Incentive a autoria dos alunos e organize slams durante o ensino remoto

A professora de Língua Portuguesa Lidiane Pereira compartilha experiência de trabalhar o gênero poético a distância

POR:
Lidiane Pereira
Crédito: Getty Images

Dou aula na rede municipal de São Paulo em um bairro periférico da zona sul da capital. A desigualdade social já existente se acentuou com a pandemia. Em 2020, apenas quem pôde deu continuidade aos estudos à distância, quem não, teve o processo de ensino-aprendizagem interrompido.

Apesar do cenário de um acesso não democrático ao ensino remoto, tive uma ótima experiência com alunos do 9º ano com quem desenvolvo o projeto Eu Posso ser Poeta. Fizemos uma competição de poesia falada on-line, isto é, um slam virtual. Os encontros pelo Google Meets eram semanais, mas também nos comunicávamos pelo WhatsApp e pelo Google Sala de Aula. 

Para dar início ao projeto, tivemos um momento de troca de experiências. Cada aluno deveria contar uma vivência com o texto poético, seja como leitor ou escritor. Depois de ouvi-los, eu compartilhei a minha experiência. Contei que meu primeiro contato com o gênero foi com Cecília Meireles, dividi as minhas primeiras sensações com as palavras cantadas e declamei os versos do poema Canção.

Na sequência, criamos hipóteses sobre o que torna a poesia um texto encantado, belo. Pedi para que registrassem a própria teoria e as ideias dos colegas no caderno. Com base nas respostas, construí com eles o conceito de linguagem conotativa e denotativa. Nas aulas seguintes, realizamos leitura de poemas. Utilizei versos extraídos da própria produção poética dos estudantes para trabalhar as figuras de linguagem. A ideia era mostrar que, sem perceber, eles brincavam com a língua em busca de novas formas de expressão.

Algumas estudantes me questionaram sobre como criar personalidade na escrita. Para dar uma resposta, sondei meus amigos poetas para entender como eles realizavam esse processo. Em aula, propus uma discussão sobre o assunto. Pedi que eles pensassem como nossa escrita é única. É a síntese de uma fusão do nosso conhecimento de mundo, história de vida e influências artísticas. Compartilhei com eles uma ideia do escritor José Saramago. Ele diz que quanto mais palavras conhecemos, melhor dizemos quem somos. Isto é, que a intimidade com as palavras também é um meio para imprimirmos autenticidade ao texto que escrevemos.

Momento de escrever: preparação para o slam
Depois das aulas com foco na formação poética, era o momento mobilizar meus alunos para o processo de escrita. Convidei para a aula a poeta Jéssica Campos, slammer premiada, uma das idealizadoras do Sarau do Capão e poeta formadora do Slam da Guilhermina - uma das primeiras batalhas de poesia falada de São Paulo. A presença da convidada, que é uma jovem negra moradora do mesmo bairro, entusiasmou os estudantes para o projeto o início do nosso próprio slam. Jéssica contou para eles o que é um slam, sua origem, como é a dinâmica e as regras para sua realização, além de nos inspirar com potentes performances poéticas. 

Antes da pandemia, os estudantes já haviam tido uma experiência de slam. A presença de Jéssica contribuiu para relembrá-los, consolidar esses saberes e motivá-los a protagonizar essa batalha poética num novo formato virtual. Dessa forma, demos início às aulas de escrita poética.  Cada aluno tinha o desafio de escrever três poemas autorais para serem recitados no dia do slam. 

Naquele período, os casos de violência policial que culminaram no assassinato de João Pedro no Brasil e do George Floyd nos Estados Unidos estavam sendo muito discutidos. Também vivíamos uma onda de protestos antirracistas pelo mundo. Por isso, escolhi tratar a temática com a turma. 

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Para começar a discutir o racismo, iniciei a aula com uma série de imagens que remetiam ao período da guilhotina e da forca. Questionei: quem era o sujeito que morreria? por que seria morto? Quem ordenou a morte? Em seguida, mostrei três charges - gênero textual que já havíamos estudado anteriormente - que abordavam os episódios de violência policial no Brasil. Refiz as mesmas perguntas. Conversamos sobre o racismo institucionalizado e como ele aparece na decisão de quem é bom e quem é mal, quem deve viver e quem deve morrer – contei que esse fenômeno recebe o nome de necropolítica, termo cunhado por Achille Mbembe. Juntos chegamos à conclusão que o preconceito racial é utilizado para naturalizar a violência contra a população negra.

