O que mudou na rotina do diretor com a pandemia?

Conheça seis transformações no dia a dia dos gestores escolares desde março de 2020 e os caminhos encontrados para se adaptar

POR:
Ana Paula Bimbati
Crédito: Getty Images

Não há dúvidas de que os professores precisaram repensar e adaptar seus planejamentos, aulas e rotina desde que o ensino remoto chegou. Mas não foram apenas os docentes. “Nós, diretores, ficamos responsáveis por diferentes segmentos da escola e é muito trabalhoso, porque precisamos que todas as frentes assumam suas responsabilidades dentro de um cenário bem caótico”, explica Priscila Arce, diretora da Escola Municipal Borba Gato, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo (SP).

Para José Marcos Couto Júnior, da Escola Municipal Professora Ivone Nunes Ferreira, no Rio de Janeiro (RJ), a sensação de ser diretor no atual contexto é de estar trabalhando no pit stop da Fórmula 1 em que a tarefa é trocar o pneu do carro com ele em movimento. Exige adaptação constante enquanto as atividades não param. Para entender como suas rotinas foram transformadas desde o início da pandemia, em março de 2020, conversamos com quatro diretores de escolas públicas. Conheça os seis pontos mais citados:

1. Número de reuniões com professores e rede de ensino mais do que dobrou

Com a distância instabilidade do cenário, a necessidade de reuniões entre a equipe aumentou (bem como a quantidade e frequência em que elas acontecem).  “A gente já tinha uma rotina de reuniões com a diretoria de ensino e com professores, mas elas precisaram aumentar porque muita coisa precisa ser alinhada, do administrativo ao pedagógico”, conta Osmar Carvalho, diretor da Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues, em São Paulo (SP). Apesar de terem se acostumado com a dinâmica e das reuniões terem diminuído comparado com o início da pandemia, ele ainda é alto em relação ao passado. E no que diz respeito às reuniões com pais e responsáveis, uma vantagem, segundo os diretores entrevistados, é que a participação tem sido maior. “Como elas são online, ficou ainda mais prático para as famílias que trabalham e passam bastante tempo fora de casa ou em deslocamento”, diz Priscila.

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2. O expediente não tem hora para acabar

Com as mudanças, o expediente do diretor – que já era cheio de surpresas na rotina – ficou ainda mais difícil de prever o horário da saída. “Precisamos atender a todos, então adotamos horários flexíveis. Temos reuniões às 9h, mas também temos 19h”, explica Priscila. Para Ana Lúcia Simões, diretora da Escola Estadual Guido Marliere, em Cataguases (MG), não existe mais “horário de trabalho”, já que as mudanças de cenário são constantes. “Quando você está na escola, consegue visualizar as dificuldades e controlar melhor o tempo, mas agora preciso administrar tudo sem estar perto. Preciso ligar para um e para outro, ver relatórios, preencher planilhas e tudo isso leva tempo”.

3. Demandas, relatórios e questões administrativas aumentaram

Se a rotina do diretor era tomada por relatórios, prestações de contas e tantas outras demandas administrativas, depois de março de 2020, isso se intensificou. “Viramos ainda mais burocratas com demandas que não abarcavam mais o trabalho do gestor escolar. Precisamos, por exemplo, também pensar na nova rotina da merenda, na entrega de benefícios do governo como cestas básicas e cartões de merenda”, justifica José Marcos. Na pandemia, a diretora Ana Lúcia afirma que todas as demandas acabam virando um relatório. “Oferecemos cestas básicas? Precisamos detalhar quantas crianças receberam, o que receberam e responder tantas outras perguntas. A Educação está acostumada com tantos obstáculos, mas hoje a maioria dos relatórios é relacionado ao administrativo”, conta.

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4. Comunicação com a comunidade escolar foi reestruturada

Inserido em uma realidade com poucos recursos, o diretor José Marcos admite que no início da pandemia a comunicação com a família e a comunidade escolar sofreu ruídos. Foi a partir disso que ele e sua equipe passaram a pensar em ações que pudessem fortalecer os vínculos e criar mais engajamento. “Inventamos um projeto de quarentena sustentável e pensamos em votações online de projetos, em que o aluno vencedor ganhava um prêmio, por exemplo”, relembra.

Em São Paulo, Osmar afirma que seu primeiro desafio do isolamento social foi a comunicação. “No início usamos as redes sociais e videochamadas, mas depois fomos aprimorando até chegar em um modelo em que o aluno conseguia entender o que teria naquele dia, quais eram as aulas, tarefas e recados importantes”. O diretor aponta que apesar da experiência de 2020, a comunidade não estão 100% por dentro de tudo, mas que hoje já existe um entendimento melhor da situação e o que pode ser feito. “A comunicação sempre existiu, mas agora não podemos ser só mais um diretor dando informações, mas fomentando o diálogo e envolvendo a todos nisso”.

5. Gastos financeiros precisam ser repensados

“O foco do gasto mudou”, indica Priscila. A diretora explica que a responsabilidade de pensar o que será comprado com os recursos da escola aumentou, já que é necessário ter em mente que muitos materiais não podem ser reutilizados. “Têm adequações que não perdemos [quando a pandemia acabar] como as estruturais, novas janelas, portas, mas e materiais como os acrílicos que ajudam a fazer o distanciamento das crianças? Precisa ser criativo para entender como esses itens serão reutilizados futuramente”.

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6. Planejamentos se tornaram mais flexíveis

Cada semana tudo pode mudar dentro da rotina de uma escola e é por isso que a Ana Lúcia planeja prevendo flexibilidade de tarefas, caso seja necessário repriorizar alguma demanda. “Podemos alterar a qualquer momento, dependendo da demanda, medida, e usamos também a reunião pedagógica para recuar ou acelerar o que prevemos”, explica. Como uma prática também útil aos docentes, ela aconselhou seus professores a fazerem o mesmo.

Já Osmar monta planejamentos mais específicos considerando os perfis de aluno. No ensino remoto, ele tinha quatro propostas para orientar os professores com alunos com acesso à internet; com poucos recursos; e aqueles que não tinham nenhuma tecnologia. No presencial, ele também preferiu adotar caminhos diferentes considerando as necessidades dos grupos para atender todos os alunos. Para Osmar, o resumo de sua rotina como diretor após a pandemia é simples de definir, mas complexo de operar: “nosso papel é de administrar cinco escolas em uma”.

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