Coordenação pedagógica: como preparar a escola e os professores para o retorno semipresencial

A mudança do formato envolve aspectos pedagógicos e relativos à segurança e ao acolhimento dos alunos, demanda muito planejamento e o envolvimento de toda a equipe escolar

POR:
Dimítria Coutinho

Consultoria pedagógica: Selene Coletti

Crédito: Getty Images

Consultoria pedagógica: Selene Coletti

Se o ano de 2020 já foi bastante desafiador para as equipes escolares, devido à adaptação ao ensino remoto, o ano de 2021 também tem apresentado, igualmente, os seus impasses. O objetivo agora, porém, é migrar do modelo a distância para o semipresencial, o que exige muita organização e planejamento dos coordenadores pedagógicos para liderarem essa transição.

Regina Célia Guandalini, coordenadora pedagógica da Escola Municipal de Ensino Infantil Jonise Maximo da Fonseca, em São Paulo (SP), conta que houve muito ensaio até a equipe chegar ao planejamento que está sendo executado hoje. Desde o ano passado, a gestão e a equipe docente vêm se preparando para o retorno presencial dos alunos. Hoje, a escola está recebendo 35% do total de estudantes.

Para que o retorno em contexto híbrido funcione bem, os coordenadores pedagógicos, em parceria com a equipe gestora, precisam ter em mente que a escola terá que se preparar em quatro frentes: segurança, acolhimento, parte pedagógica e garantia da equidade entre alunos.

Preparando o ambiente escolar
Uma das primeiras coisas que vem à mente quando se pensa em crianças e adolescentes voltando às escolas são os cuidados relacionados à saúde, para evitar a disseminação do novo coronavírus.

Nesse sentido, é muito importante que o coordenador pedagógico esteja atento aos protocolos adotados pela rede de ensino. Na escola de Regina, por exemplo, as carteiras foram separadas umas das outras de modo a manter a distância um metro e meio entre elas e o chão foi marcado com selos para que as crianças cumprissem o distanciamento. As refeições e a entrada e a saída dos pequenos foram escalonadas.

Em Campinas (SP), a Escola Estadual Julia Luiz Ruete, de Ensino Fundamental, que também está funcionando presencialmente com 35% de sua capacidade, adotou protocolos semelhantes. Cibele Ribeiro Fracaroli, coordenadora da unidade, diz que a alimentação, antes self-service, passou a ser servida pelas funcionárias, e que o horário de recreio foi diminuído.

Preparando os espaços das creches para um futuro retorno

Entenda como algumas creches e redes estão organizando seus espaços e quais cuidados pretendem adotar para receber as crianças na volta às escolas.

Além dessas adaptações, é muito importante que os alunos também sejam orientados. Nesse sentido, as primeiras semanas de retorno à escola devem ser recheadas de explicações, mas não de forma maçante.

Por lidar com crianças pequenas, a escola da capital paulista apostou em brincadeiras para explicar as medidas de segurança contra a covid-19. "Trabalhamos a questão de forma lúdica. Nessa idade, eles entendem melhor por meio da contação de histórias, fantoches e brincadeiras”, afirma Regina.

Cibele, que tem alunos um pouco mais velhos, conta que as orientações foram passadas junto a dinâmicas de acolhimento, para que os estudantes se habituassem novamente ao ambiente escolar, que agora tem novas regras.

Mais do que orientar, acolher
O acolhimento, aliás, é um ponto de bastante atenção na retomada semipresencial. Os coordenadores pedagógicos precisam considerar que muitas crianças e adolescentes voltarão à escola com sentimentos como medo e insegurança e, por isso, essa acolhida é muito importante. E não só para os estudantes.

“Em alguma medida, todo mundo foi impactado pela pandemia. Um dos primeiros cuidados é esse, de conseguir acolher os diferentes grupos, os estudantes, as famílias e o próprio corpo docente”, afirma Mônica de Oliveira Ribeiro Couto, analista educacional na Superintendência de Desenvolvimento da Educação Infantil e Fundamental da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais e formadora de NOVA ESCOLA.

Regina conta que, em sua escola, o primeiro passo foi fazer um acolhimento das famílias, antes mesmo das aulas retornarem, com conversas particulares. Depois, foi hora de acolher os alunos. Por meio de atividades lúdicas voltadas para as idades que a escola atende, as professoras apostaram na contação de histórias em grupos, abrindo espaço para os pequenos conversarem sobre como foi o ano de isolamento, bem como quais eram os sentimentos para o retorno presencial.

