Um ano de ensino remoto: o desafio dos professores que ainda não retornaram ao presencial

Três educadoras de escolas públicas contam como estão lidando com a situação de permanecer no modelo remoto ininterruptamente desde o início da pandemia

POR:
Victor Santos

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamadas com a professora Antonia Ferreira Mendes

A professora Antonia Ferreira Mendes e a equipe de sua escola precisaram elaborar inúmeras estratégias para esse mais de um ano ensinando remotamente. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Desde a confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil, no final de fevereiro de 2020, e o posterior fechamento das escolas e a adesão ao ensino remoto emergencial, muita coisa aconteceu e impactou o dia a dia de alunos, famílias e educadores de todo o país. Inicialmente, calendários escolares foram redesenhados; mais tarde, no segundo semestre de 2020, ocorreram reaberturas graduais das escolas; e posteriormente, em 2021, com a pandemia atingindo índices ainda maiores de contaminações, internações e mortes, as instituições que haviam retornado presencialmente voltaram a fechar. Esse processo de abre e fecha acabou por afetar a saúde mental e o próprio trabalho de muitos professores, trazendo preocupações em relação ao processo de ensino e aprendizagem.

Em meio a tudo isso, alguns educadores vivenciam uma situação peculiar: a de estarem ininterruptamente trabalhando de casa e de não terem retornado ao ensino presencial em nenhum momento, desde o fechamento das escolas, em março de 2020. Eles iniciaram o ano letivo de 2021 também de modo remoto e estão há mais de 13 meses sem pisar na sala de aula e ver presencialmente seus alunos.

Três educadoras que estão passando por essa experiência contam suas percepções. Os relatos envolvem queixas como ansiedade e saudade do contato com os estudantes e ainda uma certa dificuldade em lidar com ferramentas tecnológicas, como os vídeos. Por outro lado, elas também contam que já estão um pouco mais seguras e familiarizadas com o ensino remoto e que sentem um certo alívio por não estarem expostas ao vírus em meio aos recordes de casos em suas localidades.

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Difícil, mas mais tranquilo do que em 2020
A educadora Antonia Ferreira Mendes dá aulas na Escola de Ensino Infantil e Fundamental Domingos Gomes de Aguiar, na rede municipal de Tauá (CE), em dois turnos: pela manhã, atua em uma turma multisseriada com 1º e 2º ano nas disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História, Geografia, Artes, Ensino Religioso e Educação Física, e à tarde, ensina Geografia, Artes, Ensino Religioso e Educação Física fica para uma turma de 5º ano. O ensino remoto implantado em 2020 trouxe ainda mais uma camada de desafios para a sua atuação nessas duas frentes de trabalho. Mas, embora a retomada das aulas em 2021 tenha seguido de forma remota em sua cidade devido ao avanço da pandemia, ela avalia que este ano está mais tranquilo em relação a 2020, pois já tem a experiência de trabalhar nessa modalidade.

No entanto, algumas preocupações seguem presentes no dia a dia da professora. Uma delas é a mesma de educadores de norte a sul do país: a falta de conectividade por parte dos alunos. “Infelizmente, nem todas as crianças têm acesso à internet, e também há aquelas que possuem o acesso, mas as famílias não conseguem ajudá-las nas aulas on-line”, diz.

O WhatsApp tem sido uma das principais ferramentas de trabalho remoto da professora Antonia Ferreira Mendes, de Tauá (CE). Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Para tentar superar esses obstáculos, Antonia e a equipe da escola desenvolveram algumas estratégias. No caso dos estudantes que não têm internet, há a entrega de atividades impressas, assim como ocorre em outras instituições em todo o Brasil. “A nossa escola se localiza em uma região central e recebe alunos de várias localidades, algumas bem distantes. Contamos, por exemplo, com o apoio de uma funcionária da biblioteca da escola, que mora na mesma localidade que dois dos alunos. Ela leva as atividades até eles e, posteriormente, as traz para mim de volta”.

Já para a comunicação com as famílias, o WhatsApp vem sendo o principal aliado. “Nós, inclusive, já tínhamos um grupo com os pais de cada turma, para informar sobre reuniões e atividades de casa”, lembra a educadora. “Quando ocorrer o retorno das aulas presenciais, acredito que essa parceria e essa troca de informações vai se fortalecer ainda mais”.

