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Ela ensinou como se faz ciência de verdade

Flávia Pereira Lima desafiou a garotada a refazer a pesquisa realizada pelo cientista que descobriu o mal de Chagas

POR:
Beatriz Vichessi
Flávia Pereira Lima. Foto: Marina Piedade
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Muito se espera do ensino de Ciências: que leve o estudante a compreender o meio ambiente e a relação que a sociedade desenvolve com ele, a elaborar uma concepção sobre o corpo humano e a conhecer o funcionamento dele, entre outros objetivos. No entanto, há uma premissa básica do currículo: ensinar como se faz ciência. Somente com essa aprendizagem a meninada compreende como ocorre o desenvolvimento do conhecimento científico e constrói sentido para todos os conteúdos a serem estudados.

Esse foi o objetivo central do trabalho de Flávia Pereira Lima com os alunos do 5° ano do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae), da Universidade Federal de Goiás (UFG). "Eu queria que eles compreendessem o trabalho científico com base na história de Carlos Chagas (1878-1934)", diz ela.

A ideia de fazer uso instrumental da ciência surgiu não só para cumprir o objetivo acima mas também para humanizar a figura dos cientistas. Como muitas crianças da mesma idade, os estudantes do Cepae descreviam esses profissionais como pessoas malucas, com poderes mágicos e donas de uma sabedoria fora do comum. "Descobri isso com uma atividade diagnóstica. Pedi que escrevessem o que faz um cientista e desenhassem um. Os estereótipos apresentados pela mídia, como a figura de Albert Einstein (1859-1955) descabelado, mostrando a língua, apareceram na maioria das produções", diz ela.

Antes de conhecer como Flávia organizou a se-quência didática para explicar o fazer científico às crianças, um convite à reflexão. Você sabe o que é ciência? Tendo isso claro, fica fácil compreender a riqueza de um trabalho desse tipo e reaplicá- lo.

Entender o conceito para ensinar melhor

A palavra ciência é originária do latim scientia e do grego episteme e faz referência a conhecimento. Ao longo da história, pensadores que se ocupavam do tema propuseram diversas explicações para o termo, levando em conta os conhecimentos da época, as descobertas e o modo de fazer ciência (leia o quadro abaixo). Embora várias conceitualizações sejam contraditórias, todas têm um ponto em comum: o compromisso com a verdade segundo Maria Helena Beltran, docente do Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Novas concepções continuam sendo elaboradas e isso não cessará. Em 2009, por exemplo, o Conselho de Ciência do Reino Unido apresentou uma nova definição: "Ciência é a busca do conhecimento e a compreensão do mundo natural e social por meio de uma metodologia sistemática baseada em evidências". A preocupação não é construir um conceito definitivo, e sim destacar pontos de vista e divulgar o pensamento científico.

É possível afirmar que a ciência se traduz em dois aspectos relacionados:

- Produto Corpo conceitual de conhecimentos organizados de forma lógica.

- Processo Forma de produção de conhecimento que vincula o saber e a sua produção.

Para o professor, ter isso claro é importante quando se leva em conta o consenso existente entre os especialistas da área. O modo de conceber a ciência incide no modo de como se ensinam Ciências. Porém a apropriação desse conhecimento sistematizado, tal como descrito anteriormente, não deve ser o foco das aulas. As crianças se apropriam dessas ideias ao longo do tempo. Não faz sentido apresentar a explicação pronta. O objetivo deve ser proporcionar às crianças acesso ao fazer científico - como se organiza, os porquês e os resultados deles.

Foi exatamente isso o que Flávia realizou ao elaborar a sequência didática sobre a descoberta do mal de Chagas. Ela organizou momentos para que os alunos pesquisassem, analisassem e questionassem informações e construíssem hipóteses para seguir os passos do descobridor da doença - comportamentos que balisam a postura dos cientistas. Ao mesmo tempo, a educadora não descuidou de conteúdos clássicos da disciplina relacionados à história que envolve o tema (o que é malária e mal de Chagas, quais são os sintomas de ambos, como são transmitidos etc.).

