Como preparar as atividades dos primeiros dias de aula

Uma retomada das aulas em plena pandemia fortalece necessidade de que as atividades iniciais do ano considerem o acolhimento da comunidade escolar e estimulem o diálogo

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

Um tapete vermelho aguarda os alunos do Ensino Médio na Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues, em São Paulo (SP). No primeiro dia de aula, os estudantes atravessarão o portão até o pátio ao som da banda da escola, enquanto as paredes exibirão frases aspiracionais para um novo ano letivo que se inicia em pandemia. Por isso, tudo está sendo planejado para respeitar os protocolos sanitários nesta retomada das aulas em 2021.

Em outubro de 2020, a escola recebeu uma parcela dos alunos com um tapete verde. Em
2021, essa experiência será realizada novamente na retomada das aulas. Crédito: Acervo pessoal/Reprodução

Além da festa da recepção, estão previstas atividades em grupos liderados por um jovem acolhedor (um estudante que se destaca e recebe uma formação para fazer a recepção dos colegas). Nos primeiros dias, os grupos têm momentos de debate e dinâmicas que visam apresentar a escola e sua proposta pedagógica, conversar sobre a experiência e desafios de uma instituição de ensino de tempo integral e estimular a troca e integração entre os alunos. "É um momento de se sentir pertencente à escola", explica o diretor Osmar Carvalho.

A elaboração do varal dos sonhos, em que os estudantes compilam em um quadro seus desejos para o próximo ano, é uma das dinâmicas tradicionais da recepção na instituição e não ficará de fora da programação de 2021. Os registros dos sonhos são guardado para serem aprofundados ao longo do Ensino Médio durante as atividades da disciplina Projeto de Vida. "O projeto de vida nasce a partir do acolhimento. No fim dos três anos, o aluno retoma tudo que foi construído e descoberto para montar um trabalho de conclusão", conta Osmar.

No último dia da programação de acolhimento, cada grupo recebe o desafio de explicar o que entendeu das iniciativas. O formato é livre: eles podem escolher montar uma cena de teatro ou fazer uma paródia, por exemplo. Essa experiência é vivida por todos os alunos, novos ou veteranos, professores e funcionários. Neste ano, a atividade foi adaptada para atender também quem estiver de forma remota: a experiência no ambiente virtual contará com a liderança de um aluno acolhedor para executar as dinâmicas previstas. "Vamos manter o padrão e teremos as mesmas ações que no presencial. Caso contrário, criaria dois mundos muito distantes", afirma Osmar. Em um cenário comum, todas as atividades da recepção dos alunos duram 3 dias. Com o escalonamento para respeitar os protocolos sanitários devido à pandemia da covid-19, a expectativa é que este momento inicial ocupe toda a primeira semana de aulas.

Planejar as atividades em meio às incertezas

Como muitos gestores escolares, o diretor Osmar já voltou do recesso e está trabalhando no planejamento para o novo ano letivo. Mas, mesmo para aqueles que ainda não tem previsão de quando as aulas irão começar, a expectativa é de que o foco dos primeiros dias seja o emocional das crianças. "Eles vão querer falar, vai ter alguém que teve covid ou perdeu familiar. Vamos ter que fazer um acolhimento das emoções", diz Ingrid Antunes, professora do 1º ano na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Professor Moacyr Pinto Santiago, em Pariquera-Açu (SP).

Para pensar neste início do ano, ela relembra seu planejamento para os primeiros dias de aula de 2020. A turma assistiu Emoji: O Filme e fizeram brincadeiras envolvendo as emoções, expressões faciais e emojis. "Planejei pensando que eles pudessem entender que era normal sentirem emoções como o medo [de se separarem dos pais e irem para a escola]. Muitos ainda choram. É uma forma de fazer eles se sentirem à vontade", explica Ingrid. Algumas dessas propostas, no ano passado, envolviam a interação e o contato físico, por isso, para este ano precisariam ser repensadas. Uma alternativa que ela vê é trabalhar com espelhos, para que eles percebam que mesmo quando eles estão de máscara, ainda é possível perceber suas expressões faciais. "Pensei em brincadeiras corporais, usando gestos e mímicas para que eles descubram o que estão querendo falar", sugere a educadora para problematizar com as crianças os desafios de comunicação e expressão usando máscara.

