Pensamento criativo e a Matemática: como desenvolver nos alunos

Entenda a relação do conceito com o componente curricular e como ele pode ser aplicado na sua aula de Matemática

POR:
Selene Coletti
menino em frente a uma lousa com o desenho de uma lâmpada
Foto: Getty Image

A escola é um ambiente de socialização e acesso ao conhecimento, que tem como foco ser transmitido e dominado. Para isso, sabemos que é necessário mudar, já que a sociedade volátil do século XXI precisa de pessoas que saibam se adaptar as muitas mudanças e desafios – eis a pandemia para nos mostrar isso! 

A sociedade procura por pessoas que entendam que apenas o conhecimento não é suficiente, mas acreditem que é preciso uma Educação que desenvolva o ser humano de forma integral  e plena.

E é neste contexto que o pensamento criativo em consonância com as competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as socioemocionais dialogam para oferecer as ferramentas necessárias para alcançar o objetivo de desenvolvimento pleno. 

Mas o que é mesmo pensamento criativo?
Antes vamos refletir um pouco sobre o que é criatividade, esse termo tão carregado de mitos. Um deles, arraigado ainda em nossos dias, é que a criatividade é para poucos ou somente para gênios como Da Vinci. Por isso, é importante saber que a criação é abundante demais para ser para poucos. 

Outro mito falado é que “criar é um processo mágico”, mas isso atualmente cai por terra, pois criar requer um trabalho intelectual e emocional. Muitos acreditam também que na escola não há espaço para se desenvolver a criatividade, já que é preciso focar no conhecimento, o que como mencionado inicialmente a torna um tanto obsoleta nesta sociedade ambígua e incerta.

Quer entender as dez competências gerais da BNCC?

Para quem é útil: Professores de todas as etapas da Educação básica e gestores escolares
Qual o objetivo: Entender os aspectos essenciais das dez competências gerais da BNCC e conhecer dois casos reais de escolas públicas que transformaram a proposta do documento em prática

E você, já havia pensado na criatividade a partir dessas ideias? Você vê a criatividade presente em você? Tivemos e temos que ser criativos o tempo todo. Será que criamos em nossas janelas virtuais ou nas nossas salas de aula espaços para que nossos alunos possam ser criativos?

A criatividade pode ser definida como “uma competência complexa e híbrida, pois surge da composição de elementos distintos, tais como conhecimentos e saberes, capacidade de resolução de problemas e domínios socioemocionais - como autogestão e abertura ao novo. ” Em outras palavras, é o potencial que todos nós temos para enfrentar o novo nas diferentes situações do nosso cotidiano e avançarmos nos diferentes campos. Ou seja, é uma competência que pode e deve ser desenvolvida e trabalhada por todos, sobretudo nas nossas salas de aula.

O processo do pensamento criativo envolve a elaboração de ideias que sejam inéditas para aquela situação -  mesmo que isso se refira à própria pessoa - e possa representar a solução para o problema. De acordo com a psicologia contemporânea, o processo criativo se manifesta a partir de quatro expressões:

  • “Entender o problema (pode se relacionar a qualquer situação que demande uma solução);
  • Praticar projeção criativa (ou imaginação);
  • Colocar em prática as ideias;
  • Refletir sobre o processo.”

Se você ainda não havia pensado na criatividade sob estes ângulos e quer refletir um pouco mais, clique aqui e aprofunde seus conhecimentos. É um material do Instituto Ayrton Senna que traz muitas contribuições para o tema.

A conexão da criatividade com a matemática
Você já deve ter feito a conexão do pensamento criativo com a Matemática a partir do viés da resolução de problemas.

A teoria define a criatividade matemática como “a capacidade de apresentar inúmeras possibilidades de soluções apropriadas para uma situação problema, de modo que estas focalizem aspectos distintos do problema e/ou formas diferenciadas de solucioná-los, especialmente formas incomuns (originalidade), tanto em situações que requeiram a resolução e elaboração de problemas como em situações que solicitem a classificação ou organização de objetos e/ou elementos matemáticos em função de suas  propriedades e atributos, seja textualmente, numericamente, graficamente ou na forma de uma sequência de ações”.

