Como dar aula de Projeto de Vida me transformou como professora

A professora da rede pública Carolina Lino fala sobre a responsabilidade, os desafios e os aprendizados de lecionar esse componente curricular, que tem o potencial de mudar a trajetória dos estudantes

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Carolina Lino
Alunos escrevendo em lousa palavras positivas para a disciplina de projeto de vida.
Crédito: Arquivo Pessoal/Carolina Lino

“Tudo que um dia sonhamos nem sempre se realiza. Mesmo que um sonho não se realize, então, por que sonhamos? Sonhar muda a gente, o nosso olhar para o mundo, para as outras pessoas. Não podemos parar de sonhar.”

Foi com esse questionamento sobre sonhos que me apresentaram a disciplina Projeto de Vida, hoje chamada de componente curricular. Naquele momento, eu me fiz a seguinte pergunta: “O que é isso? Como irei planejar, ensinar e lecionar para os meus estudantes do Ensino Médio?”

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Para compartilhar com vocês as minhas experiências, angústias e alegrias nessa caminhada de quase quatro anos como professora de Projeto de Vida, vou contar um pouco da minha trajetória como professora da Educação Básica na rede pública municipal de Campo Grande (MS).

Na época da faculdade, a única experiência profissional que tive como professora na Educação Básica foi a de um estágio que durou trinta dias. Eu utilizei basicamente o mesmo método pelo qual aprendi a ler - método tradicional, em que a professora age como dona do saber e vê o estudante como aquele que está ali para aprender.

Comecei a lecionar, em 2005, como professora substituta de Ciências no 6º ano em uma escola municipal. Eu agia como uma professora “mandona” durante as aulas, impondo o medo como forma de manter os estudantes “atentos”. Que engano! Pois, depois de um tempo, isso não adiantava mais. Os estudantes continuavam com medo, sem aprender e, na maioria das vezes, indisciplinados. Paulo Freire foi muito sábio quando disse [em sua obra Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa]: “A autoridade docente mandonista, rígida, não conta com nenhuma criatividade do educando.” Eu sempre busquei me profissionalizar para consolidar a difícil tarefa de educar e, para tanto, é fundamental compreender o mundo novo de informações.

Fotografia de alunos em atividade com papéis impressors com palavras motivadoras.
Crédito: Arquivo Pessoal/Carolina Lino

Para além do aprendizado de conteúdos

Como a minha atuação sempre foi na Educação Básica pública, eu senti algumas mudanças significativas quando fui trabalhar, em 2013, na Escola Municipal Osvaldo Cruz, em Campo Grande. Lá havia o projeto Traje (Travessia Educacional de Jovens Estudantes), voltado para adolescentes de 15 a 17 anos que estavam afastados da escola, que não tiveram acesso ao sistema formal de ensino ou que estavam no sistema, porém com distorção de idade e série.

A escola naquele contexto tinha um papel muito além de ensinar e de desenvolver o aspecto cognitivo. Ela tinha a função de acolher, em um processo de humanização e de inserção desses adolescentes na sociedade. Muitos daqueles jovens se sentiam excluídos e, de alguma forma, realmente estavam. A preocupação não era apenas com o aprendizado de conteúdos, mas também com o aprendizado afetivo. A professora “mandona”, rígida, sem nenhuma criatividade, entendeu a importância da mudança de postura, tanto para um ensino de qualidade como para atender a diversidade do ambiente escolar.

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Em 2017, recebi a proposta de lecionar o componente curricular Projeto de Vida em uma escola de Ensino Médio em tempo integral. Isso representou novamente algo novo para mim, pois minha formação acadêmica é em Ciências Biológicas e em Matemática, e eu não tinha até aquele momento estudado ou tido contato algum com essa nova disciplina. O medo que senti inicialmente se transformou em desafio, aceito com a mente e o coração abertos. Mesmo com as formações oferecidas pela Secretaria de Educação de Mato Grosso do Sul, eu me senti perdida no começo, na condução das aulas e nas práticas pedagógicas.

Questionamentos e autoconhecimento
O primeiro obstáculo a ser superado foi perguntar para mim mesma qual era o meu Projeto de Vida. E foi naquele momento que me dei conta que eu nunca tinha parado para pensar sobre isso. Então, como iria perguntar para os meus estudantes? Naquela época, eu lecionava para seis turmas de 1os anos de Ensino Médio. Estavam todos ansiosos para saber o que era aquela nova disciplina com o nome tão profundo de Projeto de Vida. Na verdade, eu também estava!

Segundo o Instituto Corresponsabilidade pela Educação (ICE), “a construção de um Projeto de Vida é uma tarefa para a vida inteira porque ela parte de um ponto, que é o autoconhecimento, e focaliza outro ponto, onde deseja chegar. No fundo, para essa tarefa permanente de elaboração, revisão e reelaboração ser plena de realização, ela precisa ser encarada como uma espiral cujo movimento contínuo é uma experiência única para cada um.”

