Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Escrita espontânea na alfabetização: o que significa e como aplicá-la

Ela permeia todo o processo de aprendizagem do sistema de escrita alfabético e compreendê-la pode ajudar a qualificar práticas dos professores nos Anos Iniciais

POR:
Mara Mansani
garota com lápis na mão com expressão pensativa
Foto: Getty Image

Escrita espontânea na alfabetização? O que isso significa? Sim, pode parecer simples, mas essa é dúvida de muitos de nós, professores e professoras! Conhecer mais sobre esse processo pode qualificar o planejamento de boas práticas na alfabetização e, consequentemente, a aprendizagem das crianças. Isso porque a escrita espontânea é parte de todo o processo de aprendizagem nesse período escolar, que começa no contexto familiar, passa pela Educação Infantil e segue pelos Anos Iniciais... ou seja, por todo o processo de compreensão do sistema de escrita alfabético.

Definição do termo
Confira a definição de escrita espontânea segundo a definição do Glossário do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG):

“Considerando que nosso sistema de escrita é alfabético, a escrita espontânea pode ser compreendida como toda a produção gráfica da criança que se encontra em processo de compreensão do princípio alfabético, mesmo quando ainda não domina este princípio. O espontâneo designa essa possibilidade de escrever mais livremente, sem restrições e preocupações em errar, seja na escola ou em situações cotidianas. Nas pesquisas que tomam o desenvolvimento da aquisição da língua escrita pela criança como objeto de investigação, ela é considerada uma importante atividade, por desencadear e revelar processos de reflexão do aprendiz – uma vez que, para escrever, é necessário que pense nas características gráficas e produza indagações sobre como grafemas (letras) representam os fonemas (sons) da palavra a ser escrita.”

Mas como desencadear esse processo de reflexão do aluno quando propomos atividades que não exploram a escrita espontânea e que são baseadas em cópias ou em atividades “mecânicas”, de memorização, que não fazem o menor sentido?

Lições e aprendizados da luta para alfabetizar na pandemia

Para quem é útil: Turmas do Ensino Fundamental 1
Qual o objetivo: Entender como aplicar ideias consagradas sobre o ensino da língua escrita em uma situação de ensino remoto, com poucos recursos e escassa interação entre professores e alunos.
Habilidade da BNCC: EF12LP01, EF01LP08, EF01LP16, EF01LP18, EF01LP19

Ao propor atividades na rotina das crianças que explorem a escrita espontânea, nós oportunizamos que elas levantem hipóteses sobre sua escrita e para isso elas precisam mobilizar seus conhecimentos, tudo o que sabem sobre o funcionamento do sistema de escrita. E é sem se preocupar com o erro, nas hipóteses, confrontos de ideias e contradições durante as escritas que as crianças vão se desenvolvendo na compreensão do sistema alfabético, rumo à alfabetização.

Desmitificando o que é a escrita espontânea
É preciso desmistificar em nossa prática pedagógica que a escrita espontânea é “a vontade”, “largada” ou que não requer a mediação e intervenção do alfabetizador, pois a criança deve ser livre em sua escrita, sem interferências. Não é bem assim. É preciso a intervenção dos professores, com boas perguntas que levem a criança a confrontar as hipóteses levantadas em sua escrita, com a comparação com as escritas de seus pares em sala de aula e com modelos de escrita convencionais.

Essa intervenção não é o “corrigir as palavras erradas”, mas compreender os “erros” como caminhos nessa construção e entendimento da base alfabética e então propor mais atividades desafiadoras para o aluno ter  outras oportunidades de uso da escrita.

Em sala de aula, costumo dizer que tudo é motivo para a escrita espontânea. Por exemplo, no início do ano letivo costumamos fazer os combinados da turma para uma boa convivência em sala de aula, ao invés de pregar na parede um cartaz impresso pronto, copiado de algum site, proponha que as crianças, em grupos ou duplas, escrevam esses combinados. Bilhetes para as famílias tão usados nas escolas, alguns deles como chamados para reuniões, podem render boas situações de escritas para as crianças, assim como as listas também tão presentes em várias ações em nosso dia a dia.

Plano de aula: Escrita espontânea

Confira uma sugestão de atividade, que pode ser adaptada para o ensino remoto, para trabalhar escritas espontâneas com seus alunos. 
Habilidades da BNCCEF01LP02 EF01LP03 EF01LP05 EFO1LP07

Como eu disse, tudo é motivo para escrever e nada melhor que usar situações reais do nosso dia a dia, dentro e fora da escola, para explorar essas atividades de escrita espontânea. Assim há mais reflexão e aprendizagem!

Como ficam as intervenções nas sondagens e avaliações diagnósticas?
Você pode estar se perguntando: mas e nas sondagens, avaliações diagnósticas na alfabetização, faço interferências na escrita? Isso não pode “mascarar” os resultados? Nas sondagens também utilizamos situações de escritas espontâneas e é importante não fazer intervenções que possam comprometer nossa avaliação, mas com boas perguntas podemos compreender o que a criança está pensando a respeito da escrita.

Mas é bem interessante propor também, em outro momento, escritas no formato de sondagens individuais, em que as escritas espontâneas sejam bem exploradas pelo professor e que levem a criança a ser desafiada em suas produções e reflexões. Tudo isso com muita intencionalidade pedagógica!

E você, alfabetizador e alfabetizadora, como entende e planeja em sua rotina as escritas espontâneas com sua turma? Conte aqui nos comentários!

Um grande abraço e até a próxima,

Mara

Mara Mansani é professora há quase 30 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.

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