Blog de Alfabetização

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A experiência de uma alfabetizadora no retorno presencial das aulas

A professora Mara Mansani compartilhou como foram os primeiros dias na escola, seu planejamento, protocolos seguidos e o medo de ser infectada pelo coronavírus

POR:
Mara Mansani
 colegas de classe no ensino fundamental usando máscaras faciais
Foto: Getty Image

O retorno das aulas presenciais, em meio a pandemia do coronavírus, tem sido um misto de emoções, sentimentos e incertezas. Se por um lado tenho a alegria de reencontrar meus alunos, por outro há uma preocupação constante com a covid-19. Mesmo com todos os protocolos sanitários, o melhor e o ideal seria que nós professores voltássemos vacinados, mas isso ainda levará um tempo. Então, o que nos resta é ter a confiança e a esperança da chegada desse dia, que com certeza será histórico em nossa jornada profissional e pessoal.

Em Sorocaba, no interior de São Paulo, voltamos presencialmente esse ano. Estamos trabalhando em uma combinação e complementação de aulas online, usando recursos tecnológicos em aplicativos, entre outros. O objetivo é construirmos uma Educação híbrida, que temos de compreender que vai muito além de combinar os formatos de ensino.

Já em Salto de Pirapora (SP), na outra escola que leciono, continuamos no remoto com a participação das famílias e o apoio também de recursos tecnológicos. Em cada rede de ensino, para atender as diferentes realidades, um modelo é adotado e assim vamos nos adaptando, procurando alternativas, corrigindo aqui, fazendo ajustes ali. Não há uma receita a ser seguida, o melhor é a flexibilidade para encontrar o caminho no rumo a aprendizagem dos nossos alunos.  

Em ambas as escolas continuamos fortes e persistentes na busca ativa para não perder nenhum aluno. Essa é uma ação diária e muito importante, afinal estudar é direito das nossas crianças, adolescentes e jovens. É preciso ter em mente durante esse processo que não basta só trazer, é preciso oferecer uma Educação de qualidade. Em 2020, como mostraram várias pesquisas, muitos alunos ficaram de fora, às vezes sem acesso nenhum aos estudos, e aprendemos com essa experiência, logo devemos colocar em prática.

Como foi o retorno presencial da minha escola?
Em minha escola estamos recebendo 35% dos alunos por dia, alternando as turmas. Os estudantes foram divididos em três grupos, que se intercalam ao longo da semana. Apenas um aluno ainda não retornou, mas estamos tomando ações para resolver isso. A turma tem as aulas presenciais nessa organização e também acompanham os estudos pelo Centro de Mídias da Educação, criado pelo governo estadual. Há um compartilhamento na intencionalidade pedagógica entre todas essas aulas.

Como organizar e cuidar do espaço escolar em 2021?

Confira dicas para recepção, cronograma e acolhida dos alunos. Leia também sobre o que é preciso se atentar nas entradas dos alunos e idas ao banheiro.

Também há momentos de interação entre as aulas presenciais e online, onde faço a mediação entre os grupos. Se estou com o grupo 1, por exemplo, no remoto tenho os demais grupos, que participam pelo menos da primeira hora. Durante esse momento,faço leitura, explico as tarefas, tiro dúvidas e oriento sobre as aulas no Centro de Mídias. Depois continuo com os alunos presenciais os estudos. Você deve estar pensado: “tudo mudou e com as novas necessidades fica ainda mais difícil!” E é isso mesmo! Não está sendo fácil, é cansativo, mas devagar melhoramos e aperfeiçoamos nossas práticas.

Semanalmente planejamos nossas aulas e a cada semana corrigimos ações e adotamos novas estratégias. A primeira semana foi bem mais difícil de dar conta de tudo, as demandas estavam tomando um tempo além do devido e esperado. Agora, as tarefas têm se encaixado e a tendência é uma melhor organização em geral.

