Alfabetização no ensino remoto: como desenvolver a escrita, leitura e oralidade

Entenda como planejar atividades alinhadas à BNCC e conheça a experiência de duas professoras de escolas públicas durante a pandemia

POR:
Paula Salas

Consultoria pedagógica: Selene Coletti

Crédito: Getty Images

Na Escola Municipal Analice Maciel de Jesus, em Tartarugalzinho (AP), o trabalho durante o ensino remoto apenas foi possível com atividades impressas, que eram corrigidas e devolvidas às famílias. Antes da pandemia, a professora Tamila Tavares conseguiu fazer as atividades diagnósticas. "Apesar de ser uma turma de 1º ano, alguns já liam palavras ou conheciam o alfabeto", relata. A leitura, escrita e oralidade estiveram presentes em todas as propostas de atividades, entregues quinzenalmente para as famílias. 

O trabalho de Tamila é baseado em textos simples - como, por exemplo, parlendas, cantigas ou poemas - que possam ser lidos para ou pelos alunos, dependendo do nível de aprendizagem que ele já se encontra. É a partir de uma história ou textos que envolvem situações reais (como uma lista de compras ou o passo a passo de uma receita básica) que a professora desenvolve o trabalho com as palavras. "O aluno consegue compreender porque está trabalhando aquelas letras. Ele vê um todo para depois olhar para uma palavra", explica. As propostas conectam leitura, escrita e oralidade. Para aquelas famílias que possuem acesso ao WhatsApp, ela propôs que as crianças contassem histórias que foram criadas por eles por áudios. "No início eram muito simples, mas depois começaram a vir áudios elaborados", relata. "Entre os 25 alunos da minha turma no ano passado, 22 alunos retiraram as atividades impressas. Desses, 18 conseguiram avançar". 

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe que as atividades de leitura, escuta e produção textual em várias mídias (como os próprios textos em papel ou mesmo os áudios de WhatsApp) trabalhem o desenvolvimento de habilidades para o uso significativo da linguagem e de forma a sempre relacionar os textos a seus contextos de produção e funções sociais. O documento é estruturado em campos de atuação (vida cotidiana, artístico-literário, estudo e pesquisa, e vida pública), que representam tipos de textos que estão inseridos em cada um desses espaços sociais. Em cada um, os professores têm uma série de habilidades relacionadas a cada prática de linguagem (leitura e escuta, produção de texto, oralidade, e análise linguística/semiótica).

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Como planejar atividades de escrita, leitura e oralidade?
"Escrever é mais complicado do que completar letras de uma palavra", diz Maria José da Nóbrega, formadora de professores e consultora pedagógica de Língua Portuguesa. “Eu aprendo a escrever imitando outros autores, me apropriando de referências", complementa. Por isso, é importante o trabalho de forma contextualizada baseado em textos reais – o que não impede que o professor faça exercícios de sistematização ou de trabalhar com “palavras soltas”. 

Dentro dessa perspectiva, a especialista explica que o professor pode partir de um texto – uma situação contextualizada – e ir para a palavra para fazer uma reflexão sobre a escrita, mas não pode deixar de voltar para o texto. Em um exemplo: se o docente tem a intenção de trabalhar a escrita da palavra CASA, pode fazer a leitura do conto dos Três Porquinhos ou da música A Casa, de Vinicius de Moraes, e destacar o termo para levar a criança a pensar sobre o uso das letras. Isto é, ele sai do texto para estudar a palavra. Mas, depois, o professor sempre deve devolvê-la para seu contexto de forma a que a criança possa empregar o que aprendeu em uma situação de maior complexidade. O professor pode voltar para o texto para revisar e ler o que foi trabalhado ou colocar um problema para que o aluno identifique uma regularidade de escrita no texto. 

Ao planejar uma sequência didática sobre determinado gênero textual, Maria José recomenda que o docente passe por todas as práticas de linguagem relacionadas ao campo de atuação que está sendo abordado. Mas, é possível criar momentos em que a atividade proposta mobilize unicamente habilidades de leitura, por exemplo. O importante é que, na sequência completa, o professor não deixe nenhuma prática de linguagem de fora. "Se o professor quer que a criança produza um texto, ela precisa ser repertoriada sobre esse gênero para entender como funciona", explica a formadora. Por isso, é necessário passar por todos os eixos. Assim, se a expectativa é uma produção de texto sobre fábula para desenvolver habilidades de escrita, é preciso antes ter o momento de leitura, fazer a análise linguística dentro de textos desse gênero, desenvolver habilidades específicas do campo artístico-literário e trabalhar a oralidade para que a criança perceba as características do texto. 

