Alfabetização no ensino remoto: atividades impressas, WhatsApp e parceria com a família

Conheça a experiência de três professoras de escolas públicas que buscaram se adaptar dentro de suas realidades para avançar com a leitura e escrita no ensino remoto

POR:
Paula Salas, Camila Cecílio

Consultoria pedagógica: Selene Coletti

Mãe e filha estudando juntas com livros e cadernos sobre mesa. A mãe auxilia a filha no processo de alfabetização.
Crédito: Getty Images

No 1º ano do Ensino Fundamental, muitos dos alunos ainda estão conhecendo o mundo letrado e se familiarizando com ele. A organização do espaço na alfabetização, a rotina de atividades e o acompanhamento que o professor estabelece com as crianças visam estimular que elas descubram, compreendam e se apropriem do sistema de escrita. “Na sala de aula, temos um ambiente alfabetizador. Em casa, isso faz falta”, afirma Elaine Capote, professora de 1º ano na Escola Municipal Presidente Vargas, em Pariquera-Açu (SP).

Entretanto, é com criatividade e parceria que muitos professores nas escolas públicas brasileiras têm conseguido transpor um pouco dessa realidade para as casas das crianças. “Os pais e responsáveis são meus parceiros, me ajudaram muito no ano passado”, afirma Elaine. Foi devido a essa parceria que muitas crianças terminaram o ano lendo. “Uma das mães teve a ideia de etiquetar a casa toda com o nome dos objetos, algo que fazemos na escola”.

Mesmo com o material impresso sendo a principal estratégia utilizada pela escola, foi possível estimular que a parceria acontecesse. Elaine, por exemplo, para incentivar que as famílias criassem momentos de leitura, mandava livros junto com as atividades impressas e gravava contações de histórias por áudios compartilhados como material extra no WhatsApp. Não foi possível utilizar ferramentas digitais para além do aplicativo, mas, em 2021, ela também utilizou o recurso para fazer chamadas por vídeo com os alunos para realizar a sondagem da leitura e escrita.

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Os áudios de WhatsApp também viraram ferramenta de apoio da alfabetização na turma da Sonia Antunes Caregnato, professora de 1º ano na Escola Municipal Jean Piaget, em Marechal Cândido Rondon (PR). Sonia gravava áudios lendo textos simples que eram enviados para as crianças e usados para trabalhar a compreensão oral e levantar questionamentos que instigassem a identificação dos padrões da língua (como, por exemplo, letras iniciais e finais repetidas nas diferentes palavras).

Ela percebeu que atividades com rimas, brincadeiras de trava-línguas ou de aliteração funcionaram bem. "É algo mais próximo das crianças e é uma forma delas se familiarizarem com a escrita e oralidade", explica Sonia. Para fazer o acompanhamento, além da correção das atividades impressas, as famílias faziam registros das crianças contando para a professora o que havia aprendido ou como estava conseguindo escrever e ler.

Sarau a distância para incentivar a leitura

Com a pandemia, a Escola Municipal de Educação Básica Professora Ângela Lygia Parodi Scavone, em Itatiba (SP), decidiu manter o vínculo com os estudantes pelo WhatsApp. “Eu compartilhava textos para os alunos lerem e discutirem com suas famílias, mas isso não me satisfazia. Ainda tinha aquela inquietação sobre como eu poderia incentivar mais as crianças a lerem”, conta a professora Kátia Baptistella. No movimento de buscar inspirações, ela se deparou com experiências de sarau literário, evento que viu potencial para instigar a leitura na sua turma de 2º ano e como oportunidade de dar sequência ao trabalho que ela já havia realizado quando a mesma turma estava no 1º ano.

A proposta foi apresentada à turma e cada aluno teve liberdade para escolher o texto que quisesse ler, independente do gênero, e se preparar para o sarau, que seria realizado por vídeos ou áudios gravados previamente. A diretora e outras professoras da escola também se envolveram na ação e gravaram vídeos com leituras especiais para motivar as crianças. Durante o evento online foram compartilhados os vídeos das leituras das professoras e, por fim, a leitura dos estudantes.

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“A participação dos alunos me surpreendeu muito. Aqueles que ainda não liam de forma convencional também participaram e deu para perceber que se prepararam para aquele momento”, lembra Kátia. “Foi muito gratificante ver até quem ainda não sabia ler, lendo a partir de um livro ou de um papel”.

Além de reforçar a leitura como uma importante aliada, o sarau elevou a autoestima dos alunos, que se prepararam para ler para os colegas. “Elas se sentiram valorizadas e seguras, principalmente aquelas que ainda não sabiam ler totalmente e viram que podem e conseguem”, diz Kátia. A professora lembra, ainda que, a literatura é um dos fatores que colaboram para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. “Ela traz uma oportunidade de levar a criança a conhecer outros mundos, a adentrar lugares imaginários, a se colocar no lugar das personagens, a vivenciar situações como se fossem elas próprias as protagonistas”, pondera a professora.

Sonia também olhou para o emocional das crianças no início deste ano. Ela convidou as crianças para assistir com as famílias o filme Divertida Mente e, a partir dele, preparou uma sequência de atividades sobre as emoções. Entre as propostas, as crianças tinham que identificar os sentimentos relacionados a cada uma das situações, como uma forma de conseguir dar nome ao que sentiam. "É um desafio muito grande estar a distância e acompanhar o que a criança precisa", afirma Sonia. Por isso, as professoras se mantêm conectadas às famílias e buscam, cada vez mais, essa parceria para garantir um olhar integral para os estudantes.

4 pontos para considerar no uso de tecnologia na Alfabetização

Nesta etapa, as crianças ainda não desenvolveram autonomia para manusear, quando tem acesso, celulares ou computadores para um uso que não seja recreativo. Por isso, vale:

• Usar comandos simples. As orientações devem ser objetivas e a linguagem, simples.

• Explorar áudios e vídeos. Eles facilitam a comunicação e explicação das atividades e também dão autonomia para que as crianças ouçam novamente as instruções.

• Escolha materiais de fontes confiáveis: ao fazer a curadoria do que será enviado para a turma, considere a confiabilidade e qualidade dos materiais.

• Preze pela qualidade e não pela quantidade: a comunicação digital facilita o envio de informações e materiais diversos, mas se considere um curador e selecione aquilo que será acessível para elas.

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