Na aula seguinte, fizemos a leitura do poema Só por que é preto, de Jé Oliveira, dramaturgo, diretor e ator brasileiro. Convidei os alunos a pensar e registrar como o discurso da necropolítica se materializa no texto, como foi renovado com a pandemia que vivemos e, por último, discutimos formas de resistência às políticas de morte.

Eu pedi que para a próxima aula, assistissem ao vídeo Como é ser mãe de um menino preto e ouvissem a canção Fórmula mágica da paz dos Racionais MC’s. A proposta era que a partir desses conteúdos, regatassem as ideias trabalhadas durante as aulas e criassem um poema sobre o tema.

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Continuamos a produção dos textos. Em cada encontro, apresentava novas propostas de escrita com base nos temas discutidos e nas aulas sobre o gênero poema. Por exemplo, levei uma proposta de metalinguagem, na qual os alunos precisavam no poema falar sobre a escrita da poesia. Também sugeri uma intertextualidade entre o poema Um outro conselho, Mariana Félix, poeta e slammer, e a canção dos Racionais MC’s que havia apresentado para eles anteriormente.

O resultado final
A produção foi intensa. Durante uma semana, os alunos compartilharam seus textos e fizeram a reescrita até a finalização dos poemas. Eles cuidaram de fazer a arte de divulgação do nosso evento e publicar nas redes sociais. Foi um encontro lindo! Aconteceu pelo Google Meets e foi aberto para toda a comunidade escolar e famílias. Era a primeira vez em que estávamos todos juntos (virtualmente) desde o início da pandemia. Criou-se uma atmosfera emotiva.

alunos no encontro online pelo Google Meets
Foto:  Acervo Pessoal/Reprodução

Foram apresentados poemas sobre temáticas diversas que extrapolaram as sugestões dadas. Fizeram do slam um momento importante de escuta e de propagação das suas vozes. Como me disse uma das estudantes: o mais bonito da atividade foi poder falar e ser ouvida. 

Também em 2020, os estudantes foram convidados a recitarem seus poemas em diversos eventos on-line. A aluna Ayla Júlia, com os três poemas produzidos durante as aulas, foi campeã do Slam Interescolar de São Paulo e conquistou o segundo lugar no Slam Interescolar  Nacional. Durante o campeonato, ela contou: “Eu comecei a escrever nesse ano e fui muito impulsionada pela prof. Lidiane, ela me ensinou uma coisa muito importante principalmente na adolescência que a gente está cheio de revolta com as coisas do mundo. Eu nunca soube como expressar isso. Por meio da poesia eu posso mostrar tudo que me aflige enquanto jovem, preta e periférica. Reconheci meu lugar do mundo. Eu sou, porque nós somos, prô!

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Durante essa sequência didática tivemos a oportunidade de discutir temáticas que são urgentes de serem discutidas na escola e na sociedade. Percebo que, se continuarmos com o ensino híbrido, este é um bom caminho a ser percorrido. Isto é, encontrar formas de garantir uma Educação libertadora, que não está situada somente no mundo das ideias, mas que acontece na vida real. Continuo utilizando as mesmas estratégias que utilizava durante o ensino presencial: colocar em diálogo saberes que são desvalorizados numa perspectiva crítica e igualitária, faço da sala de aula (virtual) um espaço de relações horizontais em que todas as vozes são ouvidas e convido pensadores locais - poetas, dançarinos, psicólogos, artistas plásticos, etc.-  para se somar a nós e construirmos juntos uma constelação de saberes! 

Apesar do êxito nesta atividade, nada substitui o significado das interações presenciais, de estar juntos. A emoção é mais aflorada ao ouvir e presenciar os alunos declamando suas produções poéticas. Como nos ensina a ancestralidade africana, os textos também são compostos de cheiro, cores, temperatura, sons, pessoas, olhares. No formato on-line, perde-se, mas também é possível ter muita poesia.

Lidiane Pereira é formada em Letras, professora de Língua Portuguesa da rede municipal de São Paulo e vencedora dos prêmios Educador nota 10 (2020), 15º Prêmio Paulo Freire de Qualidade do Ensino Municipal e o Prêmio Alpha Lumen de Criatividade na Educação. Atualmente é mestranda no programa de pós-graduação Humanidades, Direitos e outras Legitimidades da Universidade de São Paulo (USP). 

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