Coordenação pedagógica: como refletir sobre o Novo Ensino Médio e a BNCC na formação continuada

Teste seus conhecimentos sobre os documentos e conheça a experiência de duas escolas públicas que já estão planejando a implementação das mudanças

POR:
Paula Salas
Coordenadora pedagógica sentada em frente ao computador de casa com folhas de papel nas mãos.
Créditos: Gertty Images

Os últimos três anos da Educação Básica são dos mais desafiadores. Podemos elencar alguns entraves: os altos níveis de evasão, a falta de atratividade para os alunos, o acúmulo de anos de defasagem escolar e a ausência de perspectiva dos jovens para o futuro. A etapa carrega um modelo educativo que não condiz com a realidade dos estudantes. "Os jovens não veem o Ensino Médio como uma possibilidade de crescimento, de uma vida melhor”, resume Rossieli Soares, secretário de Educação do estado de São Paulo, coordenador da Frente de Currículo e Novo Ensino Médio do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e ex-ministro da Educação, responsável por homologar a Base do Ensino Médio em 2018.

Quando começaram as discussões sobre o Novo Ensino Médio, era comum o questionamento sobre porque reformar. "O Ensino Médio é a etapa que mais perde alunos, ele não se conecta com o desejo dos jovens. Foram muitas tentativas até que a lei [da Reforma] veio justamente para alterar a atratividade", explica o secretário. Ele ressalta que a pandemia reforçou a necessidade urgente dessa mudança. “Continua sendo uma luta, mas agora estamos no momento de implementação", afirma.

Antes de tratar das experiências de formação e trazer o relato de quem já está implementando as mudanças, é preciso garantir que estamos todos na mesma página. Por isso, preparamos um teste sobre a Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio e o Novo Ensino Médio. A ideia é que você possa verificar o quanto sabe sobre as novidades da etapa antes de continuar a leitura sobre como discutir essas transformações com a equipe pedagógica.

As mudanças que já chegaram às escolas
Na Escola de Referência em Ensino Médio João Bezerra, em Recife (PE), a equipe docente não enfrentou dificuldades para incorporar as modificações trazidas pela BNCC. "Na escola, tenho a grande vantagem de ter uma equipe muito preocupada com a aprendizagem e que está sempre estudando", conta Kátia de França, coordenadora pedagógica na instituição.

Com um modelo de ensino em tempo integral, os estudantes ainda estão concluindo em 2021 o ano letivo de 2020, por conta da pandemia. "Meu aluno do 1º ano, que começou em março de 2020, só vai concluir essa série em dezembro deste ano", explica a educadora. Por isso, o foco atual é fazer um diagnóstico e resgate das aprendizagens para elaborar as estratégias - utilizando a BNCC como documento orientador. "A Base valoriza a interdisciplinaridade, algo que temos usado e tem nos ajudado muito", conta. Enquanto isso, a equipe tem se aprofundado na implementação das transformações do Novo Ensino Médio.

Um dos pontos trazidos pela BNCC é o trabalho com metodologias ativas e o uso de ferramentas digitais. A chegada desses aspectos para a prática dos professores foi acelerada, de fato, pela pandemia. "Foi um avanço importante para o Novo Ensino Médio. As pessoas mergulharam no assunto para entender melhor o uso da tecnologia na educação e buscaram fazer formações sobre isso", afirma Rossieli.

A coordenadora conta que, desde o ano passado, tem acontecido na rede um movimento de ajuste do currículo para alinhá-lo à BNCC e de pensar a nova estrutura da carga horária. Também foram revistos os projetos desenvolvidos na escola para escolher quais seriam mantidos. O próximo passo é voltar o olhar para os eixos estruturantes (Investigação Científica, Processos Criativos, Mediação e Intervenção Sociocultural e Empreendedorismo).

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Itinerários formativos
Na rede estadual de São Paulo, o desafio atual da implementação é a reorganização das escolas para se adequarem às mudanças do Novo Ensino Médio e a formação dos professores. O secretário compartilha que estão em um momento crucial e que a implementação gradual das mudanças já está em andamento. As turmas que entraram em 2021, para o 1º ano, já estão dentro do modelo. "O desafio é fazer rodar. Estamos construindo os itinerários formativos e começando no 1º ano a proposta do projeto de vida", afirma Rossieli.

Os itinerários são baseados nas áreas do conhecimento e podem integrar mais de uma área. A proposta que já está em implementação é o itinerário formativo sobre Educação Técnica e Profissional, que está sendo realizado em parceria com o Centro Paula Souza. Depois dessa construção nas redes, são os professores e seus alunos que irão escolher quais serão colocados em prática. "No 1º ano, eles vão receber as informações de escolha do itinerário. A partir do 2º e 3º ano, eles terão o aprofundamento", explica sobre como funcionará nas escolas estaduais.

