Como equilibrar as competências socioemocionais e cognitivas na volta às aulas?

Entenda a importância do tema e confira experiências e ideias de educadores para o início do ano letivo

POR:
Ana Paula Bimbati
Crédito: Getty Images

Falar sobre lembranças e saudades deve ser o tema inicial das primeiras aulas da professora Eliana Fattori Calza, do 4º ano do Ensino Fundamental 1, da Escola Municipal Professor Luiz Pântano, em Itatiba (SP). A educadora tem planejado iniciar uma conversa com sua turma a partir da leitura do livro "A Colcha de Retalhos" para falar sobre os sentimentos e provocar um momento de escuta ativa entre os alunos. “Faremos juntos uma ‘colcha’ de folhas de sulfite [com lembranças e sentimentos do período em casa] e no fim do ano vamos olhar para esse trabalho para colocar mais lembranças e revisitar o que foi colocado”, conta. A atividade também propõe que ela trabalhe a fluência leitora de seus alunos por meio do trabalho com o livro.

Olhar para o aluno de forma integral, para além do conteúdo, respeitando suas vivências e experiências, como propõe a atividade da Eliana, é uma das propostas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “A gente precisa entender o aluno como um todo”, aponta Célia Senna, professora e formadora de professores da INovAÇÃO. Exemplos da importância da formação integral podem ser encontrados tanto a partir do olhar para os alunos quanto para as próprias experiências dos educadores. Célia, por exemplo, relembra que era uma das melhores alunas da sua turma, mas isso gerava uma dificuldade em trabalhar em equipe por achar que os outros alunos não estavam no mesmo nível. “Nenhum professor percebeu isso e tentou me ajudar. Como uma criança pode se desenvolver achando que é suficiente?”, questiona lembrando de suas experiências.

Depois de um ano como 2020, em um contexto pandêmico e de diferentes realidades, trabalhar o desenvolvimento das competências gerais da BNCC será essencial. “Ou esse retorno das aulas é socioemocional ou não é um retorno”, pondera Simone André, especialista em Educação. “Precisamos considerar quem é esse estudante, o contexto em que vive, como aprendeu e o que aprendeu neste período”.  

O papel e a importância das sociomocionais

Antes do início da pandemia, a BNCC já apontava a importância do desenvolvimento das competências socioemocionais. “O tipo de Educação necessária para a sociedade atual e para as demandas do século XXI requer o desenvolvimento de competências como colaboração, trabalho em equipe, empatia, autogestão, entre outras”, explica Simone. O documento, de acordo com a especialista, tem exatamente essa proposta: "ressignificar o propósito da Educação para que os alunos tenham clareza dos seus projetos de vida e estejam preparados para enfrentar seus projetos de futuro”. Por isso, Célia afirma que o papel das socioemocionais na escola é estratégico. “Se não tenho esse olhar enquanto docente, vou prejudicar o desenvolvimento dos meus estudantes”.

3 ideias para refletir sobre as socioemocionais 

Como algo novo dentro da escola, ainda há diversas dúvidas sobre como tirar a proposta do papel e levar para os alunos. Veja como fugir dos erros mais comuns

1. Socioemocionais não é um componente curricular
No início das discussões sobre as habilidades socioemocionais, muitas redes e escolas falaram sobre a criação de um horário na grade curricular para trabalhá-las com os alunos. “Isso é impossível de acontecer, porque a competência deve ser desenvolvida no contexto escolar e de forma harmônica”, afirma Célia. “Não posso falar para os alunos ‘hoje vamos ter uma aula sobre o que é empatia’, mas posso perceber que não há empatia entre eles e encontrar uma atividade dentro do tema que estamos trabalhando e que facilite o desenvolvimento dela”, exemplifica.

2. Expor sem intencionalidade pedagógica não ajuda
Você já viu algum mural de expressões ou pulseira das emoções? Há muitos materiais sendo desenvolvidos para esse fim, mas que, segundo Célia, não colaboram para o trabalho com os alunos. “Tudo que expõe o aluno não é legal. Se você está triste vai querer usar uma pulseira? É diferente de perguntar ‘você prefere não conversar hoje comigo porque está triste?’”, explica. Esse é um movimento que relembra a exposição das notas dos alunos em murais das escolas, segundo a formadora.

3. Socioemocionais não se ensina, se desenvolve
Pense em uma situação bastante comum nas escolas: dois alunos brigam e um adulto (professor ou diretor) fala: “vocês são amigos, é tão feio ficarem brigados, façam as pazes”. Esse tipo de fala, segundo Célia, assim como não ajuda a resolver os problemas entre os adultos na situação hipotética, não desenvolve a empatia do estudante. Por isso, a formadora explica que a escola deve pensar em desenvolver as competências e não ensiná-las. “Questione: o que motivou a briga? Foi algo fora do inesperado? Qual o contexto desse aluno? E trabalhe em cima disso com os estudantes”.   


Sugestões de atividades e dicas para retomada das aulas

Depois de entender a importância das competências e pontos que devem ser construídos, é hora de saber como colocamos em prática já no início do ano letivo. Em paralelo com o diagnóstico e aprendizagens previstas para o 4º ano, além da “colcha de retalhos”, a professora Eliana planeja abordar nas conversas das primeiras semanas as preferências dos alunos, coisas que eles gostam e não gostam de fazer, para também ter um diagnóstico mais profundo da turma. “Não vai ser fácil, porque serão crianças que ainda não conheço. Então o acolhimento será essencial”.

