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Experiências docentes durante as férias

O entendimento por trás do conceito de “experiência”, presente inclusive na BNCC da Educação Infantil, abrange os educadores no período de descanso

POR:
Evandro Tortora
senhora tocando teclado em casa
Foto: Getty Image

Primeiramente, feliz ano novo, professoras e professores! É um prazer estarmos juntos partilhando conhecimentos trocando ideias por mais este ano. Esse é nosso primeiro texto em 2021 e queria desejar-lhes um ano muito melhor do que foi 2020. Muita coisa aconteceu conosco no ano passado e 2021 será um ano em que as aprendizagens de 2020 influenciarão muito nossos planejamentos e ações futuras com as crianças.

Até lá, podemos curtir esse momento em que muitos de nós estão de férias. Para nós, esse período coincide com o primeiro mês do ano, época em que se renovam as nossas esperanças e que o clima de novidade toma conta, não é mesmo? É um tempo que nos convida a possibilidades de viver novas experiências.

Mas, afinal, o que seria uma “experiência”? Nós, docentes da Educação Infantil, ouvimos esta palavra muitas vezes! Ela está presente em vários documentos oficiais, sendo um dos mais recentes a própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ao sugerir a organização do trabalho pedagógico por meio dos Campos de Experiência.

Considero fundamental o entendimento sobre o que é experiência , não somente para o nosso trabalho com as crianças, mas inclusive para nossa vida pessoal. Afinal, experiências não acontecem apenas crianças, mas com todo nós, seres humanos.

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É importante considerar que as experiências são constituidoras dos sujeitos que as vivem, logo, as experiências influenciam na nossa formação como professores e professoras. Essa ideia fica evidente quando pensamos nas muitas experiências que tivemos e que influenciam nossa prática com as crianças. Quem nunca teve uma memória da infância que culminou numa experiência agradável e quis replicá-la com os pequenos? Ou ainda, há aquelas experiências ruins que não desejamos às nossas crianças.

Jorge Larossa, professor de Filosofia da Educação na Universidade de Barcelona, na Espanha, e autor de várias publicações sobre Educação, é um dos autores que fala da ideia da experiência atrelada a vida dos seres humanos. Destaco aqui seu texto “Notas sobre a experiência e o saber de experiência” (2002), no qual ele diz que:

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça.  Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.”

Um mesmo acontecimento pode gerar múltiplas experiências para os diferentes sujeitos que às vivenciam. Falando das crianças, por exemplo, lembram das crianças que nunca foram para um parque de areia? Enquanto algumas pisam nas pontas dos pés, parecendo ter uma certa aflição da areia passando entre seus dedos dos pés, outras chegam a rolar pelo parque!

Para o autor, a experiência não é o acontecimento em si, mas resultado da nossa vivência naquele momento e como somos afetados por ela. Acho estranho quando vejo algumas propagandas dizendo “viva esta experiência”, “venha participar desta experiência” ou “invista nessa experiência”. Nesta concepção, a experiência é singular e acontece com o sujeito que vive o momento e não pode ser comprada. Está distante da ideia de que a experiência acontece com quem pode comprá-la ou como se fosse exclusiva àqueles que podem adquirir produtos específicos. Nesse mesmo sentido, gostaria de trazer esses entendimentos sobre a experiência para nossa vida pessoal. Podemos nos inspirar nele e refletir sobre as nossas experiências, inclusive nesse período de férias, em que nos acontecem situações que estão além dos muros das escolas.

As nossas experiências pessoais
Durante todo ano de 2020 me vi planejando participar do dia a dia das crianças, planejando vivências em que pudessem partilhar experiências ocasionadas em casa junto das crianças. Pensando nisso, lá em dezembro, enquanto o ano letivo estava terminando, ficava pensando em quais experiências poderiam me acontecer nas férias de janeiro, longe das preocupações com planejamentos semanais ou outras atribuições que vem da nossa profissão, porém estando em casa.

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De certo, seguindo os protocolos de segurança, já podemos pensar em viver momentos fora de casa e que sugerem experiências únicas, como visitar um museu ou até fazer uma trilha em meio à natureza. Porém, estando em casa, acredito ser possível pensar em vivencias novas e que nos marquem pelas experiências diferentes.

Janeiro sugere que possamos começar a escrever novas histórias e pensar no novo. Este é um momento em que muitos de nós alimentamos esperança em tempos melhores. Sempre pensamos em fazer algo que já gostamos, mas podemos descobrir coisas novas e descobrir outras boas por trás da diversidade de vivências que o mundo nos sugere, como cozinhar algo novo, fazer artesanato, ler um livro totalmente diferente daqueles que costumamos ler,  iniciar uma atividade física, fazer uma horta em casa ou cultivar os próprios temperos, assistir a um filme ou série diferente, iniciar um curso novo... É sempre tempo para resgatar planos antigos e pensar nas experiências que lhe podem acontecer.

Contudo, não se trata de superlotar seus dias com infinitos afazeres. Afinal, as férias não precisam ser ocupadas em todos os seus minutos com atividades diversas. Dê preferência à qualidade das suas vivências! Inclusive, se conseguir, se dê o presente para não fazer nada. Apenas sentar e olhar para o céu, sentir o vento no rosto, deitar no quintal de casa ou fazer qualquer coisa que não tenha propósito para isso. Isso me faz tão bem e é uma experiência relaxante :).

Pensando na experiência, ela é singular e o tempo dela é diferente do “tempo do relógio”. Dedique o tempo que sua experiência precisa para que ela lhe seja algo agradável, afinal estamos em férias e isso é fundamental, não é?

Além disso, convide quem você ama para partilhar destes momentos contigo! Longe dos shoppings, das telas ou de outras situações para que se aproximem por meio de diferentes momentos vividos juntos! Desejo-lhes ótimas experiências e que suas férias sejam realmente uma experiência incrível e memorável.

Um abraço carinhoso e até breve,

Evandro

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

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