De acordo com Luciana Hubner, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10, Flávia levou o procedimento científico para a sala sem incorrer no erro de apresentá-lo como um passo a passo. É claro que conhecer as etapas do método científico é importante (leia o quadro na próxima página), mas a professora as ensinou com um exemplo real e fazendo um contraponto com o senso comum no que se refere ao modo de pensar e explicar o mundo (leia a entrevista com Ana Espinoza na última página).

A ciência e alguns nomes célebres
Como o conceito foi pensado e defendido ao longo da história

Ciência é a busca e a identificação daquilo que permanece, que não se modifica, ou seja, daquilo que é o ser.
Parmênides (530-460 a.C.), filósofo grego.

Ciência só se relaciona ao mundo das ideias, imutável e perfeito. O mundo sensível tem a ver com os movimentos e com a imperfeição.
Platão (428-347 a.C.), filósofo grego.

Toda ciência está subordinada à teologia. 
Tomás de Aquino (1225-1274), filósofo italiano.

A ciência é descritiva, sua elaboração é um empreendimento coletivo e deve ser fruto de um método indutivo.
Francis Bacon (1561-1626), filósofo e político inglês.

A ciência é como um corpo de conhecimento que descreve a natureza. Ela se desenvolve por etapas sucessivas e a base do conhecimento é a observação pura de fatos.
Auguste Comte (1798-1857), filósofo francês.

A ciência é um conjunto de teorias e leis que explicam e preveem fenômenos. As teorias são hipóteses e o experimento não é critério de verificação, só corrobora uma teoria.
Karl Popper (1902-1994), filósofo austríaco naturalizado britânico.

Fonte Maria Helena Beltran e Fumikazu Saito, professores do Programa de Estudos Pós-graduados em História da Ciência e do Programa de Estudos Pós-graduados em Educação Matemática da PUC-SP

Uma trajetória cheia de mistério

A turma observa os barbeiros para entender como eles transmitem a doença. Depois da picada, as fezes infectadas com o Trypanosoma cruzi caem na corrente sanguínea. Foto: Marina Piedade
Ver para analisar A turma observa os barbeiros para entender como eles transmitem a doença. Depois da picada, as fezes infectadas com o Trypanosoma cruzi caem na corrente sanguínea.

A história de Carlos Chagas, apresentada em capítulos e escrita por Flávia, é o fio condutor da sequência didática que ela desenvolveu. Para organizar o texto, ela pesquisou a vida do cientista em fontes confiáveis, como o Portal da Doença de Chagas e a Biblioteca Virtual Carlos Chagas, ambos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O cuidado para selecionar as informações e o tempo dedicado a isso asseguraram não só a qualidade do material mas também ajudaram a conhecer o tema a fundo, decidir o que seria apresentado de modo expositivo e o que ficaria mais interessante se proposto às crianças como atividade.

Atenção! Embora o foco do trabalho tenha sido Chagas e a doença que ele descobriu, outros cientistas poderiam ter sido escolhidos desde que a descoberta feita por eles fosse adequada ao currículo (leia o quadro na próxima página). Albert Einstein (1879-1955), por exemplo, não é uma boa opção para turmas do 5° ano: a Teoria da Relatividade envolve conteúdos abordados somente mais adiante.

A narrativa desenvolvida por Flávia começa com Chagas ainda criança, passa pela adolescência dele, pelo momento em que decide ser médico e segue mostrando a amizade e a parceria profissional que ele manteve com Oswaldo Cruz (1872- 1917) no combate à malária. Nesse ponto, a criançada já estava mais familiarizada e envolvida com o protagonista da história, um homem normal, dedicado ao trabalho.

As aulas de Ciências se tornaram imperdíveis quando a leitura passou a abordar a investigação de uma doença misteriosa que o cientista foi convidado a fazer no interior de Minas Gerais. Ele chegou a Lassance, a 263 quilômetros de Belo Horizonte, e se deparou com pessoas reclamando de um baticum no peito, febre, falta de apetite, mal-estar e inchaço no corpo. Chagas ficou intrigado. Qual seria essa doença? Os sintomas, diferentemente do que se pensava, indicavam que não se tratava de malária.

