EJA: estratégias para a retomada do novo ano letivo

Ewerton Menezes, coordenador pedagógico da rede municipal de São Paulo, apresenta direcionamentos para auxiliar a pensar o planejamento de 2021

POR:
Ewerton Menezes
senhora negra com tablet na mão e ao fundo da foto um senhor também observando o tablet
Foto: Getty Image

Se há uma palavra que pode definir o ano de 2020, esta palavra é “incerteza”. Pegos de surpresa pela pandemia por coronavírus, vimo-nos tendo que nos reinventar. Processos que até então estavam em debate, como a presença das tecnologias no meio educacional tornaram-se necessários para manter a comunicação remota e também percebemos como se dá a faceta tecnológica da desigualdade social. Muitos estudantes simplesmente ficaram – e continuam – apartados de qualquer interação por meio dos canais digitais ofertados pelas escolas. A Educação de Jovens e Adultos (EJA) não se fez alheia à adaptação abrupta à nova conjuntura pandêmica. Pelo contrário, as vulnerabilidades já comuns ao público da EJA se acentuaram e a sobrevivência da modalidade demandou um esforço homérico por parte das escolas para que as turmas simplesmente não desaparecessem.

Em meio ao clima de insegurança, como imaginar o planejamento para 2021 na EJA?
Um ponto é certamente pacífico: será necessário compreender o que aconteceu aos nossos estudantes durante o período a pandemia. O primeiro passo é fazer um levantamento minucioso das situações que foram e estão sendo vivenciadas por eles. Sabemos que muitos dos educandos da EJA fazem parte de grupos de risco e, no contato que conseguimos manter com eles, também sabemos que houve perdas de várias ordens. Certamente tivemos notícias de estudantes que contraíram a covid-19 ou que tiveram parentes que o contraíram – e, em alguns casos, até perderam suas vidas. Também sabemos que outros perderam suas fontes de sustento com o fechamento dos comércios e a suspensão de serviços. Alguns foram obrigados a retornar suas cidades e estados de origem ou tiveram que se mudar para outros lugares nos quais as chances de subsistência se tornaram maiores. Essas condições levaram muitos a se afastarem temporária ou definitivamente da escola, gerando uma oscilação de interação com os professores ao longo de todo o ano. Além disso, não é raro encontrar na EJA casos de quem tem acesso aos dispositivos e à internet, mas são barrados pela falta de intimidade com dispositivos tecnológicos e interfaces de ferramentas.

Vida, saudade e legado: os educadores que partiram em 2020

Para quem é útil: Para os que reconhecem o valor da vida humana e os frutos do trabalho de um educador.

Qual o objetivo: Homenagear e celebrar a trajetória e os ensinamentos deixados por professores, gestores e funcionários que morreram em virtude da pandemia do novo coronavírus

Em vista disso, como se preparar para o retorno?
O contexto e a trajetória dos estudantes sempre importaram para o planejamento do processo de aprendizagem. E agora, mais do que nunca, eles se fazem imprescindíveis para se compreender quais são os traumas que a conjuntura pandêmica infligiu aos educandos. Será deles que partiremos, tanto para organizar uma acolhida quanto para entender como o afastamento desses estudantes impactou nas suas aprendizagens. Entre os educandos da EJA, a suspensão dos processos educativos pode não só gerar uma estagnação, como pode causar um retrocesso.

Mediante isso, cabe num primeiro momento acolhê-los em suas histórias e com suas perdas. A escuta ativa e compreensiva é uma postura preciosa por parte do educador. Dela surgirão os temas que deverão ser objeto de reflexão nas primeiras interações deste ano de 2021, inclusive para a construção de processos de avaliação diagnóstica que dirão muito à escola sobre a condição cognitiva dos estudantes.