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Enquanto essa volta segura ao ambiente escolar presencial não acontece, o aplicativo de troca de mensagens instantâneas é peça-chave na rotina de trabalho de Antonia. “Eu dou aulas via WhatsApp. Faço áudios, gravo pequenos vídeos com meu celular para explicar os conteúdos e as atividades propostas para cada aula e utilizo também vários vídeos do YouTube”, detalha a professora.

Ela comenta também que essa questão específica da gravação dos vídeos, aliando recursos tecnológicos e práticas pedagógicas, ainda lhe traz certa dificuldade. “Tem momentos em que me sinto apreensiva diante de algumas aulas que são mais complexas. Fico pensando se vai dar tudo certo e se vou conseguir explicar de uma maneira que os alunos possam compreender”. 

Lidar com essa pressão e novas demandas está longe de ser fácil, mas a professora já enxerga alguns aprendizados nesse período. “Estou sempre buscando me aperfeiçoar, e um dos maiores ensinamentos que tiro disso tudo é que devemos acreditar que somos capazes de aprender cada vez mais. Precisamos enfrentar os desafios e ter força de vontade para buscar fazer sempre melhor”.

Aprendizados com tecnologia e dificuldades do ‘home office’
Apesar de estar a quase 2.500 km de distância da professora Antonia, a educadora Ana Carolina Careli, de Volta Redonda (RJ), passa por situações similares às vivenciadas pela professora cearense.

Ana Carolina leciona para o Maternal 2 e para o 2º ano do Ensino Infantil (Pré 2) na Escola Municipal Professor Wladir de Souza Telles e está há mais de um ano trabalhando de maneira remota. “Na cidade, estamos na bandeira roxa, pois há muitos casos de pessoas infectadas. Foi decidido que a escola só retornará quando for seguro”, explica a professora, que desde 2020 passou a ter os recursos tecnológicos como ferramentas de trabalho.

Ela conta que a escola está usando o Google Sala de Aula. “Inicialmente, postamos tarefas para os responsáveis realizarem com as crianças, e também inserimos pequenos vídeos relacionados aos temas abordados nessas atividades”.

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Assim como a professora Antonia, Ana Carolina relata alguns aspectos positivos e negativos da dinâmica de 2021 quando comparada ao ano de 2020. “Claro que ainda há coisas para dominarmos, mas um ponto positivo é que já aprendemos a usar a plataforma e a planejar tarefas para o ensino remoto. No entanto, ainda não somos especialistas em gravar vídeos e produzir aulas mais elaboradas”.

Por conta da especificidade do seu trabalho com crianças, a professora destaca a dificuldade em conciliar ensino remoto e Educação Infantil. “As crianças precisam estar em contato umas com as outras, pois é importante ter esse vínculo. Então, às vezes, tenho a impressão de que não estamos de fato cumprindo o papel da Educação Infantil”.

Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Para tentar superar esses desafios, Ana Carolina tem buscado mais conhecimentos. “Estou estudando bastante a BNCC e feito muitas pesquisas para conseguir planejar aulas de qualidade e que sejam significativas para as crianças”. Ela diz que busca avaliar a aprendizagem com o apoio dos pais, que enviam dúvidas pelo WhatsApp, além de fotos e vídeos das crianças realizando as tarefas.

No que se refere à sua saúde mental, a educadora relata que já era uma pessoa ansiosa antes da pandemia. “Mas agora, parece que duplicou, e tenho lutado contra isso diariamente”. De acordo com ela, com a dinâmica de trabalhar de casa, as coisas se tornam ainda mais complexas pelo fato dela ser mãe e professora. “Trabalho em dois períodos e tenho dois filhos. Não posso ignorar as necessidades da minha família enquanto estou no meu horário de trabalho, porque aqui também é o lar deles e eu sou a responsável. Fico preocupada se estou sendo uma boa professora e uma boa mãe”.

