Do limão, uma limonada: a reinvenção da prática pedagógica durante o ensino remoto

Em 2020, os desafios trouxeram muitas aprendizagens para os professores que podem servir de inspiração para os desafios de 2021. A educadora Mônica Zonta compartilha a sua

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Mônica Zonta
Crédito: Getty Images

Se perguntassem para a Mônica de 2019 o que ela achava que aconteceria em 2020, certamente não falaria uma pandemia. Sou professora há 17 anos. Em todo esse tempo, dar aula remota para crianças foi a situação mais desafiadora que vivi na profissão. Alunos que estão acostumadas com meu abraço, meu boa-tarde, o visto no caderno, minha presença física. Eles que, muitas vezes, têm apenas a escola como um espaço para se sentirem valorizados e protegidos.

Dou aula em uma comunidade periférica que, em sua maioria, não tem acesso em casa a um smartphone, computador ou à internet. Durante o ensino remoto, o sentimento de fracasso tomou conta de nós e era rotineiro encontrar professores chateados nas reuniões pedagógicas virtuais. Mas, nos apoiamos, construímos e compartilhamos novas experiências. Com o passar do tempo, nos adaptamos e transformamos a circunstância em oportunidade de desenvolvimento.

A reinvenção da aula expositiva - agora, no ambiente virtual

Conheça a experiência de transformar as aulas para as videoaulas síncronas e assíncronas

Cabides se tornaram tripés, tecidos pendurados na parede eram fundo para as aulas virtuais e, não poderia faltar o clássico, passar 20 minutos falando com o microfone desligado até alguém dizer: “Prô, seu microfone está desligado!”. Teve até óleo que caiu no teclado do computador durante uma experiência de Ciências. A gente ri, se emociona, e cresce. Aprende no desequilíbrio, como propunha o tão sábio Piaget. Fomos desafiados a evoluir, mudar, transformar.

Ninguém que passou e está passando por essa situação está igual a quando começou. Mudamos muito. Não somos mais os mesmos, fomos transformados. Recebemos um contexto adverso e tivemos que trabalhar com ele. Sabe aquela história de receber um limão da vida? Então, se tem alguém que está acostumado a receber limões e transformá-los em algo, esse alguém é o professor. A minha limonada foi um sarau virtual.

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Como criar um sarau virtual
No início do ensino remoto não tínhamos aulas on-line, interagíamos apenas por grupo no WhatsApp e pelo Google Sala de Aula. No começo, tinha uma quantidade significativa de acessos à plataforma de ensino, mas, conforme a quarentena ficou menos restritiva, cada vez menos alunos acessavam as atividades disponibilizadas. Neste momento, pensei que precisava mudar a forma de alcançar as crianças.

Foi assim que criei a proposta de sarau virtual e conversei com o grupo de professores que trabalhava comigo no 3º ano. Todos foram muito receptivos e começamos a divulgar para as crianças. Através do site Render Forest, criei uma vinheta. Apresentei para a turma e eles ficaram encantados e motivados a participar.

Discutimos o que era um sarau e trouxe exemplos de formatos que poderiam ser apresentados. Após essa introdução, contei como seria o nosso: cada criança poderia enviar um vídeo recitando um poema, cantando uma música, dançando, ou produzindo uma arte.

Durante o processo de produção, tive que contornar algumas dificuldades e desenvolver novas habilidades – principalmente para usar ferramentas digitais. Por exemplo, quando recebi os vídeos das crianças, precisei aprender a editar. Pode parecer que será fácil e rápido, mas é bem trabalhoso. Essa foi a minha maior dificuldade na produção do sarau virtual. Por sorte, meu companheiro Roberto me deu aulas particulares para aprender a mexer nas gravações das crianças. Ele me apresentou o Adobe Premiere e passou algumas noites fazendo tutoria. Não foram poucas as vezes que o acordei de madrugada para tirar dúvidas, mas consegui. Quero dizer, conseguimos, porque foi um trabalho feito a muitas mãos... e que, sim, valeu muito a pena!

TikTok, podcast e Instagram: ferramentas a favor da aprendizagem

Entenda como usar gêneros textuais que surgiram nos últimos anos, como fanfic e podcast, e plataformas de internet, como TikTok, para a turma criar produtos finais com os conteúdos estudados.

O resultado final do sarau
O resultado foi muito positivo: as famílias se envolveram e passaram a interagir mais nos grupos. Conseguimos estreitar o relacionamento entre a escola e a casa do aluno. As crianças se viram no vídeo e se sentiram protagonistas de uma novidade. As famílias, felizes com a participação de seus pequenos, chegaram um pouco mais perto de nós.