Como professora do 1º ano, Ingrid também se preocupa que o planejamento considere a transição entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental. Como a escola atua com as duas etapas de ensino e muitos alunos se mantém de um ano para o outro, a passagem de bastão é tranquila, ainda mais porque Ingrid costuma trabalhar muito próximo com as professoras do ano anterior ao seu. "Com isso, as crianças e as famílias já me conhecem quando chegam na minha sala. Estão acostumados comigo. É um processo que facilita o trabalho". Mesmo para os professores que não desenvolveram essa parceria em 2020, ela sugere que procurem quem esteve com a turma no ano anterior para entender o que estava sendo trabalho e o que foi possível atingir, como um ponto de partida para planejar as atividades dos primeiros dias e até como material de apoio para o primeiro bimestre.

Uma das preocupações é com a adaptação dos alunos ao espaço, regras e dinâmicas rotineiras que mudam do Infantil para o Fundamental, como, por exemplo, a ida ao banheiro – que segundo Ingrid é uma preocupação compartilhada com as famílias, já que seus alunos são os mais novos e é um espaço compartilhado com alunos até o 5º ano. "Antes, o banheiro era na sala, então eles levantavam e iam. Agora, eles precisam entender que não dá para ser assim, que precisa avisar antes de sair da sala", compartilha Ingrid. Por isso, já nos primeiros dias de aula, os combinados dos horários de ir ao banheiro são combinados.

Além do estabelecimento da nova rotina, ela prevê que o planejamento da retomada inclua exercícios e conversas sobre os protocolos sanitários com as crianças. Ingrid imagina que seja possível pensar em brincadeiras que simulem momentos na escola em que será necessário seguir os protocolos como uma forma de explicar o que devem se portar. "Escola não é treinamento, mas vai ter que ensiná-los a garantir a segurança deles de uma forma mais lúdica", afirma.

No início do ano, ela diz que o foco das atividades não será a escrita, que isso virá em um segundo momento – junto com o diagnóstico. "Agora mais do que nunca, o foco é o acolhimento, as emoções e o comportamental [ensinar para os alunos os protocolos de segurança]". Ela prevê que esse trabalho de acolhimento e adaptação vá durar, pelo menos, o primeiro mês de aula considerando o escalonamento dos alunos. Em seguida, será realizado o diagnóstico e as atividades dos conteúdos curriculares.

Já na escola de Ensino Médio, os alunos passarão pela sondagem de conteúdos para verificar as dificuldades já na segunda semana. A partir dos resultados do diagnóstico, eles passarão a ter em paralelo aos conteúdos curriculares, semanalmente, um momento de orientação de estados com base no Plano de Ação de Nivelamento (PAN), iniciativa para recuperar as aprendizagens em defasagem.

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As aulas da Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues serão no formato presencial com escalonamento. Os professores terão, em cada bimestre, dois guias de aprendizagem para basear o trabalho: um para o presencial e outro para o virtual, indicando o que pode ser ofertado em cada uma das modalidades. No material estarão previstas as habilidades prioritárias que precisam ser desenvolvidas nas atividades remotas. "Eles são pensados para garantir a qualidade do ensino e que não haja prejuízo para os alunos que não estejam no presencial", explica Osmar. Como aconteceu durante o ensino remoto, eles também contarão com as aulas do Centro de Mídia oferecidas pela Secretaria Estadual de São Paulo.

Os desafios dos pequenos na Educação Infantil

Na Escola Municipal de Educação Infantil Érico Veríssimo, em Porto Alegre (RS), os pequenos tiveram um retorno presencial em 2020 com número reduzido de presentes. Na turma da professora Denise de Oliveira, nenhuma criança voltou. Então, até o final do ano, ela manteve o envio de atividades por WhatsApp e os encontros virtuais semanais pelo Google Meets. Em 2021, o retorno presencial, com escalonamento, está previsto para o dia 22 de fevereiro.

