Ensino híbrido: experiências inspiradoras de curadoria e cooperação docente

O professor como mediador dos conhecimentos e os alunos como protagonistas são chaves para a transformação da prática pedagógica diante do cenário atual

POR:
Antonio Oziêlton de Brito Sousa
Crédito: Getty Images

A pandemia acelerou muitas transformações que estavam em andamento na Educação. Por isso, nós, professores e professoras, fomos desafiados a nos abrirmos para outras formas de ensinar e de aprender mais coerentes com as necessidades atuais. Para pensar sobre as transformações da prática pedagógica, é importante partir de experiências concretas e as redes de colaboração são um espaço valioso para estabelecer essas trocas. Eu tenho acompanhado, por exemplo, o coletivo PerformATIVAS, uma iniciativa que disponibiliza conteúdos e práticas educativas criadas por professores de diferentes lugares do Brasil. Ao participar desse espaço virtual,  identifiquei a curadoria e a aprendizagem cooperativa como dois pontos fundamentais para o sucesso do ensino híbrido.

Como curador, o professor não é o transmissor da informação, mas um orientador, mediador e até inquietador de aprendizagens significativas. Ele é responsável por cuidar integralmente dos processos de aprendizagens, cabendo-lhe selecionar, disponibilizar e orientar o acesso ao conhecimento com zelo.

Esse processo exige que os educadores repensem a sua prática e sejam inovadores. Assim, a aprendizagem cooperativa é um dos caminhos possíveis. A metodologia é baseada no trabalho em grupo, em que o conhecimento é construído em conjunto a partir da interação e colaboração entre os estudantes e os educadores. Alunos mais experientes da escola ou ex-alunos colaboram com a aprendizagem dos mais novos, construindo uma prática de Educação mais solidária e engajada. 

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Como acontece na prática: duas experiências inspiradoras

Vivencio práticas de aprendizagem cooperativa em escolas públicas do Ceará desde o início do meu fazer docente na cidade de Ocara (CE). Para trazer como exemplo de como o professor como curador e a aprendizagem cooperativa ocorre na prática, quero compartilhar duas experiências inspiradoras que aconteceram durante a pandemia.

Na cidade de Pindoretama (CE), o professor Eryck Dieb de Souza, da Escola Municipal de Ensino Fundamental José Queiroz Ferreira, se inspirou no modelo híbrido de rotação por estações e fez uma adaptação para o contexto do ensino remoto. Ele criou quatro estações virtuais no WhatsApp (um grupo para cada estação) e um quinto grupo principal para orientar toda a turma e compartilhar orientações gerais da proposta e enviar vídeos, áudios e outros materiais de apoio.

Os agrupamentos menores foram feitos considerando os saberes de cada estudante, visando que pudesse haver colaborações e trocas. Após receber todas as orientações, cada equipe entrava no grupo de uma rotação e realizava a atividade que estava proposta. Quando o tempo previsto terminava, os alunos saíam do grupo e um novo agrupamento de estudantes entravam no link da estação, até que a turma inteira passasse por todas as estações. É interessante destacar que ficava registrado no WhatsApp o que cada equipe fazia, possibilitando um acompanhamento mais sistemático da turma. Além disso, o aplicativo permitia o contato por chamadas de vídeos no próprio grupo. Conheça o relato do professor Eryck.

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Em Pentecoste (CE), a Escola Estadual de Educação Profissional Alan Pinho Tabosa adaptou o trabalho com aprendizagem cooperativa para o contexto remoto. Durante a pandemia, a escola manteve o foco no protagonismo, emocional, aprendizagem e cooperação. Para isso, além de um trabalho constante de mobilização e motivação dos estudantes, foi adaptado o planejamento e a prática de aulas dentro da metodologia da aprendizagem cooperativa, com base na estratégia de ensino ETMFA (sigla que significa: E de exposição inicial, T de tarefa individual, M de meta coletiva, o F de fechamento e o A de avaliação Individual). Se quiser saiba mais sobre a metodologia, acesse aqui.

Cada uma das etapas foi adaptada para a realidade on-line do ensino remoto com o uso de grupos no WhatsApp (onde acontece o espaço para a aprendizagem cooperativa), encontros virtuais pelo Google Meets e a avaliação via Google Forms.  Paralelo a essa prática, há a entrega de atividades impressas e o uso do Google Sala de Aula, que reúne os materiais para quem não consegue participar dos momentos síncronos. Conheça mais sobre essa escola nesta reportagem.

A adaptação para o ensino híbrido

É muito importante compreender que o ensino híbrido não se configura apenas como uma estratégia emergencial para tempos de pandemia, mas uma abordagem pedagógica coerente com as necessidades educacionais dos jovens. No papel de mediadores, nós, professores devemos partir de questões reais do cotidiano dos alunos, inserir os elementos do ensino híbrido no planejamento, ter disposição para inovar e aprender com os estudantes. Além disso, exige uma nova postura dos educadores para que pensem propostas de ensino que:

- Favoreçam ao protagonismo estudantil;
- Respeitem a diversidade de ritmos de aprendizagens;
- Promovam agrupamentos produtivos;
- Remetam à interdisciplinaridade;
- Impactem na cultura avaliativa;
- Permitam aprofundamento dos conteúdos e desenvolvimento de competências;
- Propiciem cooperação e colaboração nos processos de ensino e de aprendizagem. 

Nas práticas citadas, os educadores atuaram como curadores e os estudantes foram protagonistas e aprenderam entre si. Essas e outras experiências inspiram meu fazer docente e permitem entender os desafios e as diversas possibilidades para garantir o direito de aprender. O ensino híbrido não se efetiva sem a cooperação. Ele se materializada em práticas de escuta ativa, gerando engajamento e aprendizagem entre os pares. Nesse sentido, destaco a importância da alteridade para a construção de processos criativos e inovação dos educadores que buscam conteúdos e aprendizagens cooperativas. Como diria Clarice Lispector: “que prazer dos outros existirem e de a gente se encontrar nos outros. Eu me encontro nos outros”.

Acredito em uma Educação capaz de imaginar outras realidades possíveis para gerar mudanças autênticas. Ela se dá a partir de práticas educativas cotidianas que, por sua vez, mobilizam novos fazeres pedagógicos, capazes de formar sujeitos que pensem sobre o futuro, reflitam sobre o que pretendem ser e como podem contribuir para uma sociedade melhor. Assim, precisamos da curadoria como estratégia para educadores mediadores, propositores, investigadores, problematizadores, cooperativos e inquietadores que promovem interações transformadoras seja no ensino remoto ou híbrido. 

Antonio Oziêlton de Brito Sousa é professor há 15 anos na rede pública, lecionou em vários segmentos, dos anos iniciais aos anos finais do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), Ensino Médio e Superior. Recebeu, em 2012, da Fundação Victor Civita, o Prêmio Educador Nota 10 com o projeto “Memórias todo mundo tem”, na área de Língua Portuguesa. Foi coordenador de ensino e gestor escolar. Atuou como consultor educacional do Governo do Estado do Ceará. Atualmente, alia a docência com atividades de formador de professores, consultor educacional, autor de materiais didáticos e contribui para o desenvolvimento de projetos sociais. Doutorando em Linguística Aplicada (UECE), mestre em Educação e ensino (UECE), especialista em Gestão Pública (UECE), graduado em Letras (UECE) e habilitado em Pedagogia (UVA). Integrante do Grupo de Pesquisa PragmaCult, do Programa Viva a Palavra e do Coletivo PerformATIVAS, constituindo-se como um professor pesquisador.

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