Uso intencional do vocabulário científico

A cada página, um novo fato era apresentado e discutido, mas Flávia também programou interrupções propositais para fazer os estudantes entrarem na trama. "Desafiados a se colocar no lugar do médico e pensar o que fariam para resolver determinada questão, eles sugeriam procedimentos, como analisar o sangue das pessoas, e apresentavam suas hipóteses sobre a origem do problema", explica. Essa postura valida o compromisso da professora com a relação entre ensino e aprendizagem: em Ciências, as crianças precisam aprender a refletir sobre o que observam, e não somente descrever o que veem.

A turma acompanhou os estudos que o cientista realizou na região com barbeiros que atormentavam os moradores, picando-os no rosto para se alimentar de sangue. E juntou as peças do mistério quando leu que ele analisou o sangue dos insetos e descobriu que o Trypanosoma cruzi estava no intestino dos barbeiros. Então, eram eles que transmitiam a doença aos humanos! Depois da picada, eles defecavam sobre a pele e, então, as fezes contaminadas entravam na corrente sanguínea das pessoas.

Para permitir que os alunos conhecessem o animal, nada de desenhos de bichos sorridentes. Flávia apresentou fotos e imagens realistas e um casal de exemplares de verdade. "O contato com imagens que têm mais semelhança com o real ajuda a impedir a construção de concepções distorcidas", diz Celi Dominguez, docente do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza da Universidade de São Paulo (USP), campus da Zona Leste.

Além das discussões e das leituras, a professora apresentou aulas sobre as especificidades biológicas da doença. Usou o vocabulário científico, com termos como Trypanosoma cruzi. "A turma compreendeu a função dessa linguagem", diz Flávia.

A meninada também analisou dados recentes sobre o mal com um mapa sobre a mortalidade causada por ele - coincidentemente, o estado de Goiás é o campeão - e discutiu as formas de prevenção. Diversos alunos levaram informações de casa, inclusive sobre parentes portadores da doença, ainda incurável. "Retomei uma parte do material para esclarecer que não se trata de uma doença que mata todos os portadores. Já havíamos estudado o caso da menina Berenice, a primeira pessoa diagnosticada com Chagas em 1909, que faleceu em 1979, com 82 anos", diz Flávia.

Para avaliar o que a turma aprendeu, além de analisar constantemente as colocações de cada um, a educadora previu momentos específicos para a produção individual de textos informativos. "Organizar dados por escrito é uma forma clássica de registro em Ciências", afirma Celi. Com base neles, ao notar que algumas crianças confundiam a doença de Chagas com a malária, ela rediscutiu o assunto e reforçou conceitos para ajudar a diferenciação.

O resultado do trabalho ficou evidente quando um aluno da classe disse à professora que um dia ela vai ouvir falar de uma doença batizada com o sobrenome dele. "Agora sei o que fazer para trabalhar como os cientistas", afirmou o menino.

Método científico
Conheça as etapas que orientam a realização das pesquisas

- Observação Verificação da ocorrência de um ou mais fenômenos naturais ou fatos de outra categoria.

- Levantamento de questões Proposição de variáveis, causas e consequências para o problema encontrado.

- Formulação de hipóteses Levantamento de possíveis explicações para a questão, que também pode envolver previsões.

- Elaboração e execução de experimentos Realização de testes para checar as hipóteses formuladas, seguidos da análise dos resultados.

- Conclusão Confirmação ou negação das hipóteses.

"A ciência elabora conhecimento para explicar o mundo"

Ana Espinoza. Foto: Raquel do Espirito Santo
Ana Espinoza, professora na área de Ciências da Educação da Universidade de Buenos Aires (UBA), na Argentina.

Existem dois tipos de conhecimento legítimos, o cotidiano e o científico. Qual a utilidade de cada um deles?
ANA ESPINOZA
Eles têm funções distintas. As informações que circulam na sociedade são úteis para o dia a dia. Ter informações sobre os sintomas de uma doença nos permite adotar um comportamento responsável. Mas isso não significa compreender os princípios que explicam o aparecimento do mal nem os procedimentos para a cura. Para isso, são necessários saberes sobre o metabolismo celular e os processos de ordem química ou bioquímica, quer dizer, informações científicas.

