Novo Ensino Médio: como as escolas estão se preparando para trabalhar com as áreas de conhecimento?

Realização prática ainda é desafio para as instituições, que estão promovendo formações, investindo na abordagem interdisciplinar e estimulando a troca de experiências e o trabalho colaborativo entre os docentes

POR:
Diel Santos
Crédito: Getty Images

O Novo Ensino Médio trouxe uma série de mudanças para os alunos, professores e gestores desse nível de ensino. Além de dar protagonismo aos estudantes e a possibilidade de construírem seu projeto de vida e escolherem os conhecimentos em que vão se aprofundar nos chamados itinerários formativos, estabelece uma nova organização curricular, mais flexível, que contempla a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A BNCC orienta o trabalho pedagógico a partir de quatro áreas do conhecimento - Linguagens e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias, e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas - e propõe que as competências de cada uma dessas áreas sejam desenvolvidas e aprofundadas com os alunos de maneira interdisciplinar durante todo o Ensino Médio.

O Novo Ensino Médio exclui as disciplinas?

O documento propõe uma nova divisão curricular por áreas do conhecimento - no lugar dos componentes tradicionais. “As aprendizagens essenciais definidas na BNCC do Ensino Médio estão organizadas por áreas do conhecimento (...), que têm por finalidade integrar dois ou mais componentes do currículo (...). Essa organização não exclui necessariamente as disciplinas, com suas especificidades e saberes próprios historicamente construídos, mas, sim, implica o fortalecimento das relações entre elas e a sua contextualização para apreensão e intervenção na realidade, requerendo trabalho conjugado e cooperativo dos seus professores no planejamento e na execução dos planos de ensino”, diz o texto da Base.

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Mundo e conhecimentos interdisciplinares
Solange Petrosino, especialista em Educação e diretora acadêmica da editora Moderna, explica que cada área do conhecimento tem suas competências e habilidades, mas elas vão ser trabalhadas de acordo com cada disciplina, uma vez que cada docente contribui com um conhecimento e uma abordagem.

“A sociedade é interdisciplinar, e as complexidades dessa realidade precisam ser refletidas no processo de ensino e aprendizagem dessa etapa, com conteúdos que façam sentido para os estudantes”, destaca. “Ao se fragmentar a realidade em disciplinas, dificultamos a compreensão e a capacidade dos alunos de se conectarem com seu contexto. É fundamental que eles consigam relacionar esses temas com o que vivem no cotidiano”.

A especialista observa que as áreas de conhecimento agrupam componentes curriculares que muitas vezes se relacionam. Disciplinas como Biologia e Química, por exemplo, têm diversos pontos em comum, que são tradicionalmente explorados, mas também há possibilidades de integração com outros saberes, como História e Geografia.

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“Uma atividade pedagógica que trabalhe os meios de separação de mistura e destilação, por exemplo, pode explorar desde os processos químicos de um alambique e as formas de plantio da cana-de-açúcar até o impacto dessa indústria na urbanização do Nordeste brasileiro.”

Para ela, cabe a cada docente perceber a interface da sua área com as demais, e o desafio da gestão é conduzir a equipe docente no planejamento das estratégias interdisciplinares. “Para criar essas estratégias, no entanto, a escola precisa conhecer as habilidades e dificuldades do corpo docente na execução desse tipo de trabalho”.

Desafios na prática
Jéssica de Jesus Nascimento, coordenadora pedagógica da EE Prof. Mauro de Oliveira, em São Paulo, conta que recentemente a escola iniciou formações específicas por área de conhecimento, com momentos de estudos sobre o Novo Ensino Médio e as mudanças da Base. “Começamos a analisar os materiais disponibilizados pela Seduc [Secretaria de Educação] e a estimular a troca de experiências entre os docentes e o compartilhamento das dificuldades encontradas nessa abordagem, que exige a interdisciplinaridade entre as áreas”.

Ela também relata que a escola participou de uma formação da Seduc sobre o Novo Ensino Médio e os itinerários formativos. “Nosso próximo passo é compartilhar esses alinhamentos com os professores e alunos. Estamos planejando algumas reuniões para que os pontos dessa transição sejam esclarecidos. Precisamos iniciar esse processo para saber o que realmente dará certo ou não”.

A escola onde Jéssica atua trabalha com o programa de ensino integral, já possui coordenadores de áreas e, nos encontros com os docentes, a interdisciplinaridade tem sido discutida. “A adaptação a esses conteúdos e à nova abordagem e como cruzar efetivamente essas áreas do conhecimento na prática ainda são desafios”, ressalta.