Mesmo com vários desafios, a professora tenta tirar algumas lições dessa situação. “A pandemia mostrou que somos capazes de nos adaptar e superar as novas adversidades”, enfatiza. “Quanto à educação, acredito que nunca mais será a mesma. Não tem como ignorar os benefícios da tecnologia”, completa.

Complexidades do trabalho com alunos com deficiência
O acúmulo de preocupações, dificuldades e questões a serem resolvidas também dá o tom da rotina profissional de Roziane Almeida Barbosa, professora da sala de recursos multifuncional da Escola Municipal de Ensino Fundamental Tancredo Neves, em Tailândia (PA). Assim como as professoras de Tauá (CE) e de Volta Redonda (RJ), ela já está há mais de um ano trabalhando de casa, pois o plano de retomada das aulas presenciais em sua cidade foi paralisado devido ao aumento das infecções por covid-19.

Roziane atende e acompanha estudantes com deficiência e que têm dificuldade de aprendizagem, envolvendo crianças com paralisia cerebral, transtornos do espectro autista, deficiência auditiva e deficiência intelectual. Ela explica que o trabalho com esses alunos é específico e personalizado. “O desenvolvimento contínuo e a inclusão de cada um desses estudantes exige, além de metodologias ativas, o próprio meio físico presencial. Estamos habituados a observar as evoluções e dificuldades deles durante esse contato presencial, o que torna a experiência do ensino remoto um desafio gigantesco”.

Esse desafio acontece em vários aspectos. “Primeiro, eu ainda preciso de certa ajuda de amigos e familiares para a edição de vídeos, por exemplo. E muitos dos alunos, infelizmente, não têm acesso à tecnologia”, diz. “Além disso, as dificuldades desses estudantes são muito diferentes entre si, o que exige atividades personalizadas para inseri-los na aprendizagem por meio remoto. O trabalho triplicou”.

Para lidar com todas essas questões, Roziane elaborou uma estratégia. “Uma forma que encontrei de me aproximar dos estudantes e melhorar o seu desenvolvimento cognitivo foi confeccionar materiais que eles pudessem levar para casa, para auxiliar em questões ligadas à leitura, à escrita, à coordenação motora e à matemática”, exemplifica a educadora. “Então, eu crio materiais como caixa da leitura, caixa numérica, caderno-lousa com material plastificado, alfabeto móvel e ficha numérica”.

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Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Ainda assim, para que as atividades com esses materiais transcorram adequadamente, é essencial ter a ajuda dos familiares. “O engajamento dos pais neste ano tem me surpreendido positivamente em relação a 2020. A maioria segue as orientações para a realização das tarefas, e quando o aluno não entende algo na atividade proposta, eles me ligam”, conta Roziane. “Eles sempre postam fotos ajudando os filhos. Inclusive, está sendo motivador esse resgate participativo dos familiares na relação de comprometimento e de crescimento socioeducacional dos alunos”.

A professora, no entanto, também ressalta as dificuldades da sua rotina de mais de um ano atuando remotamente. “Meu organismo foi afetado, tive insônia, ansiedade, exaustão, e senti muita tristeza. Fora que esse volume de trabalho em casa, sem seguir um cronograma específico de horário, acaba se misturando à minha vida pessoal”, diz. Ela também sente falta de algo que antes era corriqueiro e essencial em seu dia a dia: o afeto dos alunos. “Já se passou mais de um ano e ainda não me acostumei à falta do abraço e do carinho de cada criança, que tínhamos no contato presencial. Mesmo com os alunos enviando áudios dizendo que estão com saudades, quando eu os ouço chorando e querendo a volta da escola, fico angustiada”, conta.

Apesar de estar lidando com questões tão complexas em seu dia a dia profissional, Roziane busca também enxergar as lições que tira desse período, e o cenário que vislumbra para a Educação. “Mesmo com o retorno presencial, muito do que aprendemos durante o ensino remoto será mantido. Por exemplo, a forma mais dinâmica de ensinar com atividades objetivas, bem definidas e com maior interação tecnológica – o que possibilita aprimorar também o atendimento inclusivo”, observa a professora. “Os próprios alunos vão cobrar as interações vivenciadas ao longo desse período, e o avanço rumo ao ensino híbrido já se torna realidade”.

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