Essa definição me ajudou a entender que o Projeto de Vida que eu teria de desenvolver com os meus estudantes não era sobre carreira profissional, mas sim, sobre a construção do ser humano de dentro para fora. Durante as aulas, são apresentadas “ferramentas” para que os eles possam refletir sobre si mesmos, aprofundar o autoconhecimento e estabelecer seus objetivos de desenvolvimento pessoal. Eles devem ser capazes de identificar as competências socioemocionais que escolheram como prioritárias para si mesmos e, assim, caminhar para um desenvolvimento integral, para conquistas pessoais e profissionais no futuro.

No entanto, para ter êxito e colocar essas tais ferramentas em prática, é preciso realizar o planejamento da sequência didática dessas práticas. Esse foi outro obstáculo a ser superado! Em cada planejamento, são consideradas as intencionalidades socioemocionais a serem alcançadas. Isso me fez pensar que talvez eu devesse trabalhar ou melhorar determinada habilidade em mim. Porém, quantos de nós estamos preparados para nos abrirmos? Não é algo fácil. O primeiro ensinamento vem de dentro para fora, e acontece em nós mesmos, para depois chegarmos aos nossos estudantes. Se eu não acreditar e não estiver receptiva para essa nova proposta, não irei conquistar os meus estudantes para participarem e se entregarem a cada nova proposta e intencionalidade das competências socioemocionais trabalhadas antes, durante e depois das aulas.

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Experiências compartilhadas
Vale ressaltar que o Projeto de Vida vai além dos muros da escola. Pois essas tais ferramentas (práticas pedagógicas) são discussões muitas vezes realizadas a partir da leitura de um texto ou de um documentário que assistimos em ambientes preparados para receber esses estudantes de forma que eles se sintam acolhidos e à vontade para falar sobre a família, amigos, sociedade etc. É importante respeitar a individualidade de cada um e ter sensibilidade ao fazer observações. A responsabilidade de ser educador em uma sociedade que não nos valoriza torna nossa missão mais dura e árdua e, em Projeto de Vida, ainda mais intensa.

Estar aberta para essa nova proposta foi o que me ajudou a compreender que o Projeto de Vida não era importante somente para os meus estudantes – ele foi e está sendo importante para mim também. Nesses quatros anos, eu aprendi mais do que ensinei. Aprendi a ouvir os desejos, medos e inseguranças dos estudantes e ver em cada olhar, durante as aulas, a construção dos seus sonhos e das perspectivas depois do Ensino Médio.

Fotografia de alunos participando de uma atividade em grupo com barbantes na área externa da escola.
Crédito: Arquivo Pessoal/Carolina Lino

Para criar esses laços de confiança e respeito, compartilhei durante as aulas os meus sonhos e angústias e percebi que são conhecimentos também. Com os relatos e experiências, ensino os estudantes a escutarem e a ouvirem uns aos outros, e assim provoco neles a empatia de se reconhecerem em muitos momentos nas minhas experiências e nas de seus colegas. Com isso, conseguimos fazer um exercício de reflexão fundamental para o autoconhecimento e para a construção do Projeto de Vida.

Sempre digo que, em 2017, quando tive a proposta de lecionar Projeto de Vida, foi desanimador inicialmente, talvez pelo medo e pela insegurança, pois não sabia o que esperar. Hoje, quando olho toda essa caminhada, com tropeços e medos, mas também com muitos aprendizados e conquistas, considero que foi o maior e melhor presente que poderiam ter me oferecido como professora. Mudei como profissional e como pessoa. E acredito que o Projeto de Vida bem planejado, com formação continuada aos professores e respeitando suas individualidades, pode mudar a vida de um estudante, pode mudar a vida de um professor e pode mudar toda uma escola. Precisamos apenas estar preparados para essas mudanças. Será que estamos?

Para finalizar, cito o trecho da obra Ensinando a Transgredir: A educação como prática da liberdade, de bell hooks: “Não se pode negar que os alunos têm experiências, tampouco se pode negar que essas experiências são importantes para o processo de aprendizado. Cada aluno tem suas lembranças, sua família, sua religião, seus sentimentos, sua língua e sua cultura, que lhe dão uma voz característica”.

Carolina Lino é professora na rede pública de Campo Grande (MS) há 15 anos, licenciada em Ciências Biológicas e Matemática. Aluna do programa de pós-graduação em Mestrado em Educação Matemática (UFMS). Além da docência é apaixonada e incentivadora da Iniciação Científica na Educação Básica, participando de Feiras Científicas nacionais e internacionais com estudantes do Ensino Médio.

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