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O abre e fecha das escolas e os impactos nos professores

Medo, ansiedade e insegurança são sentimentos relatados pelos educadores neste momento de incerteza. Três professoras de escolas públicas compartilham suas experiências

POR:
Paula Salas

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamadas com a professora Patrícia Dias

Retrato feito remotamente da professora Patrícia Dias, que leciona na Escola Estadual Marcos Antonio Costa, na zona leste da capital paulista.
A professora Patrícia Dias compartilha os desafios da falta de orientações para os jovens. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Dia após dia, as notícias sobre a pandemia são mais preocupantes. Recordes de contaminações e óbitos, que não queríamos alcançar, se tornaram mais frequentes.

Milhares de brasileiros perdem a vida para a Covid-19 e outros lutam para sobreviver após receber o diagnóstico positivo. Enquanto isso, a vacinação avança lentamente. Nesse cenário, a Educação voltou a ser abalada. Após um grande movimento de planejar o retorno presencial e os protocolos de biossegurança, pensar em novas metodologias e reorganizar o currículo para atender às aprendizagens que ficaram para trás em 2020, o ensino remoto voltou a ser a regra na maior parte do país.

Esse abre e fecha das escolas impacta fortemente os educadores e os estudantes, e as incertezas trazem consequências à saúde mental dos professores. "Me sinto perdida com essa ida e vinda, tenho medo de adoecer e morrer. Sinto impotência e raiva de não poder dar um norte para os meus alunos. Por mais que eu faça meu melhor, não tenho resposta para eles", afirma a professora Patrícia Dias, que leciona na Escola Estadual Marcos Antonio Costa, na zona leste da capital paulista. Nesse período de espera para ver o que acontecerá, ela diz que está concentrada em planejar atividades para manter o engajamento dos alunos.

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Os desafios do ensino remoto e a falta de respostas
A professora Patrícia dá aulas sobre Tecnologia e Inovação para as turmas de Fundamental 2 e de Língua Portuguesa para o Ensino Médio. Ela entrou neste ano na instituição, mas sempre lecionou na comunidade. “Nesta região, por ser periferia, a escola é um espaço de encontro, e isso faz muita falta para os alunos. Eles ficaram desestimulados”.

No início do ano, quando as aulas voltaram presencialmente, a escola estava em reforma. "Não temos estrutura física. A ventilação na sala não é suficiente", conta a educadora. Com o retorno, eram atendidos, por turma, grupos de 8 a 12 alunos. Aqueles que ficavam em casa assistiam ao Centro de Mídias, oferecido pela Secretaria Estadual de São Paulo, e realizavam as atividades que a professora preparava. Nesse período presencial, infelizmente, houve casos de contágio e o falecimento uma pessoa da equipe escolar.

Com o decreto do retorno para o ensino remoto, apesar de ser necessário diante do cenário atual, a professora vê que o trabalho a distância está longe de ser o ideal. "Para quem já tinha familiaridade com a tecnologia foi ótimo, mas muitos se sentiram perdidos. Tenho colegas que são excelentes professores, mas não conseguiram se adaptar e ficaram desestimulados".

A professora Patricia Dias, fotografada remotamente durante atividade online com os alunos.
Atualmente, a professora Patrícia trabalha de forma remota. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Apesar das dificuldades, Patrícia encontrou um caminho utilizando o WhatsApp, Formulários do Google e o Google Sala de Aula. "É uma adaptação do que é possível. Deixa muito a desejar, porque, se o aluno tem apenas um celular minúsculo, não é um chip de internet que vai mudar a situação, ele não tem o material necessário", afirma a professora. "Se para mim que pago conexão é ruim, conheço crianças que fazem um absurdo para assistir uma live", complementa a educadora, que se acostumou a ouvir histórias sobre estudantes que pedem celular emprestado e até musiquinha criada por eles sobre "roubar" o wi-fi dos vizinhos. "Tentamos dar um jeito, mas é um conjunto de problemas", diz. Ela também conta que foram entregues atividades impressas na escola para quem podia retirá-las e não tinha acesso à internet.

A professora ainda aguarda uma previsão sobre um possível retorno presencial, mas, no contexto atual, o receio de adoecer é grande. Patrícia avista os impactos sociais e emocionais na comunidade escolar. "Meu medo maior é com quem não tem acesso ao ensino remoto. Eles ficaram sozinhos, perdidos”.

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A urgência de apoio emocional aos alunos
Na Escola de Referência Padre Antônio Barbosa Júnior, em Jurema (PE), o cenário não é muito diferente. A professora de Ensino Médio Andréa Lira voltou a dar aula de Biologia de forma presencial em outubro do ano passado. Na época, foi realizada uma pesquisa com as famílias dos estudantes para verificar quem tinha interesse em retornar. A adesão dos alunos foi baixa. No entanto, eles tiveram atividades presenciais até o final de dezembro.

