Educação Infantil: como abordar a cultura indígena para além dos estereótipos

Vamos refletir como podemos mudar nossa prática pedagógica para falar sobre povos indígenas de uma forma mais respeitosa e próxima da realidade. Confira sugestões:

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Evandro Tortora
Crédito: Getty Images

Assim como acontece em outras datas no calendário escolar, o “Dia do Índio” é trabalhado, em muitos casos, de forma preconceituosa, estereotipada e empobrecida. Reforça-se a imagem do indígena como aquele que mora numa oca e anda por aí “fantasiado” ou sem roupa pela floresta.

Uma pesquisa rápida nos mostra que essa perspectiva está muito presente nos planejamentos da Educação Infantil. Se digitarmos “atividades para o dia do índio” no YouTube encontramos sugestões de cocares para serem confeccionados com cartolina, enfeites de pena e músicas infantis que reforçam estereótipos. Essas propostas são difundidas há anos e desconsidera a vivência e luta dos povos indígenas brasileiros. 

O que fazer (e o que não fazer) ao abordar os povos indígenas em suas aulas 

Abandonar estereótipos e se informar sobre sua diversidade é compromisso de respeito que escolas e professores não indígenas podem (e devem) assumir.

Não me cabe aqui falar pelos indígenas. Trago essa reflexão como um professor que reconhece os erros que são cometidos há anos e busca formas de propiciar experiências que apresentem a cultura indígena de uma maneira respeitosa e realista. Esse trabalho deve ser constante e não apenas próximo do dia 19 de abril. Pensando nisso, convido você, professor e professora, a vir comigo para refletir sobre como trabalhamos a temática com as crianças.

Como fica o trabalho com as crianças dentro desta perspectiva

O primeiro passo é olhar para o que dizem os documentos oficiais sobre esse assunto.  A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ressalta que o planejamento de ações pedagógicas deve assumir o “[...] compromisso de reverter a situação de exclusão histórica que marginaliza grupos – como os povos indígenas originários e as populações das comunidades remanescentes de quilombos e demais afrodescendentes [...]”.

Sendo assim, devemos ter um compromisso de combater visões deturbadas do indígena e abordar sua cultura de uma maneira mais próxima da realidade. Por isso, devemos desmistificar visões estereotipadas que temos sobre esses grupos. Atualmente sabemos que os povos indígenas sofreram um massacre e que, ao longo da história, precisaram resistir à tentativa de extinguir suas culturas. Também temos conhecimento que existe uma grande diversidade entre os grupos, os quais falam línguas distintas, usam trajes diferentes e possuem variadas celebrações, ritos e manifestações culturais. Muitos vivem nas cidades, outros preferem não ter contato com os não-indígenas. Seja qual for a opção deles, ela deve ser respeitada mantendo seu direito de manter sua própria identidade em qualquer espaço.

O próximo passo é realizar uma pesquisa sobre essa temática. Procure por livros e materiais que tragam qualidade para este trabalho. Recentemente, o Nova Escola Box preparou um conjunto de conteúdos sobre como trabalhar a cultura indígena na Educação Infantil, no qual encontramos exemplos de brincadeiras e outros elementos da cultura indígena que podem apoiar seu trabalho.

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Para pensar as atividades que serão desenvolvidas, eu sempre digo que o ideal é ouvir pessoas indígenas e, quando for possível, trazê-los para conversar com as crianças. Nesta oportunidade, seria muito interessante levantar assuntos e curiosidades sobre o que a turma gostaria de saber sobre a pessoa que irá visitá-los. Podem preparar juntos uma entrevista para saber um pouco mais sobre como os descendentes destes povos vivem hoje em dia.

Na impossibilidade desse encontro, devemos parar de repetir práticas como confeccionar ou comprar cocares de cartolina; pintar os rostos das crianças e as fantasiar; cantar e pular emitindo sons com mão batendo na boca; apresentar os indígenas como “selvagens” que vivem apenas nas florestas ou como povos do passado e deixar de salientar que existem grupos indígenas no Brasil contemporâneo.

No lugar disso, podemos trazer objetos da cultura indígena para que a turma possa conhecê-los; buscar músicas destes povos para que os pequenos possam conhecê-las e apreciá-las; investigar brincadeiras e costumes na infância das crianças indígenas; estudar características das diferentes línguas indígenas de diversos povos brasileiros; apresentar exemplos de indígenas que vivem em nossa sociedade e trabalham como médicos, fotógrafos, professores, entre outras atividades.

Como podemos perceber, há muitas formas de levar a cultura indígena para as crianças de uma forma mais respeitosa. Talvez esse seja o mínimo que nós, não-indígenas, possamos fazer para buscar caminhos que possam se aliar às demandas sociais tão urgentes dos povos indígenas.

E, você, professor e professora, como trabalha a temática com as crianças?

Um abraço carinhoso e até a próxima!

Evandro

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.