Desemparedando a Educação Infantil: reflexões sobre crianças e a natureza

Os ambientes externos costumam ser os preferidos dos pequenos. Com o isolamento social e pandemia, esta pode ser uma oportunidade para transformar as práticas educativas com as crianças

POR:
Evandro Tortora
Crédito: Getty Images

“É preciso desemparedar a Educação Infantil”. Você já ouviu essa frase? Embora desconheça a a origem do verbo “desemparedar”, o significado é muito fácil de ser entendido: a frase fala da necessidade de tirarmos as crianças de dentro das salas físicas e dar-lhes mais oportunidades de explorar os ambientes externos e viver experiências com a natureza.

Tenho acompanhado colegas ao longo do tempo discutindo questões associadas a importância de “aproximar as crianças da natureza”. Às vezes, parece que precisamos aproveitar a natureza para algumas vivências das crianças, como se existisse a natureza de um lado e a vida cotidiana (emparedada) do outro. Gostaria que partíssemos de outro ponto de vista, no qual pensássemos que pertencemos a esta natureza e ela é parte integrante do nosso ser.

Às vezes, me parece que as crianças sabem disso melhor do que nós. Pergunte para uma delas qual seu lugar preferido na escola e tenho quase certeza que ela vai dizer: “o parque”, “o bosque”, “a praça”... Quase todas vão citar um lugar a escola onde há árvores, areia, bichinhos, oportunidades de brincar e sentir o vento no rosto ou terra entre os dedos do pé.

Nós somos seres orgânicos e temos um modo de vida cotidiana que, por vezes, parece nos distanciar dessa ideia tão óbvia! Quando vamos ao supermercado e encontramos vegetais, frutas e verduras já crescidos, quase prontos para o consumo, esquecemos da sua origem e do processo complexo que aquele alimento passou até chegar àquela prateleira. Não digo aqui dos aspectos comerciais, mas orgânicos que parecem quase sobrenaturais aos olhos das crianças ao observar o nascimento de uma planta vinda de uma semente ou do cheiro que “magicamente” sai das flores e das árvores. 

No meu tempo de menino, morava num bairro que ficava próximo a uma região onde haviam eucaliptos. Me lembro claramente de comentar com minha irmã, toda vez que passamos próximos daquela região, que aquelas eram árvores com cheiro de desinfetante. De certa forma, sinto que naturalizei aquele cheiro por conta de um produto totalmente artificial, quando na verdade, morando tão perto daquele espaço, eu poderia ter primeiro associado ao desinfetante o cheiro daquelas árvores numa lógica inversa por conta das minhas experiências.  Dito de outra forma, o desinfetante tinha o cheiro das árvores e não o contrário.

Esta história serve para ilustrar um pouco da necessidade de desemparedar as infâncias e, pensando no contexto de longo isolamento social e das novas demandas que vem surgindo, acredito que esta seja uma discussão muito pertinente ao momento que estamos passando. Podemos unir essas necessidades às demandas de desemparedar as nossas práticas com as crianças.

Já não é de hoje a nossa necessidade de nos fazer enxergar como seres integrantes à natureza e de nossas escolhas com relação a como cuidar do meio ambiente nos afeta. Aos poucos, estamos estabelecendo hábitos que precisam ser revistos se quisermos cuidar do nosso futuro no planeta. Como diz Léa Tiriba, nesse artigo sobre Crianças e Natureza, “se quisermos barrar o processo de destruição que está em curso, precisaremos transformar profundamente nossa maneira de pensar e de sentir, de viver e de educar. Buscando sentidos para este desafio, diante dos meninos e das meninas que recebemos diariamente em creches e pré-escolas, perguntamos: quais são os nossos sonhos de educadores? Que exemplos oferecemos às crianças de hoje? Que herança – ética, estética, cultural, ambiental – deixaremos para os que virão depois de nós?”.

Na prática, como tudo isso nos afeta?

Primeiramente, gostaria de pensar contigo sobre as escolhas que fazemos sobre os espaços que  as crianças frequentam. Quanto tempo sua criança fica dentro de lugares fechados? Pense no tempo de sala, roda, alimentação, sono e outros presentes na rotina. Esta talvez seja um dos primeiros movimentos a serem pensados para esse momento de pandemia.

Devidos aos protocolos sanitários, ainda que estivermos todos vacinados, por um tempo, ainda precisaremos nos manter ao máximo em locais arejados e abertos para garantir os protocolos sanitários. Vejam, colegas, não seria essa mais uma oportunidade de desemparedar nossas práticas? Cito como exemplo uma escola da cidade de Jundiaí (SP), que aproveitou a oportunidade para colocar as crianças em parques e praças para aprender e viraram destaque em um artigo internacional.

A pandemia nos colocou muitos desafios que podem ser vistos como uma oportunidade de superar práticas. Não nego aqui que há muitas dificuldades envolvidas, como limitações do espaço físico e necessidade de formação, mas esse é o momento de conversarmos com direção, coordenação e orientação pedagógicas, corpo docentes e funcionários para nos organizarmos e recebermos as crianças com outra perspectiva, que poderá ser essencial às nossas práticas.

Além dos espaços, outro ponto importante a ser pensado são os materiais que fazemos uso no dia a dia com as crianças. A meu ver, um exemplo clássico disso é o uso excessivo de E.V.A., plástico e outros tantos materiais que parecem mais afastar a ideia de vida e natureza. Qual a relação que podemos estabelecer entre as folhas das árvores, galhos, sementes, flores, terra, água e tantos outros? São elementos que nos remetem à vida quando pensamos em sua origem. Já o plástico e o E.V.A., por exemplo, oriundos de compostos vindos do petróleo, tem lenta decomposição e nos remetem ao que já não tem vida há muito tempo. Qual a relação que estabelecemos ao utilizar esses tipos de materiais nas brincadeiras com as crianças?

Brincar de comidinha, no parque, utilizando barro, galhos e folhas pode parecer muito mais interessante que outros recursos. Não digo aqui que iremos privar as nossas crianças da escola pública destes materiais ou brinquedos, mas podemos dar preferência para as vivências com o ar livre e imaginação, em que os talheres da brincadeira de comidinha são galhos, as panelinhas são buracos feitos no chão e as folhas viram tempero da comidinha. Teremos ganhos muito mais significativos em relação, por exemplo, à criatividade e desenvolvimento da comunicação!  

Outra prática que precisamos refletir sobre é quando pensamos “trabalhar o meio ambiente” construindo brinquedos de sucata. Pensamos em construir carrinhos, brinquedos e bonecas com garras PET, potinhos de sorvete ou outros produtos que normalmente são do que? Plástico! Não seria mais interessante pensarmos uma vida mais sustentável, consumindo menos produtos engarrafados em PET e trocá-los, por exemplo, por mais sucos com frutas? São atitudes simples que podem estar mais de acordo com a ideia de que somos parte da natureza e de que ela faz parte de nós. Sabemos que há um “novo normal”. Que esse novo seja mais preenchido com essas reflexões que não são tão novas assim.


Um abraço carinhoso e até breve!

Evandro

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.