCC. “É preciso construir uma trilha formativa bacana para o professor ter a percepção do que esses documentos nacionais estão dizendo agora”.

O contexto da equipe
No entanto, antes de pensar em uma formação sobre habilidades e competências, é essencial que o coordenador pedagógico faça um diagnóstico daquilo que ele mesmo compreende sobre o assunto. Nesse sentido, pode ser que ele perceba que precisa estudar.

“Da minha parte, enquanto coordenadora, eu tive que buscar muita capacitação. Procurei muita ajuda no próprio site do MEC, que oferece alguns cursos online. Eu me preparei bastante para poder ajudar as minhas professoras a fazer essa transição”, conta Luciana.

Além de saber a fundo o que são habilidades e competências, é necessário que o coordenador compreenda também as dez competências gerais presentes na BNCC. E, mais do que dominar esses conceitos, ele deve entender de que forma tudo isso impacta no trabalho do professor. Neste ponto, o gestor tem um papel importante de ser um parceiro e ajudar sua equipe a pensar nas habilidades que quer desenvolver antes de começar o planejamento.

“Muda tudo. É um desafio muito grande para qualquer professor, e eu me coloco nisso. Porque a gente tem a mania de contar histórias, de ter o papel de transmissor do conhecimento. E esse papel acabou. Nunca vivenciamos, pessoalmente, como fazer isso. Até mesmo os próprios coordenadores pedagógicos não têm essa ferramenta totalmente construída em mãos”, destaca Felipe.

Depois de fazer essa autoanálise e estudar os aspectos básicos da BNCC, Felipe orienta o coordenador a aplicar uma avaliação diagnóstica aos professores para que ele saiba quais são as lacunas que eles têm sobre a temática. Só assim o coordenador conseguirá planejar uma formação que esteja adequada às necessidades da sua equipe, sejam elas mais básicas ou mais complexas.

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O impacto da pandemia
Além de compreender o contexto da equipe docente a respeito do tema, o coordenador pedagógico também precisa estar a par de como a pandemia e o consequente ensino remoto ou híbrido impactam nas decisões pedagógicas da escola.

Durante a crise da covid-19, o trabalho precisou ser completamente adaptado, e isso inclui uma escolha de quais habilidades tiveram que ser priorizadas. No caso de Luciana, a rede estadual de Minas Gerais priorizou conteúdos e passou a enviar planos de estudo para as unidades escolares. Coube a cada uma adaptar esse material para o contexto específico, adicionando atividades a respeito de cada habilidade proposta.

Mas nem todas as redes de ensino conseguiram dar esse apoio às escolas e, em alguns casos, foi necessária uma adaptação maior em relação ao que veio da secretaria municipal ou estadual. Felipe aconselha que, nessas situações, o coordenador deve permitir que os professores tenham atuação central na determinação do que é ou não prioritário, sempre trabalhando em equipe.

“É o professor especialista quem tem que analisar qual é o contexto, a realidade daquela escola, o acesso ou não à tecnologia e as habilidades que são mais possíveis de serem trabalhadas neste momento”, afirma.

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Ensino remoto e híbrido como estímulos
A pandemia também pode ser um impulso para que a prática pedagógica seja repensada dentro das unidades escolares, a fim de contemplar o que é proposto pela BNCC no que diz respeito ao trabalho por habilidades e competências.

Foi o que aconteceu na Escola Municipal de Ensino Fundamental Jornalista Millôr Fernandes, em São Paulo. O ensino remoto propiciou práticas que colocam os alunos no centro do processo de aprendizagem, o que foi reforçado recentemente, com a implementação do ensino híbrido.

A coordenadora pedagógica da unidade, Regina Lyrio, conta que a pandemia acabou impulsionando uma reflexão da prática pedagógica na escola, que passou a ser bastante centrada no aluno. Mas, com o retorno semipresencial, houve uma defasagem no corpo docente, já que os professores com comorbidades para a covid-19 estão atuando apenas no ensino remoto. Dessa forma, alguns componentes curriculares ficaram sem professores para atender os 35% de alunos que estão frequentando a escola presencialmente.

Diante disso, a equipe pensou uma forma diferente de trabalhar com esses alunos: os professores passaram a ajudá-los a realizar as atividades remotas, independente do componente curricular.

“O que nós fazemos é ensinar o aluno a caminhar com autonomia para esse sistema híbrido de estudo. Então, a gente ensina o aluno a estudar e o acompanha nos seus estudos. Estamos trabalhando as competências, auxiliando o aluno a solucionar problemas, escolher percursos, tomar decisões, inovar e refletir. O aluno é muito mais protagonista do seu processo”, relata a coordenadora.

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Hora de preparar a formação
Depois de compreender as lacunas de conhecimento da equipe a respeito das habilidades e competências e analisar como isso pode ser trabalhado no contexto de ensino remoto ou híbrido, é hora do coordenador se centrar na formação e escolher a metodologia que será utilizada.

A orientação de Felipe é trabalhar com os professores da mesma forma com que eles devem trabalhar com os alunos, colocando em prática a nova forma de ensinar. "Se a gente fala hoje de uma aprendizagem centrada no aluno, o coordenador precisa ter a mesma visão em relação a seus professores. Então, ele deve colocar esse professor no centro da aprendizagem e como alguém que constrói o conhecimento".