Inspire-se no ensino híbrido para criar aulas de Matemática

Para quem é útil: Turmas de 4º e 5º ano
Qual o objetivo: Aprender a utilizar estratégias de ensino híbrido para planejar aulas de Matemática, remotas ou semi-presenciais, sobre grandezas e medidas
Habilidade da BNCC: EF04MA20, EF05MA19, EF04MA22

Diante das diferentes situações que propomos para nossos alunos resolver, o pensamento criativo estará presente se nós permitirmos que cada estudante possa coordenar as diferentes ideias para a solução, expressando sua forma de pensar, sendo questionados, instigados a ver o problema com diferentes olhares.  Isso implica em proporcionar um ambiente no qual as trocas, os diálogos estejam sempre presentes, bem como a nossa disponibilidade para ouvir as ideias de toda turma.

Como colocar tudo isso em prática?
Uma forma de começar a exercitar essa abertura para a criatividade é propor problemas abertos para nossos alunos, ou seja, aqueles problemas que possuem inúmeras possibilidades de resolução, potencializando a criatividade da turma.

Abrir espaço para que os alunos construam seus próprios modelos de resolução, testando-os para se chegar na solução. É importante também que os espaços de comunicação estejam abertos, que a turma possa comunicar aos colegas e a você, professor, como pensou para resolver o problema, explicitando o processo mental. É a argumentação entrando em ação e, lógico, você, contra-argumentando.

Há um livro, “Pobremas – enigmas matemáticos”, antigo por sinal, que traz uma série de problemas abertos, onde o aluno pode encontrar a melhor forma de resolver. E se você permitir, eles encontrarão possibilidades que nem mesmo você possa ter pensado.

É importante salientar que mesmo os problemas fechados permitem a resolução por diferentes caminhos. Ouvir o “como” cada um resolveu também contribuirá para o desenvolvimento do pensamento criativo e da argumentação.

O trabalho com os jogos, que já conversamos aqui em outras ocasiões, é também uma forma de desenvolver a criatividade. As estratégias (e o próprio jogo em si) requerem pensar em inúmeras possibilidades para se vencer, o que implica em elaborar ideias originais e inovadoras. Compartilhá-las com a turma aumenta ainda mais esse potencial criativo, pois ao ouvir o que o outro pensou, “reflito e aperfeiçoo o que fiz”.

Curso sobre jogos matemáticos no Fundamental 1

 Conheça duas propostas de jogos para as turmas dos Anos Inicias no curso de NOVA ESCOLA. Além disso, a formação ajuda você a entender as características do trabalho com jogos em sala de aula e ajuda a estruturar um planejamento que proponha uma atividade com o jogo. 

Outro aspecto que pode render bons resultados a partir desse olhar é o pensamento algébrico. Os alunos precisam encontrar soluções para construir e descobrir as sequências, por exemplo. É muita criatividade envolvida!

Para finalizar essas reflexões, trago uma proposta que encontrei enquanto pesquisava o tema dessa conversa para que você responda, mas sem ler as respostas. Vamos lá?

Dados os números 23 - 20 - 15 - 25, qual deles não pertence ao grupo? Por quê?

Num primeiro momento respondi que era o 23 pois era o único que não é múltiplo de 5. Você também respondeu assim?

No entanto, esta questão não possui apenas uma resposta, ou melhor, qualquer um deles pode ser o diferente, vai depender da argumentação desenvolvida.  Veja só, poderia ser o 20 pois é o único par, possui zero na unidade. Poderia também ser o 15 que é o único que é divisível por 3 e possui o 1 na dezena. Poderia ser o 25 uma vez que é o maior de todos e a soma dos seus dígitos também é o maior.

E você, conseguiu enxergar mais de uma possibilidade? A ideia é também olhar e questionar se nossas propostas estão despertando ou potencializando o pensamento criativo em nossos alunos. Repensar esse processo a partir desse viés é fundamental, se a gente quer contribuir para a inserção das pessoas nessa sociedade em mudança.

Um abraço e até a próxima!

Selene

Selene Coletti é professora há 40 anos na rede pública. Atuou na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos tendo trabalhado do 1º ao 5º ano. Recebeu, em 2016, da Fundação Victor Civita, o Prêmio Educador Nota 10 com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada e também como formadora da Educação Infantil, na Prefeitura de Itatiba. Atualmente é vice-diretora da EMEB Philomena Zupardo, em Itatiba.

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