Não deixar ninguém para trás: um compromisso de toda a escola em tempos de covid-19

Marlucia Brandão, diretora na rede municipal de Marataízes (ES), compartilha estratégias que auxiliaram sua escola e que podem ajudar outras instituições de ensino após um ano letivo de pandemia

POR:
Marlucia Brandão
Crédito: Getty Images

Cuidar para que nenhum aluno fique para trás no processo educacional é um desafio constante na rotina convencional da escola. Imagine essa batalha depois de um ano letivo assolado pela pandemia e isolamento social, causado pela covid-19

Todos fomos retirados da rotina escolar logo após o início do ano letivo de 2020, quando as aulas foram suspensas de forma abrupta. Tudo mudou da noite para o dia! E, aquilo que pensávamos ser temporário, tornou-se permanente, atravessando os meses como uma locomotiva meio desgovernada e muito assustadora, sem sabermos em que estação seria o fim dessa viagem. Assim cada município teve que criar suas próprias estratégias para que o aluno não ficasse totalmente desconectados da escola.

A cada ano letivo, toda escola recebe alunos com níveis de aprendizagem diferentes e histórias distintas. Cada instituição procura se organizar para respeitar essas diferenças e trabalhar da melhor maneira possível com a demanda recebida. Não é tarefa fácil, mas é preciso fortalecer as metas e estratégias de ensino de forma a não deixar ninguém para trás no processo.

Calendário 2021: datas e temas que podem estar na sua aula



Para quem é útil:
 Professores e gestores de todas as etapas

Qual o objetivo: Mapear marcos históricos e dias comemorativos ou de luta e sugerir formas de relacioná-los à BNCC, como forma de inspirar as equipes escolares a construírem seu planejamento a partir de janeiro.



Sabemos que é necessário acompanhar alunos e professores e que, mesmo diante das múltiplas situações encontradas, entendemos que um bom planejamento, o diálogo pautado no respeito e – sempre que se fizer necessário – a reorganização das metas, garantirá uma equipe forte capaz de olhar o outro com ser capaz de avançar.

Assim, na nossa escola, algumas estratégias foram fundamentais para isso. Entre elas, destaco:

- Elaboração de um plano de ação para o período de pandemia considerando a realidade da comunidade escolar;
- Reunião virtual semanal com os professores e demais servidores da escola para alinhamento e troca de ideias;
- Levantamento dos contatos de pais e/ou responsáveis de todos os alunos com um mutirão de ligação para todos visando manter o contato e fortalecer o vínculo entre escola, estudantes e famílias;
- Criação de tutorial para professores, pais e alunos do funcionamento das práticas durante o período de pandemia;
- Criação de apostilas impressas para alunos sem acesso à internet e/ou sem aparelho celular;
- Organização de escola com a equipe administrativa para entrega de material impresso;
- Organização da equipe para entrega de material impresso aos pais com dificuldades de locomoção;
- Convocação de reunião com todas as famílias e realização delas usando os aplicativos do WhatsApp, Zoom e Google Meet. Os encontros são marcados em diversos horários para tentar atender a todos para explicações e retiradas de dúvidas;
- Acompanhamento frequente das atividades realizadas pelos alunos;
- Processo de recuperação online para atingir os alunos que perderam parte do processo de aulas remotas ou estão com dificuldade com o conteúdo;

Não deixar alunos para trás em meio ao isolamento social demandou a organização de um plano de ação. Criamos um documento que pudesse trazer tranquilidade e segurança a toda equipe, que evidenciasse à nossa comunidade escolar a sensibilização dos nossos funcionários e apresentasse a nossa proposta para o ensino e aprendizado neste novo contexto.

Assim como a minha escola, a EMEIEF “Boa Vista do Sul”, localizada no litoral sul de Marataízes-ES, muitas escolas de todo o país precisaram envolver toda a escola para que pudesse aproximar professores, alunos e famílias, pois o início do período da pandemia causou muita preocupação e perdas incalculáveis pessoais e para a rotina escolar.

