9 aprendizados da Educação remota para levar para 2021

Em retrospectiva, professores relembram os momentos de virada do ensino presencial para o remoto e indicam o que levam da experiência para a prática docente

POR:
Camila Cecílio
ilustração é composta por um grupo de pessoas com ideias e caixas de diálogo acima da cabeça
Ilustração: Getty Image

O dia 16 de março de 2020 começou como uma segunda-feira normal para o professor capixaba Fabrício Antunes. Após os afazeres matinais, ele foi para a Escola Estadual Misael Pinto Netto, em Aracruz (ES), onde dá aulas de Física para o Ensino Médio. Naquele dia, as informações sobre a propagação do novo coronavírus já circulavam por todo o país, mas o educador nem desconfiava que aquele seria o último encontro presencial com seus alunos no ano.

Fabrício dava uma aula para a turma do 3º ano do Ensino Médio sobre como se prevenir contra o vírus quando foi surpreendido com a notícia de que a escola seria fechada devido à pandemia. Diante de um cenário completamente atípico, o professor não esperou por ações do governo local e tomou a iniciativa de buscar maneiras de continuar ensinando seus alunos de forma remota. WhatsApp, Google Sala de Aula (Classroom), e-mails e videochamadas foram algumas ferramentas utilizadas por ele durante a pandemia.

No entanto, ele foi constatando as dificuldades dos alunos em relação ao acesso à internet e a equipamentos eletrônicos modernos. Foi aí que surgiu a ideia de criar um aplicativo do zero, adaptado para aparelhos celulares com sistemas operacionais desatualizados, para que os alunos pudessem estudar para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O app foi adotado pela escola e continuou sendo usado, mesmo após a rede ter adotado o Google Sala de Aula.

Por meio da tecnologia, materiais impressos e muita criatividade, os professores brasileiros tiveram que se reinventar. Para além das ferramentas tecnológicas, o que mais poderá ser incorporado à prática diária docente em 2021? Três professores listam abaixo suas lições do ano da pandemia:

1. Sempre é tempo de aprender
Embora o professor Fabrício tivesse realizado um curso técnico de Análise de Sistemas, ele não sabia como desenvolver um aplicativo para celulares – equipamento mais utilizado por seus alunos. Depois de muitas “cabeçadas”, com informações de livros especializados e vídeos do YouTube, ele finalmente conseguiu criar o aplicativo #FicaEmCasa, que visava socorrer suas 15 turmas de Física que não estavam conseguindo estudar. Nesse processo, descobriu que poderia também ajudar as famílias dos estudantes. “Desenvolvi o aplicativo contendo na tela inicial duas interfaces: uma tela de noticiário para orientação dos alunos com notícias oficiais da escola e outra com uma tela para cadastrar os estudantes empreendedores ou que possuía algum prestador de serviços na família, com a ideia de ajudar os estudantes obterem uma renda extra para reduzir o impacto emocional e financeiro causado pela covid-19”, conta.

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2. Ter iniciativa, independente de terceiros
“Já tinha bastante tempo que eu refletia sobre isso, que não posso pautar o meu trabalho esperando o outro. Mesmo que a participação do outro seja imprescindível, não posso esperar que ela aconteça para fazer a minha parte com meus alunos”, diz a professora Ingrid, que trabalha com o 1º ano do Fundamental na EMEIF Professor Moacyr Pinto Santiago, em Pariquera-Açu (SP). Ela exemplifica: “se a família não conseguir acompanhar o aluno, é claro que isso vai fazer diferença, mas, ainda que eu não tenha esse retorno, continuarei fazendo o que for possível por meus alunos”. 

3. Se adaptar à realidade da sua comunidade
Um dos problemas detectados pelo professor Fabrício foi a dificuldade de acesso dos seus alunos. Pensando nisso, teve uma ideia: como o WhatsApp funciona sem o uso de dados, ele passou a elaborar atividades em formato PDF com um link que simulava uma interface de aplicativo. “Quando o PDF abria no WhatsApp do aluno, parecia que ele estava acessando um aplicativo e com isso eles recebiam as informações e as atividades sem precisarem usar a internet”, explica.

Entender a comunidade e propor soluções criativas (mesmo que não passem pela tecnologia) que atendam às necessidades dela pode fazer toda a diferença, como também foi o caso da professora Ingrid. Em Pariquera-Açu, não houve adesão ao ensino remoto no começo da quarentena. Nesse cenário, Ingrid, ao lado da colega Sueli Plácido, decidiram organizar atividades impressas para as crianças que estavam começando o processo de alfabetização.

