“A formação continuada tem o papel de mostrar novos caminhos”

Colunista de NOVA ESCOLA e vice-diretora de escola municipal, Selene Coletti fala sobre sua trajetória de 40 anos na Educação e como rompeu com crenças e práticas ao se abrir para a formação continuada

POR:
Ana Paula Bimbati
Crédito: Alexandre Battibugli

Quantas vezes ao longo da sua trajetória como docente, uma crença ou prática pedagógica foi colocada em cheque diante de novos olhares para a Educação? Para Selene Coletti, colunista de NOVA ESCOLA e atualmente vice-diretora da Escola Municipal Philomena Salvia Zupardo, em Itatiba (SP), essa situação se repetiu muito ao longo dos seus 40 anos de docência na escola pública e a transformaram em uma nova professora. “Apesar de ter começado a minha carreira docente copiando o planejamento dos diários de classe de professores mais antigos da escola, os estudos me mostraram que o ensino tradicional, que era dar a matéria e fazer a prova, não levam a lugar nenhum”. Hoje, ela não dispensa estar em contato com novas metodologias e práticas e de se jogar em desafios na carreira docente. 

Vencedora da edição de 2016 do Prêmio Educador Nota 10, Selene já passou por salas de Educação Infantil, Ensino Fundamental 1, gestão escolar e também atuou como formadora na secretaria municipal de Educação. Em conversa com NOVA ESCOLA, a professora Selene fala sobre aprendizagem por projetos no ciclo de alfabetização, como a formação continuada fez com que revesse crenças e práticas e relembra momentos de sua trajetória como docente. Confira a entrevista: 

Você estudou em escola pública? Como foi sua experiência escolar?

SELENE COLETTI Eu sou resultado da escola pública. Entrei em 1969 na Escola Municipal Coronel Júlio César, em Itatiba, e tive uma Educação tradicional: fui alfabetizada com a cartilha Caminho Suave e havia um modelinho de exercícios de Matemática, que a professora dava pra gente decorar e depois só trocava os números. Em geral, sempre fui boa aluna, mas isso não significa que entendia o que estava fazendo ali. Lembro que na 4ª série eu aprendi fração e tirei boas notas, mas só fui compreender a ideia por trás do conceito quando fui dar aula em 1981 (risos). Então, minha experiência na escola é o resultado desse ensino tradicional. Mas, em casa, eu tinha um exemplo de leitor, que era meu pai. Isso me ajudou a ter uma facilidade maior para escrever. Depois, fui fazer o curso de Magistério, que era novidade na época. 

Você já imaginava fazer o Magistério ao longo da sua trajetória como aluna?

Eu não pensava inicialmente no Magistério, porque na época o que se falava entre as minhas amigas era de uma escola técnica com curso de Química em Campinas, cidade próxima de Itatiba. Como a minha mãe não deixou nem eu tentar fazer o vestibular fora da cidade, fui fazer Magistério. Mesmo não sendo algo tão intencional, desde pequena eu já brincava de escolinha. Adorava dar aula para as minhas bonecas! 

Você está na carreira docente há 40 anos. De lá pra cá, houveram muitas mudanças nas políticas educacionais e na forma como vemos e fazemos escola. Qual você diria que foi o maior desafio que enfrentou nesses anos de sala de aula?

Lógico que a Selene que começou é totalmente diferente da Selene de hoje. Quando eu comecei, a gente tinha o diário de classe e  sempre tinha a professora mais velha, com seu diário mais amarelado por causa do tempo, que emprestava para os professores mais novos e a gente praticamente copiava o planejamento para fazer nossa aula. 

Isso foi mudando e o tempo foi mostrando a importância da formação continuada. O fato de continuar fazendo cursos que a prefeitura me oferecia me permitiu ver que algumas coisas precisavam mudar. Quando na cidade foi introduzido o Programa de Educação Pré-Escolar, da Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], por exemplo, a gente estudou muito. Foram muitas e muitas horas, quase 300h – praticamente uma especialização –, mas a gente não sabia ao certo como colocar tudo aquilo dentro da nossa prática na sala de aula. 