No início, o formato era de alunos no presencial e todos os outros estudantes do ensino remoto acompanhando de casa a aula inteira. Isso não funcionou, já que não era possível dar a atenção e acompanhar toda turma com a devida qualidade, por isso mudamos. E podemos mudar novamente a partir de novas necessidades de ajustes, mantendo sempre o foco da aprendizagem para todos. É importante ressaltar que nossa proposta vai além desses ajustes de organização e formato das aulas, um dos nossos pontos essenciais é estabelecer e consolidar o ensino híbrido, utilizando metodologias ativas com apoio da tecnologia. Em minha prática, por exemplo, tenho percebido que estou adotando a metodologia da sala de aula invertida.

Na escola também temos atendimento online e presencial para alunos com deficiências e que precisam de um acompanhamento ou atenção mais individualizada e personalizada.

E a aprendizagem dos alunos?
Quanto a situação de aprendizagem dos alunos nesse retorno, vejo que terei muito mais trabalho para atender as diferentes necessidades de aprender dos meus alunos (e quanta diferença!). Quem participou de todas as atividades em 2020 está bem e a continuidade não sofrerá grandes alterações, só alguns ajustes ao longo do ano. Quem pôde participar apenas de partes, um pouco, ou quase nada, precisará de um plano pedagógico específico e contínuo para o desenvolvimento das habilidades essenciais. Esses alunos, a maioria sem problemas de aprendizagem, apresentam nessa primeira análise dificuldades de escrita, na produção textual, alguns na leitura com autonomia e resolução de situações problemas. Mas esse tema voltarei em outro texto aqui na coluna.  

Baixe o calendário 2021 com datas comemorativas

Confira calendário gratuito com efemérides que podem ser trabalhadas esse ano. São quatro modelos Pássaros do Brasil, Ensino Híbrido e Minimalista. E o mais especial de todos é a versão comemorativa em homenagem aos 100 anos do nascimento de Paulo Freire.

Acolhimento e protocolos sanitários
Agora falando de sentimentos e emoções... o primeiro impulso das crianças na chegada à escola era correr para o abraço, o que não é possível no momento. Por isso, se preparem para muito falatório (risos). Foi muito bom escutar a todos e perceber como voltaram diferentes, maiores, todos de máscaras, estranhando essa “nova escola”, onde todos se prepararam para recebê-los. Neste texto sobre as socioemocionais e o retorno das aulas, conto sobre o meu planejamento para a acolhida.

Fiz também uma nuvem de palavras. Os alunos responderam o que mais sentiram falta da escola e foi incrível! Ótimo recurso para acolher, ouvir e dar um retrato da turma depois de todo o distanciamento. Façam vocês, queridos professores e professoras, também. Vão se emocionar e se surpreender com a participação das crianças. Eu amei!

Quanto aos protocolos sanitários e de saúde, estamos seguindo na risca. Distanciamento, uso de máscara, lavar as mãos, uso do álcool em gel, não compartilhamento de objetos e tantas outras coisas. Essa é parte que exige muita atenção de todos, confesso que fico ainda tensa com tudo isso. Nas aulas, além da máscara, uso também o face shield. Voz abafada, calor, dificuldade para respirar, mas esse é o correto para a prevenção, então sigo tudo, mesmo quando embaça os óculos.

O recreio das crianças é feito por turmas e em vários horários para não ocorrer aglomerações. Elas comem no pátio, um espaço arejado e com lugares delimitados nas mesas. As entradas e saídas também têm diferenças de minutos entre as turmas e assim mantemos uma boa organização em todos os momentos.

Como puderam perceber tudo está diferente e não há outro caminho que não seja esse. Nossas aulas ganham novas nuances e mais qualidade. Temos aprendido com tantas novas necessidades na Educação, mas nosso desafio maior é oferecer esse estudo para todos.

Mas e vocês, queridos professores e professoras, como estão as aulas por aí na sua rede? Qual o formato e a organização? Sua escola foi organizada e adaptada para seguir os protocolos sanitários? Há orientações para os professores? Conte aqui nos comentários sua experiência!

Sigo aqui dando o meu melhor, mas ainda preocupada com a situação de máscara e tantos outros cuidados. Continuo torcendo e pedindo vacina para todos, estudando muito para aprender como lidar da melhor maneira com tudo isso.

Um grande abraço e até aproxima,

Mara 

Mara Mansani é professora há quase 30 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.