Ensino híbrido: Habilidades socioemocionais são fundamentais para enfrentar as mudanças na Educação

O desenvolvimento das competências não são importantes apenas para os estudantes, mas elas podem ajudar os educadores se adaptarem ao cenário atual

POR:
Mozart Neves Ramos
Crédito: Getty Images

Iniciei a docência como professor de Física no Ensino Médio, na mesma escola que havia estudado. A responsabilidade era imensa. Já no primeiro ano me deparei com um grande desafio: a reprovação de meus alunos. Ensinava mais precisamente, naquela oportunidade, termologia e ótica. Nas minhas aulas, usava exclusivamente a lousa, pois a escola não dispunha de laboratório de ciências. Ao final do primeiro semestre fui chamado para conversar com o diretor da escola. Se por um lado, minha avaliação foi muito positiva pelos alunos, por outro, uma parte deles estaria reprovada. O que fazer? 

Resolvi sair de uma situação de conforto, enquanto professor, e criei com eles um laboratório a céu aberto usando os princípios da energia solar para motivá-los a superar as dificuldades de fazer contas básicas de Matemática para resolver os problemas da Física. Montamos fogões, destiladores e secadores solares. Para cozinhar feijão usando um fogão solar, eles tinham que calcular o ponto exato onde deveriam colocar a panela para que os raios solares convergissem e esquentassem a comida. O mesmo procedimento foi realizado para destilar água salgada no destilador, e secar as frutas no secador solar. Tudo aquilo produziu um grande encanto entre os estudantes. Eles se sentiram motivados para estudar não só  Física, mas também Matemática. Quem tinha mais facilidade, ajudou aqueles com mais dificuldades, pois trabalhavam em grupo. O resultado foi que no final do ano escolar todos estavam aptos a passar de ano. Sair da zona de conforto, usar a criatividade, alinhar a teoria à prática e promover motivação nos meus alunos, foi uma experiência que não vou esquecer.

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As novas demandas para o professor do futuro

Estamos vivendo um cenário de  ruptura, no qual os problemas se apresentam de maneira cada vez mais complexa. Tal conjuntura exige o desenvolvimento de novas habilidades cognitivas e socioemocionais em nossos alunos, e em nós mesmos - professores. Essa é uma forma para conseguir ter uma visão mais ampla e solucionar os desafios. Por isso, surge a necessidade de ter profissionais que tenham outras competências para além de dominar o conhecimento de sua área de atuação.

A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) coloca nas 10 competências gerais que devem ser desenvolvidas pelos alunos durante toda a Educação Básica. A escola atual precisa de educadores que consigam promover um desenvolvimento cognitivo e socioemocional dos alunos, na perspectiva do desenvolvimento pleno como coloca o artigo 2 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).  No entanto, não tem como fazer isso se o próprio educador não estiver preparado.

Assim, professores e gestores necessitam desenvolver novas competências para que estejam aptos a desenvolver adequadamente as suas atividades no mundo atual. Para se adaptar ao ensino híbrido, por exemplo, é fundamental ter uma boa base socioemocional para se reinventar e desenvolver competências que integrem aquelas necessárias para o ensino presencial ancoradas à cultura digital.

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Dessa forma, surge o questionamento: como vamos formar os futuros professores para os novos tempos? Recentemente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou as diretrizes para a formação inicial e continuada do docente. Hoje falamos de aprendizagem ao longo da vida, acreditamos que ela deve estar inserida no projeto de vida do professor. 

O que o cenário atual tem a ver com as socioemocionais?

A pandemia não só escancarou a desigualdade educacional em nosso país, mas trouxe de vez o ensino híbrido. Não podemos mais ignorar a necessidade da Educação incorporar as novas tecnologias. Por isso, os professores precisam estar preparados para essa nova forma de ensinar. 

Ser criativo é apenas uma das habilidades que podem ajudar os educadores a se reinventar. Ter abertura ao novo (que se desdobra em curiosidade para aprender, imaginação criativa e interesse artístico), consciência ou autogestão (determinação, organização, foco, persistência e responsabilidade), extroversão ou engajamento com os outros (iniciativa social, assertividade e entusiasmo), amabilidade (empatia, respeito e confiança) e estabilidade ou resiliência emocional (tolerância ao estresse, autoconfiança e tolerância à frustração) são competências socioemocionais fundamentais para dar conta de problemas cada vez mais complexos como os que encontramos hoje.


A sala de aula não pode mais ser aquela tradicional: professores em frente da lousa e alunos enfileirados. A escola precisa se reinventar. Enquanto no passado, o educador era o centro, agora precisamos colocar o aluno como protagonista do processo. O professor é o meio para que ele consiga se desenvolver. 

Uma pergunta que me fazem é: o ensino híbrido vai substituir o professor? Claro que não, ele continua sendo essencial para todo o processo de ensino-aprendizagem. No entanto, o educador precisa se reinventar e exercitar em si as habilidades essenciais para o século 21 para assim conseguir promover o  desenvolvimento pleno dos alunos e superar os desafios impostos pela pandemia do covid-19.

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