O que levar em conta para o planejamento da avaliação?
Para se estabelecer uma avaliação diagnóstica eficaz será necessário a retomada dos registros referentes à aprendizagem dos estudantes no ponto em que se deu a suspensão das aulas em 2020 (por volta de março ou abril, a depender da rede) até o fechamento do ano. A comparação com essas anotações sobre os estágios de alfabetização, o domínio de procedimentos matemáticos, dentre outras habilidades e saberes, permitirá perceber em que medida o afastamento da escola lhes impactou, bem como de onde deverá se partir na proposta que será estabelecida para 2021.

Deve-se levar em conta que a situação de afastamento da escola e a consequente oferta de atividades remotas podem ter criado uma certa desigualdade entre os níveis de conhecimento de estudantes de uma mesma turma. Aqueles que tiveram condições de acompanhar as aulas remotamente, realizando atividades e estando em contato com os professores certamente partirão de pontos diferentes do processo educativo em relação aos estudantes que tiveram pouca ou nenhuma interação durante o período de 2020.

Pontos para levar em conta no planejamento 2021
Em vista dos diferentes níveis na turma, faz-se fundamental pensar como a escola intervirá por meio de processos de recuperação de aprendizagens para que esta desigualdade seja minimizada. Nesse sentido, a oferta de propostas de aula que contemplem a todos partindo das peculiaridades de cada um nunca se fez tão urgente. Também a organização de atendimento que atinja as necessidades mais particulares dos estudantes por meio de oficinas de estudo pode ser uma boa estratégia para compensar déficits gerados pela suspensão das aulas presenciais.

Não se pode perder de vista que a pandemia não acabou e que, mesmo na hipótese de vacinação da população contra a covid-19, a imunização pela vacina trata-se de um processo que não ocorrerá da noite para o dia. Sendo assim, as escolas precisam traçar estratégias que visem à manutenção dos cuidados sanitários em seus ambientes e à conscientização dos estudantes quanto ao cuidado de si e do outro, bem como o alerta em relação às fake news, tanto sobre o coronavírus quanto às informações de vacinação.

Da mesma forma que a conjuntura pandêmica ainda perdurará ao longo de 2021, deverão ser fortalecidas as estratégias de ensino híbrido, uma vez que as redes não poderão negligenciar nos números de estudantes presentes nas salas de aula, mantendo rodízios ou ações similares. Assim, também há que se pensar em como a escola intervirá para favorecer a aquisição das habilidades necessárias para que os estudantes possam interagir por meio das plataformas digitais ou se engajem em atividades remotas, evitando a exclusão que testemunhamos em muitas redes neste ano.

O absenteísmo é comum à modalidade da Educação de Jovens e Adultos. Assim, será essencial que os canais de comunicação com os estudantes sejam fortalecidos para que não haja aumento no índice de evasão. A criação de novas rotinas de estudo e frequência à escola demandará esforço tão grande ou maior do que vivenciamos este ano. Diversificar as formas de comunicação remota e garantir a clareza das mensagens e informes aos estudantes é o caminho para a manutenção bem-sucedida do contato.

Por fim, o retorno exigirá de nós, educadores, que estejamos sensíveis a este reencontro com os estudantes. Sem dúvida, há de pairar um clima de não conclusão do ano de 2020. Resgatá-los a partir da busca ativa, motivá-los à continuidade dos estudos e lhes dar segurança de que a escola fará de um tudo para compensar as perdas de aprendizagem que julgaram ter é o passo fundamental para a reconstrução da comunidade educativa. Em momento tão fecundo para o medo e para a insegurança, não podemos deixar de esperançar, de garantir que, como diz uma bela frase grafitada em um muro da cidade de São Paulo, quando tudo isso acabar, a gente volta a se abraçar.

Um abraço (por ora virtual),
Ewerton

Ewerton Menezes Fernandes de Souza é coordenador geral no CIEJA Clóvis Caitano Miquelazzo, escola da prefeitura de São Paulo que lida exclusivamente com Educação de Jovens e Adultos, especialmente na faixa etária dos 15 aos 18 anos. Foi um dos 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2017