Após mais um ano de pandemia, preocupações dos docentes giram em torno das incertezas do retorno presencial

As inquietações relacionadas ao avanço da pandemia, a aprendizagem dos estudantes e a sobrecarga de trabalho, somam-se agora as indefinições sobre como será a volta ao ambiente escolar e o receio de contaminação

POR:
Camila Cecílio
Crédito: Getty Images

O sol brilhava forte naquela manhã de junho de 2020, mas as janelas do quarto de Rejane Gomes Martins permaneciam fechadas para evitar que qualquer raio luminoso entrasse no cômodo. Por mais que um novo dia começasse, ela não sentia vontade de sair da cama, alimentar-se ou interagir com outras pessoas.

“O pensamento ficou lento, eu tinha muita dificuldade de concentração e a produtividade caiu drasticamente, só que, para mim, aquilo não era depressão”, lembra a professora, que leciona para o 1º ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal de Educação Básica Lizamara Aparecida Oliva de Almeida, em Sinop (MT. “O ápice foi passar uma semana sem comer. Eu só chorava”, conta.

A situação a qual Rejane se refere aconteceu três meses após as escolas de todo o país fecharem as portas por conta da pandemia da covid-19, que parou o mundo. No início, a expectativa era de que o afastamento do ambiente escolar seria de apenas algumas semanas. Mas, meses depois, ninguém ainda sabia quando e se haveria um “novo normal”.

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A essa altura, Rejane já tentava se adaptar às novidades impostas por um ensino remoto sem precedentes. Ela gravava suas aulas em casa e as enviava aos alunos e às famílias pelo WhatsApp e lia tutoriais na internet para compreender o universo virtual e aprender a usar novos aplicativos e ferramentas tecnológicas. Mas, com o passar das semanas, a professora foi se sentindo cansada das telas e das demandas online. “No ritmo intenso daqueles dias, não fui percebendo os sinais, mas eu já não queria mais mexer no celular”, recorda. Ela continuou gravando suas aulas, mas sabia que algo não ia bem.

“Quando dei por mim, eu não queria fazer coisas básicas do cotidiano e nem mesmo sair do quarto”, diz Rejane, que encontrou na psicoterapia e nos familiares e amigos o apoio necessário para atravessar o período difícil e hoje está bem.

Possibilidade de abertura das escolas: uma angústia real
Depois de mais de um ano de pandemia, histórias como a de Rejane se tornaram comuns e mais frequentes do que em qualquer outro momento da Educação. E não é para menos. “Em 2020, tivemos uma situação bastante difícil de mudança abrupta de contexto, adaptações para o ensino remoto, sobrecarga de trabalho e preocupações em manter os alunos vinculados à escola e em relação ao acesso deles à internet e a dispositivos eletrônicos. Esses cenários são muito fortes, especialmente, para professores da rede pública”, afirma Regina Prandini, doutora em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A especialista avalia que, apesar de todas as dificuldades, ao longo do último ano houve uma acomodação ao contexto do ensino remoto, no sentido de que os educadores foram se adaptando. No entanto, o virar do ano de 2020 para 2021 trouxe a possibilidade do retorno presencial e gerou muita ansiedade nos profissionais da Educação, especialmente naqueles que atuam na rede pública.

“A escola pública é precária porque não se tem mais funcionários para limpeza, nem mesmo contratos novos com empresas terceirizadas. Como retornar diante de uma condição dessa?”, questiona Regina. Além disso, de acordo com a especialista, para voltar presencialmente à escola, é necessário um esquema robusto para receber as crianças em sistema de rodízio, o que também demanda pessoal. “Isso tudo leva a uma pressão muito grande em cima do professor, além do risco alto de contaminação”, pontua.

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Medo, ansiedade, incertezas
A professora Rejane e seus colegas vivenciaram essa situação recentemente. Em fevereiro, a Prefeitura de Sinop decretou o retorno presencial de professores e funcionários à escola. Os primeiros 15 dias já foram suficientes para que os primeiros casos de covid-19 aparecessem entre os profissionais. Mesmo com o afastamento dessas pessoas, novos casos surgiram. E, logo em seguida, foi a vez das crianças voltarem à sala de aula. Somente quando muitos professores e alunos foram contaminados, um decreto do governo estadual obrigou os municípios a suspenderem as aulas.

Na época, a professora, que seguia em acompanhamento psicológico desde outubro de 2020, se sentiu angustiada, ansiosa e com medo diante dos impactos da retomada das aulas. Atualmente, a previsão é que o ensino presencial retorne no dia 7 de maio, de forma escalonada. “Muitos professores estão numa condição igual à minha. Muitos estão passando por tratamento psicológico devido à perda de familiares e amigos”, conta Rejane. “Por isso, voltar para a escola neste momento é uma possibilidade que causa inquietação.”

A mesma preocupação tem a professora Eliane Souza, que leciona Língua Portuguesa para  o 3º ano do Ensino Fundamental na Escola Municipal Professor Hauler da Silva Ferreira e para o 3º ano do Ensino Médio no Ciep 021 General Osório, ambos em Nova Iguaçu (RJ). “Por mais que eu queira voltar a dar aulas presencialmente, ouvir que a escola vai reabrir agora soa como uma ameaça”. Ela relata que, em 2020, teve crises de ansiedade acentuadas pelo afastamento dos alunos, medo do desconhecido e incertezas sobre o futuro. Na época, ela chegou a participar de uma pesquisa de NOVA ESCOLA sobre a situação dos professores na pandemia.