Durante todo o processo até a exibição desse sarau, que foi publicado nas redes sociais da escola e nos grupos das salas, houve muita troca, amizade, persistência e conversa. No fim, o grupo estava mais unido e isso refletiu positivamente na participação das demais atividades.

Os frutos não pararam por aí. Nós, professores, tivemos um alento. Somos semeados por nossos alunos a cada ano e crescemos. Nossa motivação é vê-los florescendo todos os dias. Acompanhar cada rosto durante a apresentação desse sarau foi uma das melhores sensações que pude ter no ano de 2020.

Aprendizados durante o ensino remoto
Foram muitos testes, tentativas e erros até encontrarmos acertos. E esses acertos precisam ser compartilhados. Pensando nisso, trouxe algumas dicas que deram certo com a minha turma:

Pesquise com as famílias, elas têm muito a dizer: Em qualquer modalidade de ensino, ouvir as famílias é fundamental. Não é diferente no ensino remoto. Crie formulários intuitivos e pergunte às famílias sobre estratégias de ensino, dê opções de horários para a aula virtual, desta forma, certamente você terá famílias mais participativas e integradas com a escola.

Envie áudios explicativos todos os dias: Muitas vezes nos deparamos com famílias em que os responsáveis não são alfabetizados. Por isso, envie por áudio tudo o que você mandou por escrito. Minha dica é: fale como se estivesse dando aula. O aluno reconhecerá seu estilo e entrará na sua frequência!

Se arrisque na produção de vídeos: Hoje em dia temos ao nosso alcance diversos aplicativos gratuitos que nos possibilitam produzir uma videoaula. Esse formato de desenvolvimento do conhecimento é bastante agradável e eficaz, pois o aluno pode te ver e acompanhar visualmente tudo o que está sendo trabalhado. Ele ouvirá a sua voz, explicando toda a atividade e certamente encontrará mais facilidade em sua realização. Para produzir uma videoaula, há alguns passos importantes a serem seguidos:

- faça um roteiro, assim você evita fugir do tema enquanto fala. Esse roteiro pode estar em tópicos, que você pode deixar na sua frente enquanto grava;

- produza slides limpos, sem muita informação, elencando os tópicos a serem trabalhados e apresentando a atividade, tudo de forma bem objetiva;

- fale como se estivesse dando aula e seus alunos estivessem à sua frente.

Busque oferecer aulas ao vivo: Os encontros virtuais foram experiências sensacionais que tive durante o ensino remoto! Era nítido o significado que as famílias atribuíram a elas: era como se fossem aulas presenciais. Depois que iniciei a proposta, tive um aumento na participação de alguns estudantes na plataforma de ensino. Além disso, devolve, mesmo que minimamente, a sensação que essa pandemia nos tirou: o sentimento de estar com a turma! Para esses momentos, também tenho dicas:

- Avise seus alunos, com antecedência, quais serão os dias e horários das aulas virtuais;

- Lembre seus alunos e familiares através do grupo na rede social escolhida um dia antes, no dia e uma hora antes da aula. Assim eles não esquecerão e poderão se programar;

- Faça um roteiro de como funcionará o encontro;

- Busque materiais interativos na internet relacionados ao assunto que você vai tratar;

- Programe momentos lúdicos durante a aula: contação de histórias, roda de conversa e etc.;

- Chame os estudantes para interagirem com você: crie slides com letras grandes e os chame para ler também, peça comentários, busque os conhecimentos prévios;

- Cuidado com a luz na hora de lecionar, dependendo da posição dela, seus alunos terão dificuldades em te ver;

- Envie tudo que apresentar na aula no grupo após a aula para garantir que mesmo quem não conseguiu participar do encontro terá acesso à atividade;

- Não tenha vergonha! Este é o seu momento, é o que você sabe fazer.

Espero que essa minha contribuição te ajude a criar sua limonada!

E aí, professor, gostou das dicas? Te convido a compartilhar as suas experiências e aprendizados também!

Mônica Santos Queiroz De Paula Zonta é professora na rede pública de São Paulo há 10 anos, mas já atua na Educação há 17. É formada em Pedagogia e especialista em Educação especial e inclusiva. Foi finalista do prêmio Educador Nota 10 em 2019, com o projeto “Programando problemas”, que visava aprimorar na turma a habilidade de resolver situações problema, através da linguagem de programação. No momento, atua na Educação de Jovens e Adultos, como professora alfabetizadora.  

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