Essa abordagem - chamada de homologia de processos - foi a escolhida por João Bezerra da Silva Júnior, coordenador pedagógico da Escola Municipal de Ensino Infantil Adevaldo de Moraes, em São Paulo (SP). Ele conta que aposta no trabalho em equipe durante as formações, assim como deve acontecer com os alunos, sobretudo no que diz respeito ao planejamento. “O planejamento é fundamental e precisa ser flexível. Ele tem que ser feito não para a criança, mas com a criança. O mesmo deve acontecer com os professores”, afirma.

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No curso, serão abordados aspectos importantes de três estratégias formativas: como auxiliar o professor no planejamento de aulas (utilizando a perspectiva da metodologia de resolução de problemas), como promover a observação em sala de aula e como realizar a tematização da prática.

De acordo com Felipe, uma boa dica é iniciar as formações com perguntas. “O coordenador precisa se colocar muito mais no papel de mediador dessa formação, do que no de transmissor de conhecimento. Ele tem que fazer boas perguntas para esse grupo de professores, questionando, por exemplo, o que eles consideram como habilidade.”

Ele diz que o coordenador, muitas vezes, conversa sobre determinados assuntos com os professores como se fosse algo compreendido por todo mundo. “Todos já estão cansados de saber o que é habilidade e o que é competência? Não? Então, vamos tirar desse professor o que ele compreende que é habilidade e o que é competência e vamos lá fazer algo.”

Nesse sentido, o coordenador não deve expor os conceitos que aprendeu sobre o tema, mas sim estudar a BNCC junto com os professores. Estimular as trocas de experiências entre os docentes também é essencial neste momento, algo bastante praticado por Luciana. A coordenadora costuma trazer exemplos cotidianos da escola para as formações, promovendo estudos de caso que envolvem todos. “Às vezes, uma situação enfrentada por uma professora era colocada nessas rodas de conversa para buscarmos alternativas”.

Depois da formação vem o acompanhamento
Além do trabalho em equipe e da construção conjunta do conhecimento, também é primordial que os coordenadores façam das formações um processo constante e presente no cotidiano da equipe.

“Muitas vezes, os coordenadores pedagógicos estão enfurnados na burocracia e esquecem que o foco da escola não é o preenchimento de papel, mas a realidade do aluno e o aprendizado. Então, o coordenador precisa ir para o jogo junto com o professor, ombro a ombro, e entender o que está acontecendo no chão da escola. Senão, o professor vai continuar com os mesmos métodos de aula e a Base não vai sair do papel”, opina Felipe.

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Foi o que aconteceu com João. Quando o coordenador percebeu que a equipe não estava encontrando tempo para as formações porque os professores gastavam as horas extraclasse com o preenchimento de registros, ele resolveu dividir esse tempo e fazer das formações uma rotina. “Sem formação, você não qualifica registros e nem a prática pedagógica”, afirma.

Além de fazer formações constantes e que se relacionem entre si, constituindo uma trilha sobre o tema, também é papel do coordenador acompanhar o cotidiano dos professores. Luciana conta que sempre auxilia os docentes na montagem das atividades, enquanto João diz que sugere leituras de acordo com as dificuldades de cada professor e propõe temáticas para as aulas que se relacionem com a BNCC.

Outra dica é acompanhar as aulas para saber se as práticas adotadas em formação estão sendo refletidas no trabalho realizado em sala. Esse monitoramento também deve vir acompanhado de devolutivas constantes para os professores, a fim de ajudá-los a trilhar o caminho mais próximo possível do que propõe a BNCC.

“É importante criar um ambiente favorável ao aprendizado dentro da escola. Isso é muito difícil de ser feito porque as demandas do dia a dia nos engolem. Mas, o coordenador pedagógico precisa ter paciência nesse momento e estabelecer uma rotina que seja mais adequada à realidade escolar”, aconselha Felipe.

Trabalho com habilidades e competências
Veja um passo a passo de como planejar e conduzir uma formação sobre o tema

  1. Reflita. Pense sobre o que você, como coordenador pedagógico, entende sobre o tema. Se preciso, estude o assunto para dominar o que é habilidade, o que é competência, quais são as 10 competências gerais da BNCC e como isso impacta o cotidiano escolar.
  2. Olhe para a equipe. Realize uma avaliação diagnóstica para ver o que os professores compreendem sobre as propostas da BNCC para saber o quão aprofundada deve ser a formação.
  3. Analise o contexto atual. Esteja a escola em modelo remoto ou híbrido, avalie como a pandemia pode impactar o trabalho por habilidades e competências. Conte com a ajuda da equipe para priorizar habilidades nos mais diversos componentes curriculares.
  4. Escolha a metodologia da formação. Planeje uma capacitação que se assemelhe à forma como os professores devem atuar em sala de aula. Abandone as apresentações tradicionais e aposte em perguntas instigantes, dinâmicas em grupo e debates que promovem a troca de experiências.
  5. Construa em equipe. A partir das dificuldades do grupo, procure formas de estudar a BNCC junto com os professores. Assim, a equipe constrói de forma conjunta o conhecimento e decide as maneiras de aplicá-lo em sala de aula.
  6. Faça estudos de caso. Com a permissão dos professores, traga situações reais para o grupo debater. Isso estimula a troca de experiências e a busca coletiva por soluções.
  7. Mantenha uma rotina de formação. O tema das habilidades e competências é complexo e essencial. Por isso, uma formação apenas pode ser insuficiente para dar conta de todas as dúvidas e desafios. Considere uma trilha formativa com assuntos que se complementam e promova um estudo constante sobre a temática com a equipe.
  8. Acompanhe os professores. Tire dúvidas, acompanhe aulas, dê devolutivas, ajude na construção de materiais e atividades e proponha leituras. O acompanhamento constante também pode ser fonte de temas para novas formações.

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