Projeto de vida e disciplina eletivas
Na Escola Estadual José Belúcio, em Fernandópolis (SP), que já tem experiência em ofertar disciplinas eletivas e trabalhar o projeto de vida, atualmente, os professores estão atuando na construção das eletivas e dos itinerários formativos. Ambos vão partir daquilo que está sendo observado no projeto de vida.

"Todo início de ano é feito um acolhimento para despertar o aluno para construir um sonho e para perceber que ele é capaz", diz Marisa Montilha, coordenadora pedagógica na instituição. A partir disso, os professores fazem um mapeamento com a turma do projeto de cada um. Com esse levantamento e a tabulação dos dados, eles buscam pontos em comum que possam se relacionar às áreas de conhecimento. Posteriormente, os professores, divididos em duplas de áreas do conhecimento diferentes, preparam as ementas das eletivas que serão criadas. "Em cima disso, do projeto de vida [e das eletivas], eles vão trabalhar habilidades que ficaram fragilizadas no ano passado, ou seja, não é um trabalho desvinculado".

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Em 2020, esse processo resultou, por exemplo, em uma eletiva chamada Eu me amo. Os professores perceberam que os alunos vinham de um contexto de vulnerabilidade social, com histórico de violência, e que tinham o desejo de se tornarem policiais, assistentes sociais ou advogados. Com isso, foi feita uma eletiva dentro dessa temática da violência social. "Uma professora de Ciências Humanas e outra de Matemática trabalharam junto com a comunidade para fazer pesquisas e levantamentos estatísticos sobre o tema", relembra a educadora. Ela conta que, neste ano, ainda estão em fase de levantamento, mas já surgiu o interesse por empreendedorismo e robótica. Então, estão no horizonte mais duas eletivas possíveis.

Para pensar o itinerário formativo também serão utilizados insumos do projeto de vida. "É o primeiro ano. Vamos construir o itinerário e será um trabalho em parceria com os alunos, porque, se eles não participam, eles não têm esse encantamento pelo projeto", afirma Marisa sobre os próximos desafios.

Formação e acompanhamento dos professores
No ano passado, Marisa começou as formações sobre as mudanças trazidas pelos documentos. Ali estudaram todo o processo de construção até chegar nos documentos, a justificativa da reforma e o que é esse Novo Ensino Médio. Também se aprofundaram sobre as habilidades essenciais e complementares, e estudaram as metodologias ativas. "Seguindo a visão dos documentos, tínhamos que mudar de uma metodologia centrada no professor para uma em que os alunos são o centro do processo de aprendizagem", afirma a coordenadora.

Para ela, os momentos coletivos são fundamentais para promover estudos e discussões sobre o novo modelo de trabalho. Após os debates, ela também faz um trabalho próximo dos professores para a elaboração do planejamento das aulas, como uma forma de acompanhar como as transformações e aprendizagens das formações aparecem na prática.

"Acompanho as aulas e depois temos um momento de devolutiva, para apresentar os pontos fortes e frágeis", conta a coordenadora. Em seguida, é feito um trabalho formativo de refletir, em conjunto, como é possível melhorar aquela prática. Posteriormente, ela continua fazendo o acompanhamento para verificar a evolução. Durante o ensino remoto, essa ação continuou apesar de ter diminuído a frequência da observação de sala de aula. “As formações que começaram no presencial se adaptaram para o remoto, mas nunca pararam”, ressalta.

Espaço para dúvidas e debates
Neste momento de implementação, e com a parceria entre professores e gestores, o trabalho na escola pernambucana tem fluído bem. "Tem que chegar junto, formar a equipe é todo um processo. Uma sugestão é antes das formações fazer uma conversa, um café com a BNCC", compartilha Kátia. Ela percebe que esses momentos são uma forma de começar a abrir espaço para as discussões e para os professores poderem falar mais livremente.

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A coordenadora também reforça a necessidade de, para quem ainda não começou o trabalho, incluir na pauta formativa uma discussão para tirar todas as dúvidas sobre o documento e refletir o porquê dele. "Mostrar que é um documento orientador, que não é mais uma lei que vai cair de paraquedas na sala de aula. Isso precisa ficar estabelecido”, afirma. Um caminho para isso é trazer todo o histórico do documento - entenda aqui o processo desde 2015 até a aprovação da Base do Ensino Médio em dezembro de 2018.