Curso gratuito das competências gerais da BNCC

Aprofunde seus conhecimentos sobre as competências gerais apresentadas no Capítulo Introdutório da Base Nacional Comum Curricular, entenda como o planejamento de práticas pedagógicas promovem o desenvolvimento delas ao longo da Educação Básica. 


Célia sugere também que os professores comecem com uma atividade abordando as emoções positivas. “Dá para fazer um mural de sonhos com nuvens ou balões dos sonhos, em que os alunos podem escrever qual foi a melhor coisa que aconteceu nesse período e o que aprenderam”, explica. Mesmo tendo muitas histórias tristes de um período de pandemia, a formadora pondera que os alunos terão histórias diferentes e não dá para fazer apenas da tristeza o foco. “Aos poucos vamos falando sobre ‘o que foi chato nesse período? O que você mudaria?’, e isso dá para o professor um material rico para trabalhar ao longo do ano”.

Você pode sugerir aos alunos que façam desenhos ou frases, qualquer registro é muito válido. “E isso não faz entender que o ano não foi perdido, o conteúdo é a coisa mais fácil de recuperar. O que perdemos nesse período foram vidas”, pontua Célia. Ela indica também que coordenadores pedagógicos façam primeiro com seus professores e, assim, eles consigam aplicar com os estudantes.

Já no Fundamental 2 e no Ensino Médio, a professora Gisele Antonieta Santos, da Escola Estadual Henrique da Silva Fontes, em Itajaí (SC), investe nas rodas de conversa nas primeiras semanas. “Falo sobre minhas expectativas, me coloco como alguém que pode auxiliar nesse processo, mas deixo sempre muito aberto para saber o que eles têm a dizer”, conta. A especialista Simone concorda em adotar o caminho da escuta ativa. “É nesse momento em que os estudantes podem dar significado ao que eles viveram. Todo mundo viveu coisas que têm dificuldade em dar sentido e esse exercício entre os alunos vai ser importante”. A dica de Gisele para esses momentos é anotar qualquer percepção e observação, já que nas pequenas falas é possível perceber alguns perfis e pensar em novas atividades.

Para ter em mente no planejamento

- Planeje sempre! Planejar não significa ter uma atividade engessada, mas ter algo preparado para os alunos e que pode sofrer alterações para o melhor aproveitamento da sala;
- Uma atividade que tem a intencionalidade de desenvolver uma competência socioemocional requer vivência e experiência. Por isso, na hora de desenvolver colaboração, por exemplo, proponha situações concretas de colaboração;
- Além de identificar uma competência, o aluno precisa reconhecer a vivência em sua realidade e fazer pontes com a sua vida.


Para levar para os próximos meses

As socioemocionais, presentes na BNCC como competências gerais, são uma das colunas da Base, por isso, devem ser contempladas ao longo de todo o ano letivo e não só num momento mais sensível como o cenário em que vivemos devido à pandemia. Pensando nisso, a professora Gisele sempre parte de atividades que estão conectadas com a vida prática do aluno. Um de seus projetos é a “conversa fiada”, em que ela leva os alunos a conversarem sobre histórias relacionadas a cidades que já visitaram ou conhecem. Como professora de Geografia ela trabalha temas como imigração e mapas por meio dessas conversas. “Conto sobre minha saída de Minas Gerais, como é o estado, suas mudanças, porque decidi me mudar e aproximo eles desse tema, porque estou falando de uma vivência pessoal que muitos reconhecem”, explica. Como na sala há estudantes de outros lugares do Brasil e do mundo, a conversa se torna ainda mais rica. “A gente desenvolve a questão da comunicação, empatia dos imigrantes e até mesmo de colaboração” .

Já a professora Eliana, com a sua turma do Fundamental 1, trabalha com livros literários e um deles é o “As travessuras do Amarelo”. “Com a leitura, consigo trabalhar a fluência leitora dos meus alunos e promover uma experiência de responsabilidade sobre organização. A partir do livro, a gente trabalha o planejamento do dia e da semana”, explica. Ela leva os alunos a desenharem seus quartos desorganizados e depois propõe um novo desenho em que ele está organizado. Assim, o tema da autogestão é trabalhado tanto numa perspectiva da escola quanto de casa. “É sempre uma experiência rica e que eles levam para a vida”.

Como a colaboração entre disciplinas pode ser uma boa estratégiao

Projetos interdisciplinares podem ajudar no desenvolvimento de competências sociomocionais e estimular o aprofundamento dos alunos sobre problemas complexos como a própria covid-19

Outro caminho indicado pela formadora Célia é no trabalho com projetos, em que o professor pode dar uma função para cada aluno e depois trocar ao longo do trabalho. “Isso ajuda a desenvolver o trabalho em equipe e o senso de responsabilidade”, aponta. Ela também sugere que uma criança fique responsável a cada semana ou mês pelo registro na agenda sobre a aula ou momentos da turma. Além do professor observar a escrita, vai ajudar no desenvolvimento da autonomia.