O que a experiência das salas multisseriadas tem a ensinar para a Educação brasileira?

Para Marinaldo Sarmento Souza, professor da rede municipal de Barcarena/PA, turmas de alunos com idades, séries e níveis de aprendizagem diferentes podem favorecer a troca de informações, a construção coletiva do conhecimento e a cultura colaborativa

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Marinaldo Sarmento Souza
Crédito: Getty Images

As crianças que vivem em áreas ribeirinhas do nosso país, além de diariamente enfrentarem dificuldades relacionadas à falta de transporte escolar, energia elétrica, água potável e escolas com estruturas precárias e sem acesso à internet, têm também o desafio de prosseguirem os estudos em salas multisseriadas.  

Em geral, são turmas heterogêneas, compostas por crianças de idades, séries, comportamentos e conhecimentos diferentes, que dividem a mesma sala de aula e o professor -- o que também causa impactos no trabalho do educador com essa turma. Muitas vezes, sua função vai além do papel de professor, pois ele tem que desempenhar a função de vários profissionais dentro de uma escola.  

Essa situação é comum em localidades distantes da sede do município e com uma quantidade reduzida de habitantes, onde não há alunos em número suficiente para formar uma turma seriada. 

   

Penso que só mesmo quem tem muita força de vontade para transformar o meio no qual está inserido acredita que a Educação ainda é um dos caminhos para se ampliar de maneira significativa a melhoria da qualidade de vida e, principalmente, do ensino do campo. 

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Na Educação do campo, bem sei das enormes dificuldades enfrentadas por nós professores de turmas heterogêneas, principalmente em relação à organização do trabalho pedagógico. Na maioria das vezes, não temos um acompanhamento ou apoio ao longo do processo para suprir de forma eficaz as necessidades que vivenciamos em turmas multisseriadas.
 

No entanto, sempre lembro daquele provérbio que diz “se a vida lhe der limões, faça uma limonada”. Pois bem, ele tem tudo a ver com essa situação. Sei que todo professor, provavelmente, iria optar por escolher, se fosse possível, algo mais próximo do ideal, ou seja, uma turma seriada. Porém, como aqui não é o nosso caso, necessitamos encarar os fatos e proporcionar o melhor com os recursos que temos em mãos, sempre colocando o foco na solução e não no problema. Dessa forma, devemos utilizar metodologias e/ou estratégias diferenciadas, trabalhando de acordo com a realidade dos alunos para atrair a atenção deles e fazer com que a aprendizagem aconteça de forma prazerosa e significativa. Estamos lidando com crianças que têm o direito de descobrir o mundo por meio da leitura e da escrita, independentemente do meio em que estão inseridas. 

A experiência e benefícios do trabalho com turmas multisseriadas

Ao tentar mudar esse cenário que presencio todos os dias, ao longo dos meus 18 anos de trabalho, confesso que também vejo enormes vantagens em se trabalhar com esse modelo de turma. Elas podem possibilitar - talvez em um nível bem mais elevado do que nas turmas tradicionais - a troca de informações e a construção coletiva do conhecimento entre os educandos. Para isso, é preciso uma boa metodologia de ensino e estratégias, de modo a não deixar ninguém para trás.  

Eu compreendo toda essa dinâmica como um fator positivo para as reais e significativas mudanças no cenário da atual Educação em nosso país. Sei que se quisermos fazer a diferença com os nossos alunos, devemos ser incansáveis, levando sempre o melhor de qualquer situação vivida.  

Ainda fazendo uma comparação, percebo que todas as escolas brasileiras não deixam de ser heterogêneas de alguma forma. Sabemos que em qualquer sala de aula, seja ela multisseriada ou não, há alunos com diferentes níveis de aprendizagens, uma vez que toda e qualquer criança aprende do seu modo e no seu tempo. Então, cabe ao professor conhecer sua turma, identificar as dificuldades e conduzir cada um da melhor maneira possível. 

No meu caso, uma das formas de conduzir melhor minha turma é fazendo um ditado diagnóstico logo no início do ano letivo, com algumas atividades que são planejadas previamente, para saber o nível de conhecimento dos meus alunos. Isso porque há uma disparidade muito grande nesse quesito, mesmo com crianças da mesma idade/série. Ao fazer esse diagnóstico detalhado por meio de registros, posso utilizá-lo para organizar minhas ações, de modo a aproveitar o melhor de cada aluno e fazendo com que a metodologia aplicada venha alcançar a todos.  

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Ao longo da minha prática pedagógica com esses alunos, percebo que uma deficiência bastante comum é a ausência do processo de aquisição de habilidades necessárias para a prática de leitura e escrita, ou seja, o domínio do sistema de escrita alfabética. Mesmo alunos considerados alfabetizados, às vezes, têm dificuldades na leitura convencional, algo que pode ser identificado no diagnóstico e que permitirá ajudá-los da melhor forma. 

Outro fator que pode auxiliar é a organização da sala de aula - crucial para o aprendizado das crianças nesses modelos de turmas - de modo a aproveitar os diversos níveis de conhecimentos existentes. O ideal é que a disposição dos alunos favoreça a troca de informações. Por exemplo, quando formamos pequenos grupos compostos por um aluno de cada série ou nível de conhecimento, a potencialidade de um pode suprir a dificuldade do outro, ou seja, um aprende com o outro a partir de uma boa intervenção pedagógica. Dessa forma, o planejamento das atividades diárias deve estar pautado em situações que devem ocorrer de forma coletiva, mas também em atividades por séries ou níveis de conhecimento e tarefas individuais. 

Nas atividades coletivas, costumo realizar práticas com tarefas que não sejam muito fáceis, já que o objetivo é valorizar a diversidade de conhecimentos. Uma maneira de fazer isso é escolhendo um tema para a aula que será trabalhado por todas as séries, mas de diferentes formas. Acredito que essa cultura colaborativa deve ser incentivada constantemente, pois ela é uma “válvula de escape” nas turmas multisseriadas. 

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Já nas séries ou níveis de conhecimento, costumo separar alguns dias da semana para os alunos trabalharem separadamente, para que possam ter um contato mais próximo com novos temas e, assim, aprofundarem aprendizados que são mais específicos. Por fim, nas atividades individuais, o trabalho se torna mais “fácil”, pois não exige dar aulas diferentes, já que cada aluno fará sozinho a sua tarefa, específica para o seu nível de aprendizagem. Mas sempre estou presente para tirar as possíveis dúvidas que surgirem nesses momentos.  

Compreendo que ainda há muito a se fazer para a melhoria da Educação do campo. É preciso proporcionar aos professores formação continuada de excelência, que de fato venha atender às necessidades do educando campesino, e melhores condições de trabalho. Também é necessário o investimento em bons projetos para melhorar o ensino para os alunos do campo. 

Mas isso só será possível se nossas autoridades cumprirem o que determina a lei - Educação igualitária para todos - ou se sensibilizarem com essa causa e se comprometerem a mudar esse cenário em prol de uma educação de qualidade para as crianças que vivem nesses espaços. 

Um forte abraço e até a próxima! 

Marinaldo Sarmento é professor de Fundamental 1 há 18 anos na rede municipal da região das ilhas de Barcarena (PA) com turmas multisseriadas. Tem graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), especialista em Educação Especial Inclusiva e vencedor do Prêmio Educador Nota 10 de 2018. 

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