É possível afirmar que o conhecimento científico explica e descreve o mundo?
ANA
Tanto no universo científico como na vida cotidiana, utilizamos o termo "explicar", mas com significados distintos. Se nos pedem para explicar como se prepara uma comida, entendemos a solicitação e descrevemos o processo. No entanto, explicar um fenômeno cientificamente consiste em recorrer a modelos e teorias para usá-los como ferramentas interpretativas, e não descrever um passo a passo, nem estabelecer relações de causa e efeito. Quanto à ação de descrever, a ciência elabora conhecimento para explicar o mundo e não para produzir descrições precisas dele. Ainda que em uma experiência sejam feitas descrições das observações sobre um fenômeno em particular, elas são condicionadas pelo conhecimento que se tem até o momento e pelos pesquisadores envolvidos.

Por que é importante explorar os fatos do ponto de vista científico na escola?
ANA
Porque isso permite oferecer explicações sobre o funcionamento do mundo de um ponto de vista além do baseado no senso comum. Considerar que é possível encontrar explicações diferentes daquelas que intuitivamente construímos em interação com o mundo permite desdobrar a mente e desenvolver um pensamento de natureza mais abstrata.

Qual o benefício de explorar o percurso de um cientista para ensinar como se faz ciência?
ANA
Ao explorar a vida e a obra de um grande pesquisador, respeitando o contexto da época, é possível mostrar que o conhecimento é uma produção social, e não o produto de uma mente insuperável. O trabalho deve ser feito deixando claros os problemas, as contradições, as aventuras e as desventuras que surgem naturalmente durante o processo. Mas essa não é e nem pode ser a única maneira de fazer as crianças se apropriarem do conhecimento científico. Propostas de ensino que possibilitem experimentar, discutir, elaborar e reelaborar hipóteses a respeito de problemas são essenciais.

Darwin, Pasteur, Sabin e Cruz
Diversos cientistas podem ser estudados com o mesmo viés proposto pela professora Flávia 

Charles Darwin. Ilustração: Bruno Algarve

Charles Darwin (1809-1882)
Quem foi Naturalista britânico que propôs a Teoria da Evolução pela seleção natural, defendeu que os organismos mais bem adaptados ao meio têm maiores chances de sobreviver do que os demais.
Percurso científico Ele reunia e registrava dados de observações sobre a variedade das espécies em um caderno. Viajou ao arquipélago de Galápagos para fazer pesquisas de campo e divulgou suas descobertas com a publicação da obra Origem das Espécies

Louis Pasteur. Ilustração: Bruno Algarve

Louis Pasteur (1822-1895)
Quem foi Químico francês inventor da pasteurização, processo de esterilização de alimentos (leite, queijo, iogurte, cerveja e vinho) que consiste em expô-los a uma temperatura menor que a de seu ponto de ebulição e submetê-los em seguida a resfriamento súbito, eliminando assim micro-organismos.
Percurso científico Ele estudou a formação do vinagre (resultado da oxidação do vinho sob a ação de um fermento, o Mycoderma aceti) e a doença dos vinhos (provocada também por um fermento). Descobriu que a alteração do vinho poderia ser evitada esquentando o líquido até 55 °C. Pasteur também escreveu manuscritos relatando seus estudos sobre uma zoonose, a raiva. 

Albert Sabin. Ilustração: Bruno Algarve
Albert Sabin (1906-1993)
Quem foi Médico russo criador da vacina contra a poliomielite.
Percurso científico Ele pesquisou a cura da poliomielite (uma virose que provoca paralisia), o que resultou no desenvolvimento de uma vacina com a utilização do vírus vivo. A doença até hoje não possui tratamento.

Oswaldo Cruz. Ilustração: Bruno Algarve

Oswaldo Cruz (1872-1917)
Quem foi Médico sanitarista brasileiro.
Percurso científico Ele pesquisou a febre amarela, investigando o fato de a doença ser transmitida por um mosquito (e não pelo contato com roupas, sangue e secreções de doentes) e implementou medidas sanitárias para eliminar os focos do inseto em casas, jardins e ruas e impedir a concentração da água estagnada em que se reproduzem.

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