Neste ano, Denise assumirá uma turma de bebês. Para planejar a organização do espaço e das atividades, serão feitas as entrevistas no início do próximo mês com as famílias para verificar quantos, dos 18 bebês matriculados, comparecerão pessoalmente na escola. Este levantamento será essencial para que ela preveja cenários (todas as famílias enviam os pequenos; apenas uma parte opta pelo retorno presencial; ou nenhum bebê inicia presencialmente em fevereiro) e dê início ao planejamento que exigirá um plano diferente de organização da sala e dos turnos de atendimento dependendo do número de presentes. Os brinquedos e materiais das salas da Educação Infantil, por exemplo, são organizados ao alcance dos pequenos. No entanto, se a volta for presencial será necessário retirar tudo das prateleiras e organizar kits semanais para cada bebê como forma de evitar o uso coletivo dos objetos e o contágio do coronavírus.

No planejamento de uma volta presencial, também seria necessário organizar os materiais conforme a proposta da semana e pensando na facilidade de higienização – os objetos de tecido, por exemplo, precisarão ser repensados neste momento. "Com os bebês tem que ter muito cuidado, porque eles colocam tudo na boca", explica Denise. "Não vai ter a escolha do que eles querem brincar. Eles vão ter que brincar com os materiais que organizamos para eles", explica a educadora.

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A adaptação dos bebês talvez seja a que mais sofrerá alterações, pois antes da pandemia era comum que todas as famílias participassem juntas dos primeiros dias na escola. No entanto, será preciso diminuir os agrupamentos para ter, no máximo, dois bebês com seus responsáveis a cada horário. Nesses primeiros dias, as professoras conhecem mais os hábitos do bebê, como ele come, como gosta de dormir e o que gosta de fazer. Também já serão disponibilizados os kits individuais higienizados para que possam brincar.

Em um contexto normal, este período de atividades de adaptação de um novo ano letivo dura por volta de um mês, mas Denise estima que, com o escalonamento, durará pelo o dobro do tempo. Só então serão planejadas outras atividades e brincadeiras com os pequenos. Para quem decidir ainda não começar as atividades presenciais ou quem estiver em casa seguindo o escalonamento, a professora diz que a previsão é continuar enviando por WhatsApp contação de histórias, vídeos, sugestões de brincadeiras e entregar na escola kits de atividades para serem realizadas em casa. Nesse momento também vale explicar a importância para as famílias da participação no grupo de WhatsApp para que, quando o bebê estiver em casa, eles façam, pelo menos uma vez por semana, as atividades e compartilhem com ela os resultados e registros para o acompanhamento e devolutivas docentes. 

O QUE NÃO PODE FALTAR NO INÍCIO DO ANO?

O ano de 2021 traz o desafio extra de se iniciar na pandemia. Veja qual deve ser o foco nos primeiros dias 

  1. Organizar um encontro, presencial ou remoto antes do início das aulas com as famílias para explicar como será o funcionamento das aulas. Veja aqui como fazer uma reunião de pais online ou presencial;
  2. Manter uma boa comunicação com as famílias e equipe escolar para o bom funcionamento das aulas dentro do modelo estabelecido, seja ele remoto, híbrido ou presencial. Fazer o monitoramento dos combinados e processos estabelecidos deve ser uma das prioridades dos gestores durante os primeiros dias;
  3. Conversar e explicar a importância dos protocolos de segurança de uma forma lúdica com os alunos e explicar para os pais e responsáveis quais são as ações sanitárias que estão sendo realizadas pela escola;
  4. Apresentar regras e combinados – em especial para as turmas que fizeram a transição de etapa e novos alunos. Se você continuar com a mesma classe, faça uma revisão dos combinados para começar o ano alinhados;
  5. Pensar em atividades que façam um acolhimento das emoções dos alunos e dar um espaço para que eles conversem sobre seus sentimentos e outros acontecimentos das férias ou pandemia;
  6. Fazer uma retomada do trabalho que foi realizado no anterior para apoiar a aprendizagem dos alunos;
  7. Garantir que quem não estiver presencialmente também será acolhido com a adaptação de atividades de forma remota;
  8. Ter um planejamento flexível para poder se adaptar às mudanças que possam surgir até o início das aulas ou mesmo durante a retomada;
  9. Aproveitar as aprendizagens de 2020. Diferente do ano anterior em que a pandemia pegou toda a escola de surpresa, 2021 começa com a bagagem e experiência do que deu certo e o que não deu durante o ensino remoto.