Como utilizar os registros feitos pelas famílias na Educação Infantil?

Entenda a importância da documentação nessa etapa e como se organizar em tempos de pandemia

POR:
Evandro Tortora
criança negra brincando com peças geométricas em casa
Foto: Getty Image

Há tempos temos conversado sobre a importância do registro na Educação Infantil. Eles são essenciais para os momentos de avaliação e nos possibilitam refletir sobre as experiências das crianças no dia a dia. Os registros compõem a documentação pedagógica dos pequenos e são objetos de consulta, ao longo de todo ano, para repensar nossas práticas.

Porém, nesses tempos de pandemia, algumas formas de registro foram impossibilitadas, já que não conseguimos mais fotografar ou observar nossos pequenos em suas vivências, brincadeiras e interações rotineiras. Logo, surgem novas formas de registro e acompanhamento desses momentos das crianças que acompanham os nossos fazeres diários e é sobre essas novas práticas de registro que vamos discutir nesse texto.

Há quem possa dizer: “Mas, Evandro, basta pedir para que a família tire as fotos ou que grave áudios e poderemos reproduzir o que fazemos na sala com as crianças”. Porém, esses registros que foram produzidos pelas famílias podem ter uma intencionalidade diferente daqueles que nós, professores e professoras, produzimos junto às crianças.

Para deixar essa ideia mais elucidativa, gostaria de relembrar a prática da construção da documentação pedagógica que serve de inspiração para muitos de nós: a renomada metodologia desenvolvida em Reggio Emilia. Em Reggio, as diferentes formas de registro, como as fotografias, vídeos, transcrições de narrativas das crianças, relatórios, materiais escritos e produzidos pelos pequenos  (quando ocorrem), desenhos etc., constituem a documentação pedagógica. Os registros que compõe têm uma relação entre si e emergem da prática com as crianças, bem como tem uma intencionalidade por trás delas ao serem produzidas por educadores.  

Baixe um modelo para avaliar o trabalho com as crianças

Com a ajuda de educadoras da CMEI Fúlvia Rosemberg, de Curitiba, elaboramos um PDF para você preencher ou se guiar na hora de relembrar as propostas desenvolvidas e a relação construída com as famílias a distância

Quando a família nos envia uma foto, um áudio ou até mesmo uma carta, ela nos coloca um registro que tem um olhar que não, necessariamente, tem a intenção de acompanhar as conquistas que as crianças conseguiram ao longo de um trajeto planejado dentro de uma intencionalidade que é muito espontânea para nós, professoras e professores de crianças.

“Então quer dizer que os registros produzidos pelas famílias não têm valor?”. Claro que tem! Eles são importantíssimos para nós. Porém, o que estou propondo aqui é uma ressignificação desses registros dentro dos contextos em que têm sido produzidos pensando na construção da documentação pedagógica das crianças e na avaliação das nossas práticas nesse período de pandemia.

Como aproveitar os registros feitos pelas famílias?
Acredito que um bom caminho para aproveitar esses registros seja nos remeter aos nossos objetivos para o trabalho com as crianças nesses tempos de pandemia. Um deles é justamente mostrar-se presente e participante na educação das crianças atuando com o cuidar e o educar indissociadamente junto das famílias. Então, quais registros nos remetem a esse objetivo? Quando as famílias nos enviam uma foto da criança lavando as mãos e dizendo que aprenderam a se higienizar sozinhas, podem dar indícios que estão atentas à importância desse hábito junto a ação educativa dos professores. (Eu até consigo imaginar a família dizendo à criança “vamos tirar uma foto sua lavando as mãos para mandar pra o professor e mostrar que você aprendeu a lavar as mãos!” ?)

Outros registros produzidos pelas famílias evidenciam o quanto o ambiente familiar e sua dinâmica podem potencializar experiências para as crianças que, apesar de diferentes dos momentos potencializados na instituição de Educação Infantil, tem igual importância para bebês e crianças pequenas.

Um bom exemplo disso aconteceu comigo, quando pedi as minhas crianças que me enviassem áudios relembrando as músicas que cantávamos durante as “rodas cantadas” que aconteciam diariamente. O nosso grupo ficou cheio de áudios das crianças e algumas foram além produzindo vídeos com as crianças cantando junto de suas famílias. Como foi o caso do Miguel, que cantou sua música preferida junto de pai tocando violão.

Os relatos das famílias nos mostram que devemos, inclusive, respeitar suas singularidades ao invés de interferir ou julgá-las. Como é o caso que relatei num outro texto, em que uma família me enviava, com frequência, fotos dos desenhos que a criança fazia, mas nunca enviava no grupo da turma. No meio dos elogios que fiz ao desenho e incentivos dados a criança, a mãe do menino pediu para que não postasse o desenho no grupo, mas apenas mantivesse comigo porque a mesa em que a criança tirava as fotos do desenho não era muito bonita. Esse relato realmente me fez refletir sobre a sensibilidade extremamente necessária quanto aos registros produzidos pelas famílias.

Como organizo os registros dos pequenos?
Eu tenho uma pasta no meu computador para cada criança em que guardo desenhos, vídeos e áudios enviados e que me ajudam a construir uma visão sobre as interações que as crianças têm tido nesses tempos de pandemia. Inclusive, temos um site da turma em que postamos esses materiais e as próprias famílias são estimuladas a oferecer novos materiais a serem postados no site nomeado de “Livro da Vida”, a luz de uma das práticas freinetianas adotadas em minha escola.  

Confira dicas para selecionar as produções dos pequenos

Ferramentas digitais e vídeos são boas opções, mas por que também não envolver as crianças e famílias na construção de uma pasta ou caixa física com fotos, desenhos e outros registros deste ano?

Em síntese, os exemplos acima nos mostram que as práticas de registro e a composição da documentação pedagógica das crianças ganham um novo formato perante às novas demandas destes tempos de pandemia. Sugiro que aqui nos distanciemos de uma prática que vise analisar isoladamente uma foto ou áudio produzidos pelas famílias e tirar conclusões como “a criança não sabe isso” ou “a criança sabe aquilo”. Há uma história de significação, estética e ética por trás desses registros, a qual precisa-se de mais elementos para compor determinadas conclusões que podem ser precipitadas e se distanciarem dos objetivos que traçamos para os tempos atuais.

Acredito que esses registros produzidos pelas famílias poderão nos acompanhar, inclusive, quando retornarmos a nos ver presencialmente e ajudar a compor nossa documentação pedagógica. Isso pode ajudar a estreitar nossos laços com as famílias e levantar indícios de como o conhecimento da escola afeta as crianças em suas casas e vice-versa.

Um abraço carinhoso e até 2021, 

Evandro

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