Aprender com quem faz na prática
Em Tianguá, interior do Ceará, a professora Emanuela Barbosa da Silva dá aula para o 2º ano na Escola Municipal Frei Gervásio. A maioria dos alunos são da zona rural. Quando a pandemia começou, o diagnóstico tinha sido feito, mas muitas crianças ainda não sabiam ler. "Ninguém esperava trabalhar assim e as crianças não tinham acesso à internet, mas, na turma de 24 alunos, apenas 3 famílias não possuíam WhatsApp", conta a educadora. Este se tornou o principal canal de comunicação para as aulas. Diariamente, a professora compartilhava uma "agenda explicativa", em que eram passadas as instruções de cada atividade do dia, com a disciplina, o assunto e a proposta - geralmente acompanhada de um vídeo explicativo. Os alunos sem acesso, recebiam em casa os roteiros impressos. 

Todos os dias, as crianças enviavam vídeos ou faziam uma chamada por vídeo com a professora para fazer a leitura diária. Ao receber esses materiais, Emanuela passava dicas para melhorar a leitura e também ajudava as crianças a pensar nos próximos textos que poderiam ser enviados. Fotos das atividades realizadas, as correções e o feedback para as famílias também entraram na nova rotina.

Para planejar as aulas, a professora pensa em atividades de fácil compreensão para os alunos. Geralmente, assim como Tamila, ela parte de um texto para depois seguir para a atividade. O assunto trabalhado numa proposta se desdobra em todas as disciplinas. Quando o tema foi Tangram, por exemplo, Emanuela gravou um vídeo em que mostrava uma versão do jogo feito de madeira e contava a história. Depois, pedia para que eles recortassem do livro didático as peças do jogo e montassem os desenhos. A leitura do dia também era associada à história do Tangram.

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Outra atividade que deu certo em 2020 foram as sextas literárias, em que a professora gravava um áudio contando a história de um livro. Para que os alunos pudessem acompanhar a leitura, também eram enviados os textos. Depois, eles tinham que contar, em áudio, o que eles tinham acabado de ouvir e fazer a reescrita da história. 

O planejamento para 2021
Para continuar com a mesma turma, a professora Tamila dará aula para o 2º ano em 2021. Ela conta que, por enquanto, continuarão com o ensino remoto em um esquema semelhante ao do ano passado. Mas, ela já tem planos do que gostaria de fazer diferente: "Quero estimular ainda mais a leitura e aumentar a produção textual", conta. Ela diz que até o final do ano quer que os alunos consigam escrever textos de três parágrafos. Depois de um ano de ensino remoto, ela também já se sente mais confiante para explorar recursos digitais e quer gravar mais vídeos para os alunos. "Já tenho vídeos de TikTok prontos para este ano. O que for surgindo de ideia, vou desenvolvendo".

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Diferente de Tamila, Emanuela não conhece pessoalmente sua turma deste ano. As crianças também carregam as defasagens do ano anterior. "Quando chegam no 2º ano, geralmente, são poucas as crianças que não sabem ler, mas este ano está diferente. Eles vêm com dificuldade do 1º ano pela falta de acesso e acompanhamento aos conteúdos, então são poucos que já leem", explica a educadora. Por isso, além da continuidade com os roteiros de estudo, foram organizadas aulões pelo Google Meets, entre todas as turmas do 2º ano, como uma forma de reforço. Então, toda semana nesses encontros é trabalhado um assunto que as educadoras identificaram que os alunos têm dificuldade, em geral, partindo de um gênero textual diferente (receita, poema, contos e outros).

Em uma etapa tão desafiadora para ser feita a distância, as professoras ressaltam a importância da parceria com as famílias. A professora Emanuela criou uma medalha para aqueles que conseguissem participar muito das aulas, e as famílias também recebiam um cartão parabenizando pelo compromisso com a escola. “Foi uma forma de dar confiança para eles. Quando eles se sentem confiantes, o retorno é bem melhor”, diz a alfabetizadora.  A professora Tamila também destaca o envolvimento dos pais e responsáveis: “Se não fosse pelo comprometimento deles, não teria tido o sucesso que tive”.

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