Entendíamos que a aproximação entre escola, alunos e famílias deveria ser fortalecida, não com o intuito de repassar conteúdos, mas com o objetivo de exercitar  a escuta, tonando-se solidário com as dores e desafios do outro. Era preciso ajudar aqueles que precisavam reconquistar a esperança e mostrar que a pandemia não seria o fim. Mas, a verdade é que nós, professores e escola, não tínhamos muita certeza de nada. Era um período de grande interrogação para todos.

Pedir licença às famílias para entrada dos professores todos os dias na intimidade dos lares por meio de grupos de WhatsApp precisava ser um processo tranquilo e seguro, já que os pais e responsáveis se transformariam em verdadeiros aliados na trajetória de aulas online. O acolhimento dos professores por parte das famílias foi essencial para que os primeiros passos fossem dados. Nesse processo, ambos os lados disponibilizaram a privacidade de suas das próprias casas e de seus aparelhos celulares e computadores como ferramentas de contato e de veiculação das aulas. Muitas dessas vezes, sem se limitar ao horário comercial ou aos de suas aulas na escola.

Os professores também não podem ser deixados para trás

Não deixar ninguém para trás na pandemia, já não se tratava mais somente do aluno, mas também do professor, pois muitos não se sentiam preparados para o novo modelo de aula online. Alguns não se sentiam confortáveis ou confiantes em fazer atividades online por timidez ou até mesmo devido ao despreparo tecnológico.

Toda a equipe administrativa e pedagógica da escola precisava se organizar para dar o suporte necessário aos professores e alunos. Mesmo sem muito domínio e através da criação de tutoriais por aqueles que já estavam mais acostumados com a tecnologia, procuramos dar o suporte necessário aos que não dominavam as ferramentas gratuitas disponíveis para enriqueceram o processo de aulas online (como o Zoom, Meet, WhatsApp, Google Clasroom, entre outras). Era preciso aprender para ensinar.

Tínhamos que trabalhar a afetividade e a sensibilidade de toda a equipe para que alunos e professores pudessem se descobrir mais parceiros do que nunca e que a valorização das famílias, por parte da escola e dos docentes, se fizesse clara, já que estes  desempenharam papel fundamental no processo.

Percebíamos que cada professor trabalhava o autocontrole e a sensibilidade, pois muitos passaram a dar aulas para os pais para estes ajudarem aos próprios filhos. Além disso, precisaram criar estratégias para atenderem aos alunos sem conexão ou sem aparelho celular. Entenderam a necessidade da organização de suas aulas em forma de material impresso, de forma que ninguém ficasse fora do processo de aulas e, assim, não fossem deixados para trás.

Foi fundamental que todos os envolvidos se empenhassem mais. Toda a equipe administrativa e pedagógica, os docentes e as famílias precisaram redobrar os esforços e trabalharam em conjunto, para que pudessem alcançar todos os alunos, nesse novo modelo de aulas remotas.

Não deixar ninguém para trás no espaço educacional será sempre um desafio diário, vivido por toda a equipe escolar. É uma tarefa que mexe com o fazer docente e necessita de apoio de outros membros da escola. Mas, em um ano assolado pela covid-19, esse desafio demandou um grau elevado de amadurecimento de toda a equipe. Professores e alunos viveram um processo de reconstrução e de novas possibilidades de aprendizagens, em que um foi o apoio do outro.

Reafirmo que no processo educacional não podemos cogitar a possibilidade de deixar o outro para trás. Isso não pode ser uma opção. Temos que criar estratégias para que consigamos avançarmos com todos.

Um beijo grande e que 2021 nos presentei com dias melhores!

Marlucia Brandão é diretora da EMEIEF Boa Vista do Sul, em Marataízes-ES, desde 2016, e professora de Língua Portuguesa, com especialização em Linguística Aplicada ao Português, Psicopedagogia Institucional e Ciências da Educação. Deu aulas em todas as etapas, da alfabetização à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Também foi Secretária de Educação de Marataízes entre 2011 e 2012.