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O segredo do sucesso de Khan

Saber explicar raciocínios de forma clara e simples: essa é a chave dos vídeos do professor mais famoso da internet. Mas será que apenas isso basta para uma aula de qualidade? Leia o relato e opine.

POR:
Rodrigo Ratier
Veja na Sala de Aula

Ele começou ajudando uma prima com dificuldades em Matemática. Hoje, ensina via YouTube para uma classe de quatro milhões de internautas. Com vídeos curtos e simples sobre diversas áreas do conhecimento, o engenheiro e matemático indiano Salman Khan virou febre na rede mundial. No Brasil, a difusão de seu trabalho amplificou-se com o lançamento da versão em português de parte de suas aulas. Mas pouco se falou do fenômeno do ponto de vista pedagógico. Nesse aspecto, duas questões chamam atenção. A primeira: por que as aulas de Khan são tão populares? E a segunda: basta recorrer à sua receita de sucesso para dar uma aula de qualidade? Abaixo, mergulhamos nas duas respostas.

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1- Por que as aulas de Khan são tão populares?
As aulas de Khan fazem sucesso porque o matemático consegue explicar de maneira clara e simples seu raciocínio para a resolução dos problemas propostos. As ideias do pesquisador francês Guy Brousseau, um dos maiores especialistas da área de Didática da Matemática (ramo da Pedagogia destinado à investigação de caminhos para ensinar de modo que todos aprendam), ajudam a entender a questão. Segundo Brousseau, a explicação dos raciocínios de resolução é parte de um processo conhecido como explicitação. Vale a pena detalhar um pouco como ele se dá para entender o alcance - e os limites - do trabalho do indiano.

Na definição do francês, explicitação é  a "passagem do conhecimento ao saber". No sentido da frase, as duas palavras estão longe de serem sinônimos. Conhecimento diz respeito a algo implícito, ligado ao plano das ações. Por exemplo, uma estratégia de cálculo mental que uma criança usa para resolver um problema matemático, na base da tentativa e erro, ainda sem formular para os outros (e para si próprio) qual caminho estabeleceu para conseguir chegar à solução. O saber, por outro lado, é mais elaborado: trata-se de uma estratégia já discutida e confrontada com outras posições (o que se chama de formulação), posta à prova e aceita socialmente (o que se chama de validação).

A explicitação, portanto, envolve a passagem por essas três etapas: ação, formulação e validação. Pela própria natureza de suas aulas, que não permitem interação e a necessária troca de experiências, Khan põe ênfase na ação e na validação, fases mais identificadas com a experiência da Educação a distância. 

2- Basta recorrer à receita de sucesso de Khan para uma aula de qualidade?
Não. Fornecer explicações claras e simples é importante, mas não suficiente. Para os alunos, os vídeos podem até servir como uma indicação de recurso extra (que deve vir sempre acompanhada de um conjunto de fontes) para aprofundar o conteúdo aprendido - ou, caso a turma tenha familiaridade com o tema tratado, é possível convidar os estudantes a analisar e explicar os procedimentos utilizados pelo indiano. Para você, professor, vale conferir como um exemplo de explicitação - mas não o único, nem o melhor. Vejamos porquê.

Transpostas para o ambiente real, aulas como as apresentadas por Khan na internet estariam próximas do ensino tradicional. Afinal, são centradas na explicação do docente (a conhecida imagem do professor no tablado "puxando a lousa", enquanto os alunos só escutam).

Não é o desejável: pesquisas da Didática da Matemática apontam que a atividade matemática consiste basicamente em buscas pessoais e compartilhadas de resolução de problemas para os quais ainda não se tem solução. "Esse processo envolve antecipações, experimentações, comunicar para os outros o que foi realizado, argumentar a favor ou contra certa solução, analisar erros, rever e estabelecer acordos dentro do grupo", explica Priscila Monteiro, consultora pedagógica da Fundação Victor Civita (FVC).  

Leia reportagem sobre as pesquisas mais recentes da didática da Matemática 

Por tudo isso, aulas em que se expõem conceitos, fórmulas e regras ("fixados" posteriormente por meio da repetição de exercícios) não são as mais indicadas para que haja, de fato, construção de conhecimento. 

Isso não significa, entretanto, que seja preciso abandonar esse conjunto de procedimentos clássicos. Mas é preciso lembrar que as situações de sala de aula são infinitamente mais complexas do que o ambiente presente na Educação a Distância - ainda mais num modelo de autoinstrução como o de Khan, em que a interação aluno-professor é muito reduzida e os contatos aluno-aluno, inexistentes. 

Em sala, mesmo que a aula fosse totalmente expositiva, o aluno poderia interagir mais do que com o vídeo, pois teria a oportunidade de perguntar e contrapor formas de resolver problemas. Se houvesse trabalhos em grupo, então, essa característica seria potencializada, o que é uma vantagem: ainda de acordo com as descobertas da didática da Matemática, o aprendizado exige desafios significativos, tempo para a reflexão e a discussão em grupo. 

Por meio desse percurso, a explicitação passa a estar a cargo dos próprios estudantes e não do docente. É uma mudança fundamental em relação à metodologia tradicional, em que o processo está apenas nas mãos do professor. É o que ocorre nas aulas de Khan: em diversos vídeos de aritmética, por exemplo, o indiano explica uma forma de realizar um determinado cálculo afirmando ser "a mais fácil". Mas cabe refletir: mais fácil do ponto de vista de quem? Quais conhecimentos os alunos precisam ter para entender o procedimento utilizado?

O risco, nesse caso, é dar ao aluno a impressão de que é solução apresentada é a única maneira de resolver o problema, o que quase nunca é verdade. Assim, os vídeos do indiano podem ser um apoio extra, mas jamais substituirão o professor e seu conhecimento didático, capaz de auxiliar cada aluno a ser um sujeito ativo, e cada vez mais autônomo, na construção do próprio saber.

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