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Parcerias: educadores compartilham como trabalhar em redes de colaboração

Três professores do ensino público se unem para trocar experiência e contribuir para projeto de produção de cordéis durante o ensino remoto

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

O sentimento de solidão na profissão de professor já era algo relatado pelos educadores. Mas, com o ensino remoto, isso se intensificou ainda mais, uma vez que as trocas diárias na sala dos professores ou pelos corredores se perderam. Para lidar com essa situação, um dos caminhos é buscar formas de fortalecer as relações entre a equipe docente, mesmo a distância. Outra possibilidade é participar de redes colaborativas entre professores de diferentes escolas, cidades ou até mesmo estados, uma vez que a internet permite romper fronteiras e conectar educadores de todo o Brasil.

Foi isso que fizeram os professores Mônica Felismino, Andrea Cavina e Gilson Franco. Eles diminuíram as distâncias entre Mogi das Cruzes (SP), Assis (SP) e Fortaleza (CE) ao se conectarem para superar desafios e contribuir para a aprendizagem dos alunos. Apesar das realidades diferentes e de não atenderem a mesma etapa de ensino, eles encontraram pontos em comum que favoreceram a colaboração e as trocas de experiências durante o ensino remoto.

Cordéis em três cidades diferentes

Mônica, professora na Escola Municipal Dr. Isidoro Boucault, em Mogi das Cruzes (SP), enfrentava uma realidade comum durante o ensino remoto: a dificuldade de engajar a turma de 3º ano do Ensino Fundamental e a falta de conectividade.

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Enquanto buscava caminhos para contornar esse cenário, durante um encontro da  Conectando Saberes, rede nacional de professores apoiada pela Fundação Lemann, mantenedora de NOVA ESCOLA, ela conheceu o trabalho com cordel desenvolvido pela professora Andrea, que dá aula para o 5º ano na Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Profª. Angélica Amorim Pereira, em Assis (SP). 

A experiência da educadora inspirou Mônica a desenvolver um projeto semelhante para resolver os desafios que enfrentava. Ela entrou em contato com Andrea, que contou mais sobre o trabalho que havia feito. Mônica descobriu que a professora também havia tido o apoio de Gilson, cordelista e professor de Língua Portuguesa no Fundamental 2 da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Prof. Ademar Nunes Batista, em Fortaleza (CE), que também participa da Conectando Saberes. 

Os professores de Assis e Fortaleza acompanharam, a distância, o projeto de Mônica. Pela diferença de agenda de cada um, o que funcionou foi criar um grupo no WhatsApp para reunir os três. "Trocamos mensagens e áudios e todos conseguimos participar de modo assíncrono", explica Mônica.

Com essa parceria, a professora de Mogi das Cruzes começou então o trabalho com a turma. A primeira atividade foi criar um cordel que traduzisse como os alunos estavam se sentindo. Com base nessa produção, eles discutiram as emoções e nomearam sentimentos. "Isso animou bastante a sala, porque os ajudou a passar por esse momento e tinham um motivo para escrever", conta Mônica. Durante a discussão sobre os sentimentos, os alunos pensaram em como estavam os profissionais da saúde durante a pandemia. Eles tiveram a ideia de escrever cordéis e entregar no posto de saúde próximo à escola. 

Com o passar das semanas, no entanto, a professora percebeu que a participação dos estudantes estava voltando a diminuir. Surgiu então a ideia dos alunos de Andrea gravarem vídeos contando sobre a importância do projeto como forma de incentivar a turma de Mogi das Cruzes. 

Para incluir e engajar aqueles alunos que não tinham acesso às atividades online, a professora Andrea sugeriu que Mônica escrevesse cartas relatando o que estavam fazendo e convidando-os a participar. A ação deu certo, e esses estudantes também fizeram suas produções e mandaram por carta para a educadora. "De uma turma de 28 alunos, em novembro, eu tinha 27 participando do projeto [o único que não fez parte foi um aluno que foi transferido]", lembra Mônica.