Rossieli também identifica que é importante ter esse momento de desmistificar uma visão prévia que os educadores possam ter sobre os documentos. “Primeira grande coisa [para a formação] é entender que o Novo Ensino Médio traz mais possibilidades para os professores”. Ele dá como exemplo a oportunidade dos educadores darem aula de disciplinas eletivas. Essas eletivas podem, inclusive, ser construídas por eles mesmos, como acontece na escola de Marisa.

Trocas entre pares e boas práticas
Segundo Kátia, durante o período remoto, o trabalho e a parceria da equipe pedagógica se fortaleceram. "Os professores já têm uma integração. Marcavam reuniões entre eles, amadureciam os projetos, e depois eu entrava para trazer mais ideias e questionamentos. No final, redigíamos e colocávamos em prática", conta. Essa troca e formação entre pares pode ser muito rica para o processo de implementação e capacitação.

Outra sugestão dada por Marisa é que, nos encontros formativos, da mesma forma que é feito com os alunos, os coordenadores escolares devem fazer um trabalho de modelizar os professores. Isto é, devem ser apresentados bons exemplos de práticas pedagógicas para que eles tenham como referência ao pensar na sua aula. "Tem que fazer junto, incentivar e ser parceiro do professor. O coordenador precisa ver significado no que faz, só assim o professor sentirá segurança no trabalho".

Mesmo quem já está mais avançado na implementação, a expectativa é que este seja apenas um início. As formações devem continuar para que haja um acompanhamento de perto nos próximos anos. "Desde o início do processo é preciso dar o suporte necessário para os professores. É uma formação contínua que vem sendo feita e vai se estender até 2023", afirma Rossieli.

10 dicas para preparar os professores para as transformações no Ensino Médio
Para dialogar com os docentes e colocar as mudanças em prática, é preciso estar atento a diversos aspectos.  Confira algumas orientações para isso:

  1. Promova o estudo sobre os documentos: é preciso entender todo o histórico e o que os marcos legais trouxeram para o Ensino Médio. “Se o professor não sabe, é necessário incluir na formação o estudo da BNCC e em cima do currículo. Temos que fornecer isso para eles”, explica Marisa
  2. Garanta que toda a equipe esteja na mesma página: nas formações, entenda o nível em que cada professor está para garantir o nivelamento do conhecimento. Veja as dúvidas e o que ainda precisa se aprofundado nos encontros
  3. Procure boas práticas: desde a aprovação dos documentos, muitas escolas e redes de ensino começaram a implementar as mudanças. Há escolas, por exemplo, que já trabalham desde 2018 com projeto de vida. Outras já começaram a implementar os itinerários formativos neste ano, como é o caso de São Paulo. É importar apresentar nas formações esses exemplos para que os professores tenham boas referências para se inspirarem
  4. Faça um acompanhamento contínuo dos professores: A coordenadora Marisa reforça a importância dos gestores terem uma visão próxima do trabalho do professor. É fundamental verificar o planejamento, dar devolutivas, fazer observação de sala de aula e  voltar a dar orientações e refletir sobre a prática do professor
  5. Estimule o aprofundamento e o uso de ferramentas tecnológicas: "Além de formação metodológica [de uso dos recursos], precisamos de muita oficina de como usá-las", destaca Marisa.
  6. Pense dinâmicas diferentes para as formações: quando for possível ter encontros presenciais, seguindo todos os protocolos necessários, uma dica é utilizar as próprias metodologias ativas durante as capacitações para que os educadores vivenciem o que eles devem fazer na sala de aula - saiba mais sobre homologia de processos e como colocar isso nos horários formativos.
  7. Repense a forma de planejar: a coordenadora Kátia sugere que já no planejamento os professores incluam as informações sobre as competências específicas e habilidades trabalhadas em cada atividade. "Deixar as coisas bem pontuadas é importante para se ter uma visão de como está o [andamento do] trabalho", afirma.
  8. Crie um espaço de diálogo: novidades podem trazer resistências e inseguranças, por isso é importante garantir uma escuta atenta às dúvidas e receios dos professores para desmistificar as transformações. Perceba os sinais para entender se é resistência ou se o educador está apenas com dificuldade de colocar em prática as mudanças.
  9. Mantenha a equipe motivada: como são momentos desafiadores, é essencial que o coordenador instigue seus professores para que sejam curiosos e busquem sempre o conhecimento. "Esteja próximo deles. No dia a dia, mande uma mensagem: “oi, professor, senti que você está quieto”, “como posso te ajudar?”, “tenho um livro aqui, assista a esse vídeo no Youtube", exemplifica Kátia.
  10. Não deixe de lado o olhar para o socioemocional: especialmente neste contexto de pandemia e de mudanças estruturais na etapa, é preciso ter cuidado com a equipe e garantir os vínculos.

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