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Tita e Lola

O conto de Bel Assunção usa a figura de cachorrinhos para falar sobre solidão e amizade

POR:
Bel Assunção Azevedo
Tita e Lola. Ilustração: Anna Cunha

Tita era uma cachorrinha muito querida e mimada, mas que vivia sozinha o dia inteiro, a coitada.
É que seus donos passavam muitas horas trabalhando e Tita, sem outra escolha, ficava sempre esperando.
As horas passavam lentas, quase nada acontecia, os segundos se arrastavam, Tita acordava e dormia.
E quando chegava à noite era uma festa sem fim! Tita recebia os donos tremendo feito um pudim!
Mas de manhã, no outro dia, logo vinha a solidão... Os seus olhos perseguindo os donos pelo portão...
Numa tarde bem chuvosa, de repente uma surpresa! Trouxeram um novo cãozinho:
- Venha ver, minha princesa!
Só que a Tita não gostou nem um pouco do que viu, nem daquilo que cheirou, nem daquilo que sentiu.
Latindo forte e rosnando, mirando bem no nariz, veio logo abocanhando e não pegou por um triz!
E foi assim que a Tita conheceu o cão estranho. Descobriu que era uma fêmea e precisava de um banho!
Ela se chamava Lola e ainda era um bebê! A Tita quebrou a cuca sem saber o que fazer...
Porque a Lola aprontava uma enorme confusão! E sempre que ela chegava Tita perdia seu chão.
Lola roubava a bola, cheia de baba e sujeira, e jogava na comida, numa baita melequeira!
Esburacava o pijama, se enrolava numa fita, roubava o lugar na cama, pisando em cima de Tita!
Destruía as almofadas, roía os móveis sem dó, fuçava o lixo de noite, causando um bom quiproquó!
E se a Tita reclamava, levava logo uma bronca. - Ela ainda é um bebê! Fica quieta e não apronta!
Tita ficou magoada, quis ir embora e sumir, mas percebeu, amuada, que não tinha pra onde ir...
Numa noite bem escura, começou a trovoar. Tita, que era madura, não era boba de ligar!
Mas a Lola inocente, vendo o mundo naufragar, sentiu medo e de repente começou a soluçar.
Era um choro amedrontado de cortar o coração. Tita, antes magoada, sentiu pena e aflição.
Com a garganta apertada e uma secura na boca, sem saber o que fazer pôs-se a uivar meio rouca.
Lola ficou em silêncio, respirando sem parar, mas logo sentiu o apelo e junto pôs-se a uivar.
Cantaram por muito tempo, cada qual com sua voz, diluindo no tormento o medo triste e feroz.
Procurando por carinho a Lola veio chegando. Foi de leve e de mansinho, na Tita se aconchegando.
E a Tita disfarçou. Fingiu que não estava vendo... Fez ar de quem não ligou, que não estava percebendo...
Mas, a partir deste dia, veja só como é a vida: Tita tinha companhia! Lola ganhou uma amiga!
E não pense que por isso acabou a confusão. Às vezes, Tita acordava com humor de furacão!
E se a pequena insistia depressa a Tita rosnava! E, se a Lola bobeava, quase, quase que pegava!
E eram as duas ganindo, dividindo a solidão, ambas com os olhos seguindo os donos pelo portão...
Mas, mal os donos sumiam, já começava a folia: Lola e Tita viviam brincando com alegria!
Porque a vida é assim, às vezes tem solidão, sem ninguém pra dividir nossa dor no coração...
Mas não vá desanimar! Ouça bem uma verdade: saiba que tudo melhora com uma boa amizade!

Sobre a autora

Bel Assunção Azevedo, autora deste conto, é formada em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e trabalha realizando pesquisas nessa área. Este é seu primeiro texto publicado.

 

 

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