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Para finalizar, os três educadores tiveram um encontro virtual com os alunos de Mônica. Eles contam que foi um momento emocionante, em que os estudantes recitaram os cordéis que criaram, e avaliam como positivo o resultado final do trabalho. "Consegui mantê-los engajados, incluir os alunos que não tinham acesso à internet e coletivamente favorecemos a aprendizagem", afirma a professora de Mogi das Cruzes. 

Por que trabalhar em rede?

Nem todo desafio precisa ser enfrentado sozinho ou partindo do zero. Ao conhecer a vivência de outro professor que esteve diante de uma realidade semelhante, é possível aproveitar as aprendizagens e encurtar o caminho para a resolução da dificuldade. "No lugar de testar soluções e falhar, podemos aprender com o que deu certo com outro professor”, destaca Mônica. 

A rede colaborativa também se torna um apoio emocional para os educadores. “O professor se sente muito sozinho, e a rede é a possibilidade de encontrar alguém para te estender a mão, falar que sente as mesmas angústias e que pode te ajudar”, afirma Andrea.

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Especialmente neste momento de pandemia, as redes são uma ferramenta poderosa de conexão e fortalecimento. "A pandemia trouxe um novo olhar para a Educação, muita coisa mudou. Não é só sobre dar aula, mas precisamos nos aproximar de outros professores que acreditam na profissão", ressalta Gilson. “Esses espaços também favorecem a criatividade dos professores e trazem esperança sobre o futuro”. 

De acordo com os educadores, o trabalho em rede é transformador e amplia a visão de Educação de quem participa. A parceria também fortalece os educadores e enriquece a prática pedagógica. "Juntos podemos ir mais longe", afirma Mônica. "Quando dividimos o que estamos fazendo, os resultados são melhores e mais significativos".

Especialmente neste momento de pandemia, as redes são uma ferramenta poderosa de conexão e fortalecimento. "A pandemia trouxe um novo olhar para a Educação, muita coisa mudou. Não é só sobre dar aula, mas precisamos nos aproximar de outros professores que acreditam na profissão", ressalta Gilson. “Esses espaços também favorecem a criatividade dos professores e trazem esperança sobre o futuro”.

De acordo com os educadores, o trabalho em rede é transformador e amplia a visão de Educação de quem participa. A parceria também fortalece os educadores e enriquece a prática pedagógica. "Juntos podemos ir mais longe", afirma Mônica. "Quando dividimos o que estamos fazendo, os resultados são melhores e mais significativos".

5 pontos para começar a trabalhar em rede

Os educadores compartilharam caminhos possíveis para professores que estejam interessados em participar de redes colaborativas: 

  1. Procure grupos de professores da sua cidade: Mônica afirma que há muitas informações sobre esses grupos na internet. Para participar do Conectando Saberes basta entrar no site e buscar o núcleo mais próximo.
  2. Encontre redes a partir de seus interesses: Além de grupos locais, é possível encontrar também redes de professores nacionais com foco em determinados assuntos. Por exemplo, grupos sobre robótica ou metodologias ativas.
  3. Tenha objetivos bem definidos: Para trabalhar em rede, a professora Andrea compartilha que é fundamental o professor ter claro o que deseja alcançar para conseguir superar as dificuldades e os questionamentos.
  4. Organize encontros entre a turma e os professores da rede: É uma forma dos alunos se sentirem valorizados, porque é alguém de fora conhecendo e reconhecendo positivamente o trabalho desenvolvido.
  5. Tenha confiança e esteja aberto para as trocas: Andrea sugere que o professor confie nos demais educadores e esteja disposto a se abrir, falar o que pensa e sente e compartilhar suas ideias. O educador precisa estar aberto a mostrar suas vulnerabilidades e dificuldades para conseguir pedir ajuda.