Reunimos os professores e organizamos uma rotina e planejamento para fazer essa transposição. Depois de um tempo, comecei a dar aula para o Fundamental e vi que existiam dois perfis distintos no meu contexto daquele momento: um na Educação Infantil, com novas metodologias baseada no programa da Unicamp; e outro, no Fundamental 1, que usava como referência o diário de classe da professora experiente. Comecei a me incomodar e tentei junto de outras colegas fazer a transição daquilo que aprendemos para o Fundamental também. Nós éramos em três, só que uma era do turno da manhã, outra da tarde e a terceira de uma outra escola. Fiquei sozinha para colocar esse projeto de pé e isso foi muito desafiador! Alfabetizar também é um dos maiores desafios da carreira. Tinha medo de não dar conta, mas depois você vai correndo atrás e vê que é possível. 

Durante esses anos teve alguma crença que você reviu na sua prática profissional?

Há 40 anos, quando eu comecei a dar aula, a proposta era você estar ali na frente, as crianças em fileiras e você despejando conteúdos. Eu achava que estava tudo muito bom, porque a teoria sem muito aprofundamento fez com que eu colocasse isso em prática. Mas o estudo foi me mostrando que não era assim. A formação continuada tem esse papel de mostrar novos caminhos, de mudar a trajetória e a partir daí fui abandonando o que as teorias que me formaram diziam. 

Ser autoritário, por exemplo, foi outra crença que tive no início. Isso não leva nenhum professor a lugar nenhum. Costumo falar que até uma determinada época, coitados dos meus alunos! Acho que eles não deviam gostar de mim, mas isso foi um ponto no meu desenvolvimento. 

Em 2016, você foi uma das vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”. Você sempre desenvolveu projetos com os seus alunos ou você começou a fazê-los a partir de algum momento da sua carreira? Qual é o ganho de desenvolver um trabalho por meio de projetos no Fundamental 1?

Acho que o trabalho com projetos é o caminho para ter uma visão do todo e para desenvolver o aluno integralmente. Você consegue desenvolver possibilidades para o aluno ser protagonista e diversas habilidades que envolvem conhecimento prévio, pesquisa, socializar informação, montar painel e até montar um vulcão que funciona – já tive uma turma que desenvolveu um projeto assim, tema que partiu deles – mas é ter um objetivo para o projeto, saber o que eu quero trabalhar e o que é meu produto final. No entanto, os primeiros projetos que fiz, no início da carreira, não tinham a ideia de projeto. Aos poucos, foram ficando muito melhor, com alunos participando e também com melhores intervenções. 

Nos Anos Iniciais, a alfabetização em Língua Portuguesa e Matemática tomam muito a preocupação dos professores. Você acredita que a tendência, em alguns contextos, é de que outras disciplinas não ganhem o mesmo desenvolvimento em salas do ciclo de alfabetização? Como superar isso? Projetos são um caminho?

Sendo bastante prática com a realidade, acaba se focando na Língua e na Matemática, e, por vezes, Ciências e cartografia, por exemplo, acabam ficando para trás, apesar de sua importância. A gente tem a cobrança de finalizar o ano com o aluno alfabetizado e essa é a preocupação que cai sobre os professores alfabetizadores: que o aluno saiba ler e escrever. Porém como ele poderia equilibrar com os outros componentes? No meu caso, eu trazia textos relacionados a esses temas, brincadeiras, jogos e outras ferramentas. A Selene lá do começo achava que ia aprender História e Geografia copiando; a Selene depois estudando foi vendo que não era assim. Eu posso fazer um projeto de Língua Portuguesa sobre os animais e assim, eu trabalho a escrita associada à outros conteúdos. 

O projeto é um caminho para fixar a Língua e trazer as outras áreas do conhecimento. Para isso, o professor precisa estar aberto. Lembro uma vez que propus fazer sinopse de livro. As crianças produziram e foram seguindo com outras atividades baseada na curiosidade delas. Começamos a fazer um painel e uma turma quis fazer um catálogo e, com isso, outras habilidades foram se somando na aprendizagem. A língua é de fundamental importância, mas é necessário trabalhar os outros lados, ajudando-os a fazer essa leitura de mundo. 

Qual dica ou conselho você daria para os colegas professores polivalentes?

Estudar e continuar sua formação, mas acima de tudo se apropriar dessa teoria, analisando e procurando enxergá-la na sua prática. Estudei o trabalho com projeto e agora vou tentar adequar. Eu acredito nisso que estou estudando? Se não, por que eu não acredito? Às vezes, precisamos dessa ajuda da equipe gestora para transpor para nossa realidade. A dica é essa: estudar, continuar se formando para poder buscar soluções para os desafios. É só olhar para a pandemia. A gente teve que correr atrás para conseguir solucionar e driblar os problemas.

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