Reta numérica: como adequar o uso ao ensino remoto

Mesmo a distância, é possível orientar a construção desse recurso e propor situações-problema envolvendo adição e subtração

POR:
Selene Coletti
Crédito: Getty Images

No ensino da Matemática, a reta numérica é um recurso que pode ajudar os alunos a desenvolver estratégias de resolução de problemas por meio do cálculo mental, além de permitir que compreendam as ideias de adição e de subtração.

A possibilidade de trabalhar com a reta numérica já foi abordada neste espaço, e agora trago uma adequação ao ensino remoto. Se você utiliza esse recurso, sabe o quanto ele facilita a compreensão das crianças no que se refere ao cálculo, independentemente do segmento escolar. Como professora, eu a usava tanto na segunda fase da Educação Infantil como no 1º ano do Ensino Fundamental.

Antes de apresentar a reta numérica para a turma, é importante trabalhar jogos de percurso. Para isso, envie tabuleiros de jogos a fim de que as crianças possam brincar com as famílias e se apropriar do movimento de deslocar-se na reta. Faça um tutorial explicando como jogar e depois proponha que registrem com quem jogaram, quantas vezes jogaram e quem foi o vencedor. Os alunos podem enviar um registro escrito, produzir um vídeo ou um áudio contando o que foi feito. Essa atividade também é uma forma de envolver as famílias, como já falamos em outros momentos aqui.

Adaptação ao ambiente virtual
Como contei da outra vez, eu normalmente construía com meus alunos a reta numérica. Mas isso pode ser feito também a distância, com algumas adaptações. Para começar, peça que os alunos dobrem a folha de sulfite de modo a obter 8 retângulos iguais. Solicite que repitam o procedimento até conseguir 30 retângulos mais ou menos – eu, por exemplo, construía a reta com a mesma quantidade de alunos da turma, assim, se tiver 24 alunos, use 24 retângulos. Mas, atenção: não diga quantas folhas serão necessárias para isso. Contenha-se e não dê a resposta! Peça que façam e depois contem para você – pode ser via WhatsApp, se a sua aula for assíncrona. Aí você já terá uma problematização que renderá boa discussão.

O passo seguinte é solicitar que cortem as formas obtidas e as numerem começando do zero. Pergunte como poderão colocá-las em ordem. A ideia é que organizem os cartões (retângulos) começando do zero para montar a reta numérica. Peça que enviem fotos com as explicações de como fizeram. Explore as respostas e dê devolutivas para a turma. Para te ajudar, preparamos um modelo de reta numérica para imprimir e usar como base. 

A partir desse resultado, explique que irão montar juntos com você uma reta numérica para ajudar a resolver desafios. Eles deverão colar os cartões em um espaço – pode ser diretamente em uma parede ou em um barbante que deverá ficar preso em algo. É importante que o espaço entre um cartão e outro tenha sempre a mesma distância. Os alunos também precisarão providenciar um marcador, como um prendedor ou um clipe, que servirá para deslocar-se na reta e fazer os cálculos. 

Tutoriais e feedbacks
Para ajudar na montagem da reta numérica, você poderá gravar um tutorial mostrando o passo a passo dessa construção. Nesse mesmo tutorial ou em um outro específico para as famílias, explique o porquê desse trabalho bem como a importância da família permitir que as crianças pensem por si e não obtenham as respostas dos adultos que estão ao seu lado nesse momento.

Vale lembrar que fazer questionamentos aos alunos é muito importante, pois as respostas dadas permitem entender como cada um está pensando, possibilitando avançar ou retomar pontos que ainda não estão muito claros.  Dar a devolutiva do que fizeram também é fundamental. Para isso, grave áudios.

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O processo a distância, logicamente, será um pouco mais demorado do que seria presencialmente ou do que dar tudo pronto. Pode parecer difícil, mas os resultados costumam ser muito bons, além de dar espaço para o protagonismo dos alunos mesmo a distância.

Se suas aulas forem síncronas, você poderá proceder da mesma forma, mas com um feedback um pouco mais rápido e dando voz e vez para todos. É claro que não será da mesma forma que seria no presencial, mas você já está se acostumando com isso e deve ter encontrado meios para contornar a situação, não é mesmo?

Propostas de situações-problema
Com a reta construída, proponha uma situação-problema envolvendo uma das ideias da adição e pergunte como podem resolvê-la utilizando a reta. Se a aula for síncrona, observe e pergunte como estão pensando. Caso seja assíncrona, peça que os alunos resolvam e expliquem como fizeram, gravando um áudio ou um vídeo e enviando fotos. Analise o que produziram e compartilhe com a turma por meio de um vídeo, por exemplo.

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A partir daí, apresente como usar a reta numérica. Faça a comparação com o jogo de percurso mencionado no início deste texto. Por exemplo, se você propôs a seguinte situação “num jogo fiz 12 pontos na primeira partida e 9 na segunda. Quantos pontos fiz?”, para resolvê-la utilizando a reta, deverá colocar o “marcador” no 12 (quantidade de pontos da primeira partida) e andar 9 “casas” na reta (quantidades de pontos da segunda partida), obtendo 21, que é o total de pontos. Proponha diferentes situações-problema, envolvendo a adição e a subtração, para que as crianças as resolvam utilizando esse recurso. E, sempre que possível, solicite que expliquem a estratégia usada.

Depois que os alunos tiverem dominando bem o uso da reta, você poderá substituir a reta construída com os cartões por uma impressa numa tira de papel. Inicialmente, ela deve ser numerada e, depois, sem os números, para que as crianças possam fazer cálculos com números maiores. A reta sem os números permite que se possa usar conforme os números que envolvem o cálculo a ser feito. No exemplo dado, se os pontos do jogo fossem 52 numa partida e 12 em outra, utilizando a reta sem os números, o aluno pode começar no 52, dar um salto de dez números e andar mais 2, obtendo 64. Veja na representação abaixo:


Como você viu, é possível trabalhar com esse recurso mesmo remotamente. Ao colocá-lo em prática, você encontrará outras possibilidades, adequando-o à sua realidade e turma e percebendo a sua riqueza.

E então, vamos lá?! Depois me contem o que acharam.

Um abraço e até a próxima,

Selene

Selene Coletti é professora há 40 anos na rede pública. Atuou na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos, lecionando do 1º ao 5º ano. Em 2016, foi uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita,  com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada e também como formadora da Educação Infantil na Prefeitura de Itatiba (SP). Atualmente é vice-diretora da EMEB Philomena Zupardo, em Itatiba.

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