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Saiba como os gestores podem se planejar para dar conta das várias dimensões do acolhimento, algo ainda mais importante no contexto de incertezas de 2021: o acolhimento emocional; a busca ativa (encontrar maneiras de trazer os alunos de volta à escola também é acolher); a organização para um retorno seguro, com todos os protocolos de higiene e saúde, e a garantia da aprendizagem.

Na escola Julia Luiz Ruete, o processo de acolhimento também passou por muita escuta. “Muitos chegaram tristes pelas perdas que tiveram de familiares ou amigos e pela situação social”, comenta Cibele. “Na primeira quinzena, prevaleceram algumas dinâmicas para se habituarem ao ambiente escolar e às pessoas, pois muitos mudaram de turma e trocou o professor. Então nós fizemos rodas de conversa e tivemos momentos de escuta. Muitos queriam falar, e deixamos eles exporem seus sentimentos e expectativas”.

Além dos familiares e alunos, docentes e demais funcionários também precisam ser acolhidos por toda equipe gestora. “O professor também tem grande dificuldade. O medo de se contaminar e de contaminar as crianças é algo presente”, relata Regina. “Nesse contexto, o coordenador tem que ter um feeling, um lado afetivo também para trazer esse grupo para si, para que possam caminhar e trabalhar de forma alinhada”, aconselha a coordenadora. Para Mônica, a maior dificuldade em acolher os alunos é justamente ter uma equipe estruturada emocionalmente para tal tarefa.

Cibele conta que, na semana que antecedeu o retorno dos alunos, gestão, corpo docente e equipe de funcionários se reuniram para que esse suporte fosse dado. Ela considera que é papel do coordenador passar adiante a confiança que os demais precisam sentir.

“Sempre com muita tranquilidade, no sentido de incentivo mesmo, e dizendo que essa questão vai passar e que se a gente se unisse seria melhor. E que o novo gerava insegurança para todos, mas que era preciso ousar", diz ela, lembrando do que falou nessa reunião geral.

Aspectos pedagógicos
Além da preparação do espaço escolar e do acolhimento de alunos, famílias e funcionários, a mudança para o contexto híbrido também passa por um entendimento das necessidades pedagógicas dos alunos.

Nesse sentido, o primeiro passo pode ser uma avaliação diagnóstica para verificar quais habilidades foram desenvolvidas e quais conteúdos precisam ser retomados, e pensar nos encaminhamentos necessários. Vale lembrar que o ensino semipresencial é bastante diferente do presencial. Por isso, é importante manter as estratégias usadas no ensino remoto e utilizar os momentos presenciais na escola, onde em geral há revezamento de estudantes, para sanar dúvidas e aprofundar o que foi visto no formato online, televisivo ou impresso.

“Esse coordenador precisa pensar que o encontro com os estudantes é o momento de descobrir quais são as suas principais dificuldades. E ele deve buscar resolvê-las com atividades que levem o próprio aluno, em grupo, no coletivo, a conseguir construir esse aprendizado”, orienta Mônica.

Muitas redes de ensino têm preparado materiais de recuperação e aprofundamento de habilidades. Essas orientações podem ser bastante úteis no cotidiano escolar.

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Equidade é o maior desafio
Outro aspecto ao qual coordenadores pedagógicos precisam estar atentos no ensino remoto é também um dos maiores desafios do modelo semipresencial: garantir a equidade entre os estudantes.

Como não virão todos os alunos, pois nessa situação as famílias não são obrigadas a enviar as crianças para a escola, e nem comparecerão todos no mesmo dia, um grande desafio é garantir que, de fato, o conteúdo chegue de uma mesma forma a todos. “E, em termos de tecnologia, nós sabemos que não chega”, ressalta Mônica, lembrando que nem todos os estudantes têm acesso à conectividade e a recursos tecnológicos para o ensino remoto, como celular e computador.

Regina conta que, em sua escola, a questão tecnológica sempre foi uma dificuldade e, por isso, a comunicação com as famílias é feita por diversos canais para tentar alcançar a todos, como WhatsApp, Facebook e Google Classroom.

Para tentar garantir que aqueles que estão em casa recebam um conteúdo parecido com o de quem está frequentando a escola, as coordenadoras, em parceria a equipe gestora, têm apostado na busca ativa dos estudantes. “É um trabalho diário”, diz Regina. “A gente sempre prioriza esse engajamento, de saber porque estão sumidos e porque não fizeram as atividades ou não retiraram o material que está sendo proposto”, completa Cibele.

