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Ensino híbrido: conheça boas práticas de escolas públicas

Professores compartilham como planejaram e executaram suas aulas dentro da realidade de suas turmas e com as barreiras tecnológicas

POR:
Ana Paula Bimbati
Crédito: Getty Images

Se Capitu, personagem do livro Dom Casmurro, tivesse Spotify, como seria a playlist dela? Esse foi o desafio que a professora Naiara Chaves de Carvalho, do Colégio Estadual Rui Barbosa, em Boninal (BA), disparou para os seus alunos do Ensino Médio na aula de literatura. Com roteiro de leitura nas mãos, os adolescentes levaram a obra para casa, seguiram o documento e, no retorno para a escola, criaram suas playlists e, em grupo, justificaram suas escolhas.

“Precisava seduzir minha turma para que eles sentissem vontade de ler os clássicos literários”, explica Naiara. A proposta foi baseada no modelo de sala de aula invertida, em que há inversão das tarefas que geralmente acontecem em casa e na escola: o espaço da lição de casa é substituído pelo estudo do tema, e a aula é dedicada para explorar atividades e dúvidas. No material levado para casa, além do livro, a professora reuniu questões que norteariam a leitura e a ajudariam a entender como cada aluno estava em relação à interpretação do texto, materiais de apoio para ajudar a entender a linguagem do livro, contexto da obra e indicações de produções audiovisuais que foram inspiradas nos clássicos.

O modelo da sala de aula invertida não é novidade para Naiara. Agora, ela aposta que deve ser essencial para o retorno presencial das aulas. “Acredito que é o caminho possível para continuar garantindo a aprendizagem e a equidade de Educação. Quando a gente considera os dois espaços, da escola e da casa, só temos a ganhar.”

Como planejar atividades considerando o ensino híbrido?

O maior ponto de atenção é o planejamento da integração entre cada atividade, indica Leandro Holanda, diretor da Tríade Educacional. “É preciso ter em mente o quanto eu consigo integrar os recursos e objetivos da aula sem sobrepor ou repetir informações”, explica. Na sala de aula invertida, por exemplo, a sugestão de Leandro é que o professor considere os materiais usados em cada um dos momentos que serão realizados os estudos e as atividades: o fora da escola, em um espaço que o estudante achar adequado para realizar a tarefa dada; e o outro dentro da escola, durante as aulas.

Naiara indica também que os professores pensem em como farão a “amarração” de toda essa aula. “Quando eles retornavam de suas casas com a leitura feita dos clássicos, eu fazia um trabalho de rotação por estações”, exemplifica. “Assim, tinha um espaço para debate, outro para construção de mapas mentais e outro para discutir sobre a linguagem literária.” Ela também sugere a construção de atividades relacionadas com os gostos e interesses dos alunos. “Para os alunos que gostam mais de Instagram, por exemplo, na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas eu os desafiei a criarem uma conta na rede social e pensar: como o personagem teria narrado sua morte?”, relembra.

Como selecionar e trabalhar com os modelos?

Há muitas dúvidas sobre qual tipo de aula pode funcionar melhor para cada escola, turma ou conteúdo. Muitos defendem que os modelos sustentados, como sala de aula invertida e rotação por estações, podem se encaixar melhor na realidade da escola pública. 

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O espaço físico da sala de aula também entra no planejamento didático. “A ideia da rotação por estações, por exemplo, não é que o aluno fique apenas andando pela sala fazendo atividade”, explica o professor doutor do departamento de Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em ensino híbrido, Adolfo Tanzi Neto. “A proposta é de que ele e o grupo criem um espaço de troca, aprendam com o outro e desenvolvam até mesmo as relações interpessoais.”

Por fim, não pode faltar prever ações para a sistematização e a coleta dos dados. É a partir dessas informações que os docentes poderão garantir a personalização do ensino, uma das principais características do ensino híbrido.