Andréa relata que desde o ano passado percebeu que os alunos apresentaram mudanças após o período em que permaneceram afastados da escola. “Eles tinham dificuldade de conversar e ficaram mais distantes”. Ela diz que, dialogando com os estudantes, ouviu deles a necessidade de ir à escola. “A escola é um refúgio. Eles falam que é muito difícil estar em casa”, conta. Por isso, ela considera fundamental que os educadores recebam formação sobre como trabalhar questões socioemocionais com os alunos, especialmente neste momento. “Há uma preocupação com o acesso à universidade, notas e avaliações externas, mas não com o lado emocional dos estudantes”.

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Em fevereiro deste ano, todas as turmas retornaram à escola. "Pesquisamos quem queria voltar e houve uma adesão grande. De algumas turmas retornaram mais de 40 alunos", explica a professora, que notou um aumento no engajamento dos estudantes.

A escola se organizou então em um modelo de escalonamento. As salas foram divididas em dois grupos, e cada semana um grupo ficaria em casa realizando as atividades enviadas, enquanto o outro iria à instituição. Nesse período presencial, a educadora conta que não houve contágios registrados dentro da escola. No entanto, a percepção da professora é que havia menos segurança do que em 2020, devido ao aumento do número de alunos que retornaram. “Este ano ficamos mais inseguros, porque não temos um pátio onde os alunos possam ficar mais distantes, com uma circulação de ar adequada”.

No entanto, no dia 17 de março tudo voltou a mudar. As aulas presenciais foram suspensas e retornaram ao modelo remoto. "Nem todos os alunos têm internet ou um dispositivo para acessar as aulas", lamenta a educadora. No entanto, ela afirma que a escola procurou alternativas. Hoje eles disponibilizam atividades impressas, nos grupos de WhatsApp e no Google Classroom. Também fazem encontros pelo Google Meets, mas a participação, pela dificuldade de acesso, é pequena.

Patricia Dias, professora do ensino médio, fotografa páginas de um livro para compartilhar com seus alunos.
Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Apesar da alta adesão na volta às aulas em fevereiro, quando as aulas passaram a ser a distância, houve uma queda. "Os alunos perderam o interesse, e muitos começaram a sair dos grupos. Eu entrei em contato com eles para tentar conversar, mas o mesmo aconteceu em outras disciplinas também", relata Andréa. A falta de interesse e engajamento dos alunos é um ponto que a preocupa, e ela entende que é necessário repensar como melhorar as interações remotas e as atividades propostas. "Noto que os alunos estão sem perspectiva”.

A princípio, as aulas presenciais retornariam no final de março. No entanto, devido ao agravamento da pandemia, a nova previsão é 19 de abril, com uma volta gradual. Andréa relata que, apesar da escola seguir todos os protocolos de segurança, têm medo de retornar presencialmente neste momento crítico da Covid-19. No entanto, ela diz que é preciso continuar procurando formas de apoiar os jovens, que sentem falta do espaço da escola. "Devemos fazer algo por eles, e cabe aos professores tentar alguma coisa. Não podemos esperar o trabalho dos governantes".

A falta do presencial no Fundamental 1
Na cidade de Bom Jesus da Selva (MA), a professora Cleuvani Ferreira Bonfim dá aula para o 5º ano no Complexo Educacional Hassan Sabry da rede municipal. "Sofremos muito sem poder ajudar as crianças", relembra a educadora sobre os desafios enfrentados desde o início da pandemia ao trabalhar em uma comunidade periférica.

As aulas retornaram em fevereiro em um modelo semipresencial com revezamento das turmas. Os alunos levavam as atividades para a semana que ficariam em casa, e as dúvidas eram resolvidas por WhatsApp. "As famílias que têm crianças com doenças crônicas ficaram muito receosas, mas a escola estava sendo muito bem preparada, com tapetes higiênicos, medição de temperatura, álcool em gel e uso de máscara", conta. No início de março, as aulas presenciais voltaram a ser suspensas. Durante esse período, felizmente, não foram registrados contágios na escola.

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Professora Patricia Dias estudo com alguns livros de referência na mesa de casa.
Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Atualmente, os alunos estão trabalhando de forma remota. Para aqueles que têm acesso à internet, as atividades, áudios e vídeos são postados no grupo de WhatsApp. Quem não tem conexão à internet, retira os roteiros de estudo na escola. A educadora diz que, em uma turma com cerca de 35 alunos, 15 recorrem ao impresso. "No ano passado, o ensino remoto não foi difícil e, neste ano, está sendo bem melhor". 

Apesar dos resultados no trabalho a distância, Cleuvani relata que se sente angustiada e triste com o novo fechamento das escolas. Ela também se preocupa com o aproveitamento das propostas. “É um desespero não saber se os alunos vão conseguir responder às atividades, se eles estão aprendendo. Tem famílias com pessoas que não sabem ler - como vão ajudar a criança?”, questiona a professora. "Não gosto de aula online. O bom é ter contato com eles, isso faz a diferença. Eu prefiro estar ao lado dos alunos, tirando as dúvidas", complementa.