Mônica conta que, em Minas Gerais, muitos estudantes, sobretudo do Ensino Médio, sequer chegaram a renovar a matrícula para o ano de 2021. “A gente está nesse movimento de localizar e buscar esses estudantes que, por algum motivo, se perderam. O maior gargalo é, realmente, a garantia de equidade, de que todo mundo está tendo acesso ao direito de aprendizagem que está previsto na BNCC”, afirma.

Para ela, assim como no ensino remoto, é de extrema importância que, no contexto híbrido, os coordenadores reforcem os vínculos com as famílias e incentivem os professores a buscarem ativamente pelos estudantes. Nesse sentido, é importante manter o que já havia sido estruturado no online.

Trazendo a equipe para perto
Depois de compreender todas as particularidades e desafios de contextos híbridos, é hora do coordenador compartilhar essas informações com os docentes, preparando uma formação sobre o tema. Mais do que nunca, é importante contar com o trabalho em equipe.

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O retorno semipresencial não acontece apenas com a força da equipe gestora, apontam as coordenadoras. O envolvimento dos docentes é de extrema relevância, até mesmo no planejamento prévio.

Na escola de Regina, os professores se reuniram em pequenos grupos para discutir quais atividades poderiam ser feitas presencialmente e de que forma isso poderia acontecer. Em seguida, apresentaram as ideias para a coordenadora que, então, promoveu uma discussão com todos.

Novamente, é essencial se apoiar nos materiais enviados pelas redes de ensino, que podem ajudar os coordenadores na orientação dos professores.

Acompanhamento dos docentes
Depois do planejamento conjunto de ações, é essencial que o coordenador pedagógico faça o acompanhamento do trabalho dos professores no dia a dia. É importante manter contato direto com todos eles, sanando dúvidas e aconselhando-os pedagogicamente.

Outra dica é manter a comunicação entre todos a mais clara possível. Na escola onde Cibele é coordenadora, por exemplo, um professor criou uma revista digital na qual o calendário da semana é divulgado, assim como boas práticas realizadas na semana anterior. Desse modo, a organização e a troca de experiências são mantidas com frequência.

Cabe ao coordenador, ainda, verificar se as medidas de segurança e acolhimento estão funcionando corretamente e, se necessário, repensar algumas práticas. Acompanhar o planejamento pedagógico dos docentes e sua execução também é essencial.

Coordenadores pedagógicos também podem observar as aulas dos professores, prática que ganhou força no ensino remoto e deve permanecer no semipresencial. “Se a gente for pensar, é um avanço. Pois, no presencial, o coordenador quase nunca se sente confortável em assistir à aula do professor. Agora, no virtual, ele se sente mais à vontade para acompanhar as aulas e fazer alguma intervenção. Aqui, na rede de Minas Gerais, isso não era uma coisa comum, mas agora vemos que tem funcionado”, exemplifica Mônica.

Dicas para organizar o funcionamento da escola no contexto híbrido
O retorno semipresencial dos alunos é um momento de unir forças para realizar o planejamento das ações

  1. Acolha os professores e funcionários. O primeiro passo para o retorno semipresencial é acolher as dúvidas, os sentimentos e as inseguranças da equipe. Essa escuta pode ser feita anonimamente, por meio de formulários. Uma vez mapeadas as dificuldades, a proposição de ações pode ser realizada em rodas de conversa.
  2. Estabeleça ritos. Antes do planejamento para o retorno, pode ser interessante criar ritos para marcar a passagem do ensino online para o semipresencial. Memorial em homenagem às pessoas que a escola perdeu para a covid-19, roda da gratidão ou mensagens de agradecimento das famílias e alunos aos docentes são alguns exemplos.
  3. Conte com a ajuda da equipe. Crie dinâmicas para que todos possam dar ideias de boas práticas para o retorno semipresencial dos alunos à escola.
  4. Atente aos protocolos. Leia os documentos emitidos pela sua rede de ensino e passe todas as informações aos docentes. Orientações pedagógicas e sanitárias devem chegar a todos.
  5. Sugira atividades. Procure exemplos e apresente ideias de atividades que podem ser propostas aos alunos que estarão na escola presencialmente.
  6. Lembre-se de quem está em casa. Reforce para os professores que as atividades online vão continuar. Pensem juntos em estratégias para conseguir manter a equidade no ensino.
  7. Fale sobre busca ativa. Peça auxílio aos professores para entrar em contato com as famílias, sobretudo as que não enviaram os filhos à escola, para garantir que o ensino remoto continue eficaz.
  8. Crie momentos de relaxamento. Palestras com psicólogos ou práticas de relaxamento podem ser inseridas nas formações da equipe, a fim de trazer cuidados com a saúde mental e um clima mais tranquilo a todos.