A logística da entrega dos materiais impressos foi resolvida com a ajuda de um pai de aluno que era gerente do mercado do bairro da escola, um dos poucos da cidade. As atividades foram colocadas em envelopes e guardadas no estabelecimento até que as famílias das crianças fossem fazer compras e, então, pudessem pegar os materiais. A iniciativa deu tão certo que, em poucas semanas, a rede municipal aderiu às atividades impressas.

4. O papel também pode ser inovador
Além das atividades disponibilizadas no mercado, outro exemplo de que o ensino digital não é o único jeito de fazer escola a distância foi a festa junina da turma do 1º ano do Fundamental. “Foi um momento muito importante para mim e para a professora Sueli porque não tínhamos uma aula síncrona para brincar com os alunos, mas mandamos uma festa pré-pronta no saquinho para eles fazerem em casa”, recorda Ingrid, que preparou para os pequenos uma espécie de “kit festa-junina”, com os elementos usados na festa tradicional. “O papel também pode ser inovador, depende do que você coloca nele. Você pode fazer diferença na vida do aluno independente do material que você usa”, comenta. 

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5. Aula virtual não é sinônimo de qualidade
“Lembro de uma vez ter feito um curso sobre o uso da tecnologia em sala de aula em que assisti a um vídeo que mostrava uma linha do tempo em que o professor projetava na lousa a tabuada do 1. Ao longo dos anos, a mesma coisa acontecia: o professor entrava na sala de aula, organizava um projetor e lá estava a imagem da mesma tabuada. Com isso, quero dizer que a tecnologia nos dá muitas oportunidades e facilita muita coisa, mas ela não muda nada, o que muda é a postura, é o jeito e são as escolhas que o professor faz, a vontade de fazer diferente”, ressalta Ingrid.

6. Para cuidar do outro, é preciso antes cuidar de si
2020 não foi um ano fácil para a saúde mental docente. Eliane Souza, professora do 3º ano do Ensino Médio de Língua Portuguesa no Ciep 021 General Osório, no Rio de Janeiro (RJ), e na EMP. Hauler da Silva Ferreira, em que atua na alfabetização das crianças do 3º ano do Fundamental, enfrentou crises de ansiedade acentuadas pelo afastamento dos alunos, medo do desconhecido e incertezas sobre o futuro. E, nesse processo, ainda teve que se reinventar para ensinar os pequenos e os grandes a distância.

Mas, como num voo aéreo em que as orientações em caso de um acidente são colocar as máscaras de oxigênio primeiro em si e depois ajudar aos outros, Eliane precisou antes de tudo olhar para si mesma. “Eu tive que buscar formas de controlar meu quadro de ansiedade, de lidar com o medo que eu tinha e, também, de alguma forma, me manter mais próxima dos meus alunos”, lembra. Primeiro a educadora buscou acompanhamento médico e, na sequência, foi inserindo, aos poucos, novos hábitos à sua rotina, como meditação guiada e atividades físicas. Após nove meses de pandemia e distanciamento social, não são todos os dias que são bons, mas, em todos eles, Eliane busca cuidar de si para depois cuidar dos seus alunos. “Acho que antes era algo bastante negligenciado, mas agora temos mais consciência de que precisamos cuidar disso de verdade”.

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7. Estar perto não é físico
A proximidade com os alunos tanto do Fundamental 1 quanto do Ensino Médio por meio de videochamadas e projetos online ajudou Eliane a se sentir melhor nos dias difíceis de 2020. E, se a companhia deles fez diferença nos dias da professora, ela também fez no deles. “Participei de projetos com os alunos maiores para trabalhar as emoções e percebemos juntos algumas angústias que eles estavam sentindo. Essa escuta me ajudou a entender um pouquinho mais sobre eles”, diz a professora, que mesmo longe tem tentado se manter “por perto” dos estudantes no ambiente virtual.

8. Valorizar a troca com os alunos em sala de aula
“Nunca mais vou reclamar de ouvir os alunos chamando sem parar por mim”, assegura Ingrid. “Não é sobre o conteúdo, é sobre as conversas, o diálogo. Como faz falta no meu planejamento ter esse retorno das crianças. A nossa vida acontece quando a gente entra na sala de aula, cada um traz sua bagagem e, com isso, a gente vai se desenvolvendo. Então, faz muita falta”, desabafa.

9. As adversidades podem ser convites a novos aprendizados
Fabrício percebeu em suas experiências ao longo da pandemia que um cenário desafiador também pode ser de crescimento e de evolução, desde que haja colaboração e criatividade. “Apesar do momento ser difícil para todos, sinto que cabe pensar em soluções, ao invés de lamentar as mazelas e a desigualdade social que foram escancaradas. Surgiram, sim, muitas dificuldades, mas o que era para ser uma grande crise também se tornou oportunidade. É preciso humildade para reconhecê-las e dedicar esforços na busca por soluções imediatas”, diz o professor da rede estadual do Espírito Santo.

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