Boas práticas para se inspirar

Para o professor de História Ailton Luiz Camargo, da Escola Municipal Zilma Thibes Mello, em Iperó (SP), para dar início à mudança de uma aula mais convencional para híbrida é preciso se permitir testar. “Não importa se o primeiro passo é fazer apenas duas estações ou não ter tecnologia em uma delas. Podemos, a partir disso, pegar o feedback da turma e fazer uma autoavaliação. É importante perceber que não é algo complexo como parece”, pontua. Ele ressalta ainda que a qualidade vem com o tempo, com a prática, conforme o docente permite testar aulas, recursos e estratégias didáticas para ensinar conteúdos de sua disciplina.

Exercer a escuta ativa e coletar as impressões dos alunos, por exemplo, é uma boa prática que deve estar inserida na rotina. “O aluno motivado e engajado aprende mais e é com o feedback que vamos aperfeiçoando esse trabalho”, diz Ailton. “É difícil atingir 100% da sala de aula. Por isso, é importante diversificar sempre, porque na próxima aula você atinge outros alunos.”

A professora Naiara faz várias conversas ao longo do ano para entender o que está funcionando, conhecer os gostos dos estudantes e chegar em informações que a ajudem a construir suas aulas. “Isso apoia a elaboração de atividades que atendam a todos, com uma multiplicidade de linguagens, diversidade de textos, ferramentas e, incluindo também, as competências socioemocionais a partir do meu conhecimento da turma”, explica. Como o papel do professor se torna mediar a aprendizagem e o aluno assume uma postura mais ativa nesse percurso, é importante desenvolver competências, como a autogestão, para que eles possam ter autonomia e engajamento com as propostas.

O que é o Modelo Virtual Aprimorado?

As disciplinas são ofertadas de forma on-line. Quando o aluno está na escola, o objetivo é realizar projetos, debates e discutir o que foi estudado on-line. Clicando aqui você se inscreve para acompanhar o curso sobre Modelo Virtual Aprimorado da Trilha de ensino híbrido de NOVA ESCOLA. Nele, você vai entender como aplicar o modelo com exemplos reais e baseado na experiência de professores de escolas públicas.

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Como vencer a dificuldade de acesso às ferramentas digitais?

Ailton encara uma realidade bastante comum nas escolas públicas: falta de recursos tecnológicos ou de bons materiais para toda a turma. Por isso, a principal dica que ele dá é que o professor busque materiais simples. “Às vezes, a atividade vai ser um documento do Word, que você vai distribuir por pen drives para os alunos responderem em casa ou no seu computador pessoal”, conta.

Em uma das vezes que se viu com poucas ferramentas digitais, Ailton decidiu inovar. O tema da aula eram as reformas religiosas e a proposta, falar sobre o que Martinho Lutero criticava na Igreja. “Montei uma rotação com três estações. A primeira era a própria porta da sala de aula e tinha a ideia de trazer o debate de Lutero ter colocado as teses na porta da Igreja”, relembra o professor. “Depois, fiz uma estação com um texto que criticava a venda de santos e peguei alguns santinhos da minha mãe para ilustrar. Por último, deixei meu computador rodando um trecho do filme Lutero”, relembra.

No início das rotações, cada aluno ficou com uma folha que havia perguntas a serem respondidas. Como essa etapa não foi feita on-line, o trabalho do professor para a coleta dessas informações foi um pouco mais extenso por ter sido manual.

Outra sugestão é trabalhar com jogos de tabuleiro. Em um modelo de sala de aula invertida, por exemplo, Ailton indica que os professores imprimam tabuleiros em folhas sulfite (pode ser em preto e branco mesmo) de jogos que exijam conhecimento do tema a ser discutido para jogar. Então, para se preparar para o jogo em aula, os alunos têm materiais de estudo que devem ser lidos em casa. “O professor pode seguir por uma linha muito simples de recursos fáceis de ser encontrados. No caso de História, por exemplo, pode-se usar tanto documentos históricos quanto jornais da cidade, notícias da noite anterior. Tudo isso se transforma em recurso dentro da aula”, destaca o professor.

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LIVROS

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