O que dizem nossas casas

Analisar construções é essencial para começar a entender o conceito de lugar. Aguce o olhar da criançada para os diferentes tipos de moradia

POR:
Fernanda Salla
A turma do 2º ano da EMEF do Campo Professor Hermínio Pagotto analisa as casas do bairro em que vive e compara com outras moradias pelo mundo. Foto: Arquivo pessoal
A turma do 2º ano da EMEF do Campo Professor Hermínio Pagotto analisa as casas do bairro em que vive e compara com outras moradias pelo mundo

As habitações podem ser feitas de tijolos, pedras, madeira, barro e, em certos casos, até de papelão ou lata. Também podem ter tamanhos e formatos diversos. Suas características diferem de acordo com a situação social e econômica de cada família, a cultura ou até o clima e a paisagem na qual estão inseridas. Porém a função é sempre a mesma: proteger quem vive dentro delas. As crianças, no início da escolaridade, são capazes de observar as diferenças entre a casa onde vivem e as outras, mas muitas vezes não sabem dizer que impacto isso tem na vida das pessoas.

Ajudar os pequenos a observar as particularidades dos diversos tipos de habitação é essencial para que eles passem a se familiarizar com um dos conceitos mais importantes da Geografia, o de lugar. Eles devem entender que a moradia é consequência de vários fatores que determinam o modo como as pessoas vivem. "Dessa forma, eles começam a compreender a posição que ocupam no mundo", afirma Maria Encarnação Beltrão Spósito, professora do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), campus de Presidente Prudente.

Gisele Cristina Tiezzo, professora do 2º ano da EMEF do Campo Professor Hermínio Pagotto, em Araraquara, a 278 quilômetros de São Paulo, usou o tema para aprofundar o conhecimento dos alunos sobre o local em que moram, uma área rural pertencente ao Assentamento Bela Vista do Chibarro, criado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). "Identificar as características do seu lugar é condição para que a garotada entenda o papel do homem na transformação da paisagem, para melhor ou para pior", diz Gisele.

Ela começou o trabalho pedindo que cada um descrevesse sua casa. Em uma roda de conversa, lançou questões como: "De que material ela é feita?", "Tem quantos quartos?", "Como é o telhado?", "Quantas pessoas vivem lá?". Nem sempre é preciso tomar como base a casa dos alunos. Se as diferenças entre elas forem grandes e a discussão puder causar constrangimento, é possível analisar as construções do entorno da escola.

No Assentamento Bela Vista do Chibarro, há as casas de vila e as de loteamento. Elas exemplificam a transformação da paisagem local. "As crianças relataram que as casas de vila, as primeiras a serem construídas, são menores. Como estão sendo reformadas, é possível ver mudanças nas fachadas. As residências do loteamento são recentes e maiores", conta a professora. Com a ajuda da turma, ela enumerou as diferenças entre os dois tipos de construção. Depois, munidos de pranchetas, todos saíram a campo para observar as particularidades das casas antigas e já reformadas. Notaram que elas não tinham forro no teto - diferentemente das mais recentes - e contavam com janelas e portas de madeira. As mais novas, recém-pintadas, têm esquadrias de alumínio. Em classe, foi feito um registro coletivo com os dados colhidos.

Pesquisar as casas do entorno e refletir sobre o mundo

Palafitas e favelas. Fotos: Valdemir Cunha e Fernando Frazao
As palafitas, comuns em áreas alagadiças do país, como Manaus e Belém, são construções de madeira erguidas sobre os rios (à esq.). Predominantes em grandes cidades, as favelas são caracterizadas pelas moradias em áreas de infraestrutura precária

Com a ajuda do livro didático e de sites sugeridos por Gisele, os alunos pesquisaram outros tipos de residência, como as ocas, as palafitas e os iglus, ampliando o repertório sobre o tema. Nesse momento, a professora intervinha, lançando perguntas como: "O que vocês veem nas fotos?", "De que material acham que essas casas são feitas? Por quê?". Ao verem a imagem de uma oca, as crianças observaram que habitações desse tipo são feitas com argila e palha, materiais encontrados em abundância nas regiões de matas. Ao analisarem um iglu, habitação construída com gelo e que abriga habitantes do Círculo Polar Ártico em época de caça, concluíram que ele só é viável em regiões de clima muito frio, pois é feito de gelo - um potente isolante térmico. Na etapa seguinte, todos escreveram, individualmente, textos sobre o resultado da discussão realizada.

Pesquisas desse tipo funcionam como ponto de partida para aprofundar a influência das condições naturais - como o clima, o relevo e a vegetação - e de fatores culturais na escolha da arquitetura e dos materiais usados nas construções. Para tanto, vale questionar a turma: será que casas localizadas em áreas diferentes, mas com as mesmas condições físicas e climáticas são iguais? À semelhança dos índios brasileiros, algumas etnias indígenas do Pacífico Sul e da Ásia erguem suas habitações com itens da natureza, mas as colocam na copa das árvores. Portanto, a resposta é não. Conte à garotada que situação semelhante ocorre com os habitantes de regiões muitos frias. Nem todos eles vivem em iglus. "Isso evidencia que a criatividade humana responde de formas muito diversas à natureza", afirma o professor Nelson Pedon, coordenador do curso de Geografia da Unesp, campus de Ourinhos.

A natureza, no entanto, não é o único fator que interfere nos padrões de moradia. Exemplifique essa afirmação lembrando à classe o fato de serem encontradas no Brasil construções típicas de outros tipos de clima, como as casas enxaimel. Com telhado em forma de "v" invertido, elas são comuns no sul do país e são uma influência de imigrantes da Alemanha, onde esse recurso é usado para evitar o acúmulo de neve no topo das habitações. Ou seja, mesmo usando materiais idênticos, as técnicas e os estilos mudam dependendo do conhecimento, da época e das referências que determinado grupo humano tem ao construí-las. Também é possível discutir o tema mostrando imagens de construções desse tipo na Alemanha e no Brasil e propondo a comparação entre elas.

Fatores econômicos e sociais como determinantes da moradia

Casas com características da arquitetura alemã e prédios residenciais. Fotos: Ricardo Rollo e Alexandre C. Mota/Agência Odin
No sul do Brasil, casas com características da arquitetura alemã, típicas do clima frio, exemplificam a herança cultural dos imigrantes (à esq.). Cada vez mais comuns na paisagem brasileira, os prédios residenciais abrigam a maioria da população das grandes cidades do país

Discussões interessantes podem ocorrer em sala se você questionar a influência do poder aquisitivo e do padrão de vida na moradia. Para tanto, uma alternativa é mostrar imagens de barracos em favelas e mansões, perguntando a que fatores os alunos atribuem essa diferença e quais são as variações que eles observam nos dois tipos de construção em termos de infraestrutura urbana - existência de saneamento básico, iluminação, pavimentação e acesso a áreas de lazer nas proximidades, por exemplo.

Outra opção é propor uma pesquisa histórica, como fez a professora Gisele. Depois do trabalho de campo e das discussões sobre as influências de aspectos naturais e culturais nas habitações, os estudantes ouviram a opinião de pais e familiares sobre as mudanças por que passaram as casas localizadas nos arredores da escola. Assim, eles descobriram que as alterações no aspecto delas estava relacionada à melhoria do padrão de vida dos habitantes da região e ao incremento da infraestrutura local, como a chegada da água encanada e a pavimentação das ruas. Assim, analisando tanto as sutilezas quanto os contrastes da paisagem, a turma aprimorou seu olhar sobre seu entorno e sobre o mundo.

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