Um caso ocorrido na Mauro de Oliveira ilustra a necessidade de relacionar os componentes curriculares entre as diferentes áreas de conhecimento. A professora de Sociologia, que trabalhava com os alunos um conteúdo sobre "padrões e normas em distintas sociedades, na cultura, no poder, na cidadania e no trabalho", precisou da ajuda da Matemática para dar sequência ao programa.

“Os desdobramentos do conteúdo envolviam tabelas, gráficos e análises de tributos, o que deixou a docente preocupada, já que ela não tinha as habilidades necessárias para abordar esses conteúdos no seu componente. Isso mostra que precisamos trazer a disciplina de Matemática para perto e começar a pensar nesse trabalho integrado”, explica Jéssica.

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Integração entre professores
A atuação interdisciplinar também foi o foco de uma formação promovida pela Escola Cidadã Integral Técnica José do Patrocínio, em João Pessoa. “Discutimos sobre cada área do conhecimento e os pontos importantes para desenvolver esse trabalho a partir dessa nova abordagem. A gente tem procurado entender essa implementação também com muita conversa entre professores, já que tudo é ainda muito novo”, diz Hudison Cleber de Brito Ferreira, professor de Ciências da Natureza.

O professor conta que a escola tem planejado reuniões semanais com a equipe docente para saber como o trabalho tem acontecido no dia a dia. “A ideia é falarmos como estamos trabalhando os conteúdos, quais dificuldades temos encontrado e o que temos observado nos alunos. Isso tem sido importante, inclusive, para fortalecer a integração entre professores”, diz Hudison.

A José do Patrocínio também está no início da implementação do Novo Ensino Médio, e Hudison reforça a importância do trabalho colaborativo para a atuação interdisciplinar. “O conteúdo abordado inicialmente em Ciências da Natureza pode ter desdobramentos em Linguagens. Eu, por exemplo, trabalho cálculos com os estudantes nas aulas de Física, mas há uma integração com a professora de Português, que vai ajudar o aluno a desenvolver a mesma habilidade, mas no contexto do componente dela, relacionado à interpretação dos enunciados”, explica.

“Recentemente, dei uma aula para os alunos sobre biomecânica, abordando os aspectos da Física. Os alunos continuaram desdobrando esse assunto, mas na aula de Educação Física, onde discutiram as questões de saúde e movimentos do corpo”, diz o professor. 

Hudison comenta que, mesmo inicialmente, vê uma mudança no comportamento dos alunos durante as aulas. “Eles são protagonistas completos da ação. Eu apresento o problema, e eles executam, criam novas soluções e novos argumentos para solucionar uma determinada questão, que eu fico surpreso. Isso vai ser um ganho muito grande para eles”, finaliza. 

8 dicas para ajudar a escola na transição para o Novo Ensino Médio e na aplicação das novas propostas da BNCC

Solange Petrosino, especialista em Educação, dá algumas orientações 

  1. Planeje a implantação considerando o contexto da escola, como o tempo destinado para reuniões de professores e da gestão, conhecimento prévio da equipe, desejos da comunidade escolar e recursos materiais.
  2. A implementação deve ser gradativa, considerando a capacidade e a velocidade de transformação da escola e da comunidade.
  3. A formação de professores pode ser feita em etapas e focar na compreensão das competências gerais e no uso de metodologias ativas; na interdisciplinaridade aplicada à prática docente; e nos processos avaliativos para diferentes competências cognitivas e socioemocionais.
  4. É necessário muito estudo para ter um entendimento satisfatório da Base. Desdobre a BNCC e todos os conceitos pedagógicos e pressupostos teóricos que estão por trás do documento.
  5. Envolva os professores na elaboração do currículo da escola, que deve ser feito de forma colaborativa.
  6. Compartilhe experiências, conheça os êxitos e fracassos de outras comunidades e exponha os seus.
  7. Ouça a comunidade e faça pesquisas para a elaboração e construção da oferta de itinerários formativos, a parte flexível da BNCC. Uma oferta de itinerários que não responda aos desejos e necessidades dos alunos os mantém sem escolhas.
  8. Considere a parte administrativa para algumas decisões. Por exemplo, a quantidade de itinerários, formato, duração e distribuição têm relação com a parte pedagógica, mas também envolve espaços, número de alunos por sala, professores para lecionarem etc.

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