A importância das redes de apoio e as habilidades socioemocionais para os professores

Desenvolver em si a perseverança e o autocuidado são elementos fundamentais para enfrentar os desafios do ensino remoto ou híbrido.

POR:
Mariana Martins Lemes
Crédito: Getty Images

Na escola, poucos momentos são melhores do que o início do ano letivo. Ao mesmo tempo que nos reencontramos com aquilo que é familiar, encaramos o novo e um universo de possibilidades. As expectativas de alunos, professores e gestores se acumulam, e há uma inquietação compartilhada, um entusiasmo que dissolve as frustrações do ano anterior e nos prepara para os novos desafios que virão. O cenário atual, porém, não é bem esse.

Com a persistência da pandemia, o início do ano letivo perdeu parte do seu potencial de renovação. As preocupações e anseios de 2020 ainda estão muito presentes. Nesse contexto, é normal nos sentirmos esgotados, desanimados e preocupados. Saber lidar com esses sentimentos de frustração e ansiedade é fundamental para que possamos desenvolver um bom trabalho.

Na verdade, mesmo sabendo que é importante promover competências socioemocionais em nossos estudantes, muitas vezes esquecemos de cultivar em nós a perseverança, a autoestima, a estabilidade emocional e o otimismo. Especialmente em um momento como este, cuidar de si é um passo fundamental para conseguir lidar com os anseios dos alunos – e, vale destacar, você não precisa fazer isso sozinho. 

Apoio e colaboração docente
A colaboração entre professores é cada vez mais encorajada, pois ela potencializa a criação de projetos, a reflexão sobre a prática, a interdisciplinaridade, entre outros aspectos. Mas, essa troca pode ir além das ações diretamente relacionadas à sala de aula. Afinal, os laços formados na escola muitas vezes extrapolam o profissional e tornam-se redes de ajuda e suporte coletivo.

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Neste Nova Escola Box, apresentamos reflexões e ofereceremos estratégias para os educadores trabalharem questões de saúde emocional no contexto da pandemia.

Esses grupos de apoio docente, construídos pela cultura colaborativa de professores, não são planejados ou coordenados pela gestão da escola. Eles surgem e se fortalecem espontaneamente nos intervalos de aulas e reuniões, na pausa para o cafezinho, no encontro do corredor. São laços voluntários e imprevisíveis, que aproximam profissionais por diversos motivos – relacionados, ou não, à prática docente. Inclusive, ao ler essa descrição, é possível que você tenha se lembrado de alguns de seus colegas. São as companhias que, justamente por ultrapassar as demandas diárias do trabalho, nos ajudam a ser professores melhores.

Eu mesma tive o privilégio de participar de algumas redes de apoio formadas no contexto escolar. Ainda antes da pandemia, por exemplo, eu e outras duas professoras da minha escola formamos um grupo de estudos. Na época, estávamos lendo Vygotsky e estudando a ação criativa na infância. Mas as conversas, é claro, iam além: a reflexão teórica frequentemente dava espaço à narrativa sobre o cotidiano escolar. A potência do encontro estava no ato de falar sobre a experiência docente com outras professoras e de poder refletir juntas sobre o trabalho realizado na escola.

Culpa, frustração e ansiedade docentes
Essas redes de apoio são necessárias, porque a nossa profissão apresenta algumas características únicas. Às vezes, é difícil para quem não é da área compreender as pressões diárias que o educador tem que enfrentar, assim como suas angústias.

Uma professora que se considera responsável pela aprendizagem dos seus alunos, por exemplo, ao mesmo tempo que se dedica às aulas buscando garantir que todos aprendam, é mais suscetível ao sentimento de culpa caso algum estudante não consiga desenvolver uma habilidade prevista. Mesmo sabendo que o contexto escolar é complexo e que não pode, sozinha, controlar outras importantes variáveis em jogo, ela provavelmente se sentirá culpada em alguma medida e se perguntará o que deixei de fazer?.

Já um professor que busca realizar diferentes propostas didáticas, ao mesmo tempo que inova em sua prática e contribui para a introdução de novas abordagens na escola, é mais suscetível ao sentimento de frustração, pois nem sempre o que é planejado sai como esperado. Mais uma vez, há variáveis que o professor não pode controlar. Ainda assim, é comum que a frustração seja voltada para si e o questionamento seja o que fiz de errado?.

Outro sentimento comum dos professores é a ansiedade ocasionada pelas demandas apresentadas pela gestão, tanto aquelas relacionadas ao trabalho burocrático (como o preenchimento de diários e relatórios dentro do prazo), quanto as voltadas ao cumprimento de metas (por exemplo, em avaliações externas). A apreensão acompanha a dúvida vou conseguir atender às expectativas de todos?.

Esporadicamente, esses sentimentos não são um problema: a professora que se responsabiliza pela aprendizagem dos estudantes, por exemplo, pode buscar novas estratégias para suprir as necessidades de cada aluno. Também o professor que se frustra ao ver que o projeto não teve o efeito esperado, poderá rever o seu planejamento. O problema surge quando há acúmulo e intensificação desses sentimentos. Muita culpa, ansiedade e frustração podem paralisar o professor e tornar insuportável o trabalho docente.

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Nessas situações, as redes de apoio são imprescindíveis. É no diálogo com outros colegas que conseguimos compartilhar experiências, sabendo que nossas dúvidas e sentimentos serão compreendidos por quem nos ouve. Com essa troca, é possível lidar com os problemas e recuperar a perseverança, a autoestima e o otimismo, renovando a vontade de ser professor.

E agora, o que fazer?
A pandemia da covid-19 criou o cenário ideal para a intensificação desses sentimentos negativos nos professores: o volume de trabalho aumentou, as expectativas e demandas mudaram radicalmente, ficou mais difícil acompanhar os estudantes e garantir sua aprendizagem. Sem as atividades presenciais, os profissionais foram também afastados de seus pares, fazendo com que muitos professores ficassem ainda mais vulneráveis.

Por isso, ao retomar as atividades, além de preparar materiais, planejar aulas e organizar o calendário, é importante resgatar as redes de apoio docente – ainda que a distância. Essas culturas colaborativas são essenciais, pois nos permitem ajudar e receber ajuda de professores que confiamos. Elas proporcionam um espaço de cooperação e solidariedade. Nelas, conseguimos recuperar o fôlego necessário para que a prática docente aconteça, apesar das condições adversas.

Faço, então, um convite: neste início de ano letivo – tão atípico e incerto – retome, se possível, o contato com os professores da sua rede de apoio. No meu caso, ainda em 2020, quando começou o isolamento social e as medidas de prevenção, eu e minhas colegas interrompemos os encontros presenciais do nosso grupo de estudos. Migramos para o digital, utilizando ferramentas on-line para fazer as reuniões. Discutimos Vygotsky e outros autores, mas deixamos os livros fechados em vários momentos. A conversa se deu de forma natural – e não poderia ter sido melhor! Por isso, cultive os laços colaborativos com profissionais que você conhece e confia. Lembre-se: ninguém precisa enfrentar tudo sozinho.

Mariana Martins Leme é professora de Geografia da rede estadual de São Paulo desde 2014 e mestre em Geografia Humana pela USP. Em 2019 recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, com o projeto interdisciplinar "Agricultura no Brasil: o que vamos colher no futuro?", desenvolvido na EE. Prof. Jácomo Stávale. Atualmente, integra a equipe curricular de Geografia da Coordenadoria Pedagógica da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Referência:
HARGREAVES, Andy. Changing teachers, changing times. London: Continuum, 1994

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