A dificuldade em lidar com ferramentas tecnológicas também foi um agravante para a situação. Eliane, assim como muitos educadores, teve que aprender a trabalhar com recursos que não conhecia ou que havia usado pouco nos últimos anos. Mas a verdadeira frustração foi ver que boa parte dos estudantes não conseguia participar das aulas remotas. A isso, somou-se ainda o medo do vírus, de pessoas queridas adoecer e até de ficar sem receber seu salário, apesar de ser concursada nas duas redes em que atua.

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Como Rejane, Eliane precisou de ajuda profissional. Hoje, depois da tempestade de 2020, afirma que está mais estável, uma vez que encontrou seu próprio ritmo no ensino a distância. Mas agora, o anseio maior é em relação ao retorno presencial. “Eu me pergunto quando vou poder voltar à escola sem sentir medo. De que forma vamos voltar? Para qual espaço? Como vamos lidar com pessoas que sabemos que não estão vacinadas, que não estão se cuidando ou que perderam entes queridos? Como vamos lidar com as demandas emocionais das crianças? Tudo isso afetará a aprendizagem dos alunos, que também precisam ser vacinados”, reforça.

Abre e fecha das escolas e dupla jornada

Para Regina Prandini, a incerteza sobre o retorno presencial impacta a disposição dos professores, inclusive, para trabalhar. “E, consequentemente, afeta também a saúde mental”. De acordo com ela, o sofrimento em relação à situação da pandemia e ao risco de doença e morte, no caso dos professores, foi agravado ainda pelo abre e fecha das escolas. “Ter de ir trabalhar com medo e conviver com todas essas incertezas geram um ambiente propício para depressão, ansiedade e síndrome do pânico”, avalia.

Ela chama atenção ainda para o excesso de trabalho que afeta, principalmente, as mulheres com filhos pequenos, independentemente da profissão. Em relação às professoras, além da pressão para dar conta das aulas remotas, são elas que, geralmente, acompanham a vida escolar dos filhos e se encarregam das tarefas domésticas. “É uma sobrecarga que não está sendo fácil para nenhuma dessas mulheres”.

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Sintomas que precisam ser olhados com atenção
Com tantas questões e desafios simultâneos, é fundamental parar, respirar e também olhar para si. Alguns sintomas podem indicar que é hora de procurar ajuda de um profissional. Mas, calma. Regina defende que, apesar do cenário ainda ser desolador, nem toda tristeza é sinônimo de depressão.

“Todo mundo vai passar por períodos que não se sente bem, que vai ter saudades da vida que tinha. É de se ficar triste sim, afinal, houve uma perda, há um luto: perdemos um jeito de viver”, ressalta. “Hoje em dia, a tristeza indica que a pessoa tem consciência do momento difícil que a humanidade vive e pode ser um sintoma de saúde mental”, ressalta. No entanto, a tristeza profunda, que dura mais de duas semanas, deve ser olhada com atenção”, alerta. 

De acordo com a especialista, é necessário ir, aos poucos, tomando consciência de que não haverá um retorno. “O mundo está em transformação, e teremos que construir outras maneiras de viver”, afirma. Para isso, cuidados básicos do dia a dia podem ajudar a enfrentar os dias pandêmicos com mais leveza, generosidade e amparo emocional. 

DICAS PARA CUIDAR DA SAÚDE MENTAL

Confira algumas orientações da especialista Regina Prandini que podem ajudar os professores a lidarem melhor com os desafios deste momento

  1. Observe como anda a sua alimentação e o seu sono. Comer e dormir bem são os principais indicadores de saúde e de um certo equilíbrio, lembra Regina. “Isto é, nem muito, nem pouco, e não compulsivamente, tanto para um quanto para o outro.” 
  2. Preste atenção em como você está se relacionando com as pessoas. Outro indicador de saúde mental é identificar como está a sua interação com os outros. Observe se há muitos conflitos ou isolamento. A irritabilidade aguçada também pode indicar que algo não vai bem, ainda mais se esse sintoma for novo na rotina.
  3. Fortaleça os vínculos. “Neste momento, o essencial para nos mantermos bem é nos cuidarmos e fortalecer os vínculos que temos”, enfatiza Regina. O isolamento social fragiliza os vínculos, de modo que as pessoas ficam muito sós. “Essa é uma situação que predispõe à depressão”, alerta.
  4. Divida as suas preocupações com quem confia. Ao procurar amigos para conversar, você não só fortalece os laços, mas também cria uma rede de apoio. “É isso que temos que fazer: criar espaços para poder falar o que estamos pensando e sentindo, reconhecendo, dando importância e manejando esses sentimentos e pensamento, senão eles crescem e devoram a gente”, aconselha a especialista.
  5. Compartilhe com quem vive situações semelhantes às suas. Na Educação, tem sido cada vez mais comum encontrar colegas vivenciando os mesmo medos e anseios. Por isso, converse e compartilhe com quem está passando por situações parecidas com as suas, pois essas pessoas tendem a ter uma capacidade maior de compreensão e empatia com os seus sentimentos.
  6. Se sentir que está pesado, procure ajuda profissional. Não deixe de conversar com um psicólogo, uma vez que muitos profissionais estão fazendo atendimentos online. Se houver necessidade, ele vai encaminhá-lo a um médico especialista. Vale lembrar que qualquer diagnóstico deve ser feito por um profissional, a partir de um sentimento que é sustentado ao longo do tempo.
  7. Atente se alguém próximo a você precisa de ajuda. “Muitas vezes, as pessoas que estão passando por essas situações precisam de auxílio para procurar ajuda. Essa visão do comportamento que se sustenta pode ser um importante indicativo”, explica Regina. Nesses casos, vale conversar com a pessoa e incentivá-la a buscar um profissional. No entanto, a especialista lembra que há situações mais delicadas, que requerem outra abordagem. “Se alguém da família ou um ente querido morreu, não é depressão, é luto”, finaliza.

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