Autoavaliação docente: o que refletir sobre 2020

Professores comentam aprendizados nos processos de avaliações sobre seus trabalhos e compartilham experiências

POR:
Camila Cecílio
mulher com lápis na mão escrevendo em papel, na mesa também tem um notebook
Foto: Getty Image

“Será que eu consegui ser um bom professor nesse ano?” é uma pergunta que pode rondar os pensamentos dos educadores na hora da autoavaliação de 2020. Depois de um ano em que toda a dinâmica escolar precisou ser reinventada, fazer um balanço das próprias práticas pode levantar a dúvida: o que deve ou não ser levado em consideração para a autoavaliação de um ano de pandemia?

Para começar, uma boa sugestão é olhar para trás e listar quais mudanças de prática vieram com a transposição da rotina da sala de aula presencial para o ensino remoto. Os aprendizados tecnológicos e metodologias ativas que foram introduzidas no dia a dia do educador nos meses de pandemia dão pistas grandes que podem ser aprofundadas. Para quem mantém uma rotina de registros das atividades, consultar tais registros pode ajudar a relembrar o ano docente.

“Isso é importante para que o educador aprenda a exercitar o olhar para si, retomar o que aprendeu, perceber quais as suas dificuldades, dialogar com o professor que é seu parceiro mais experiente e discutir sobre o que pode melhorar, quais as estratégias para seguir em frente, e, claro, avançar nos pontos que ainda não estão bons”, explica Camila Zentner Tesche, coordenadora de Programas Educacionais na Secretaria Municipal de Educação de Guarulhos e formadora da rede. É preciso ter em mente que para que a autoavaliação funcione efetivamente, a reflexão sobre a prática deve ser realizada com frequência e não apenas uma vez ao ano. “Se o professor não tem essa prática na rotina, talvez não consiga ter todas as respostas que gostaria neste momento”, observa. Mas não se culpe pelo que você não fez: use as lições de 2020 como base para seu plano de ação do próximo ano.

Para levar em conta na autoavaliação

A pandemia forçou todos a explorar novas formas de ensinar e também se conectar com os alunos e as famílias. Esse, sem dúvida, será um dos “legados” desse ano, segundo Evandro Tortora, professor de Educação Infantil no CEI Tancredo Neves, em Campinas (SP) e colunista da NOVA ESCOLA. “Se antes a gente não tinha esse hábito, agora temos porque fomos forçados a isso. Aprendemos muitas coisas que, com certeza, devem ser levadas para o contexto presencial”, ressalta.

Baixe PDF com modelo para autoavaliação

Confira documentos para baixar que vão ajudar na sua autoavaliação e na dos seus alunos nessa reta final. O arquivo traz pontos sobre organização, planejamento e até mesmo sua relação com os estudantes.

Evandro cita como exemplo os grupos de WhatsApp com as turmas, que já existiam em algumas escolas e ficaram ainda mais fortes durante a pandemia ou foram criados para comunicar e promover interação entre escola e famílias, principalmente com o compartilhamento de atividades, fotos e vídeos. Além de fortalecer o vínculo, os pais e responsáveis acabam também conseguindo desenvolver outra relação com os aprendizados dos filhos, ainda mais na Educação Infantil, em que as crianças ainda não conseguem expressar as grandezas das aprendizagens dela para além do brincar.  “A tecnologia e as novas formas de se comunicar permitem esses movimentos e, também, estão muito atreladas a questão da autoavaliação dos docentes [por conta dos feedbacks que são dados durante as interações dos alunos e familiares]. Muitos têm percebido que esse foi um ganho muito grande que deve ser levado para o futuro”, comenta Evandro.

Para Greiton Toledo de Azevedo, professor de Matemática do 6º ano na EM Irmã Catarina Jardim Miranda, em Senador Canedo (GO), há “antes e depois” da pandemia para entrar na reflexão e levar para a rotina também do ensino presencial. “Tivemos muitas coisas boas, como o gerenciamento do tempo. Vimos que alguns conteúdos podem, de fato, ser ministrados à distância, e acabam sendo até mais significativos, dependendo do contexto”, exemplifica. Greiton ressalta que esse é um momento novo e que, por isso, o professor deve considerar que o tempo, a aprendizagem e as formas de avaliar e de mobilizar conteúdos também são diferentes. “O que aconteceu neste ano me fez pensar, enquanto professor, que não dá para colocar criatividade, autonomia e outras habilidades assim dentro de uma prova. Tampouco dá para desconsiderar o contexto e avaliar o aluno como fazíamos antes. Os momentos são outros”.

Apesar de sempre trabalhar com tecnologia e robótica, o professor conta que, durante a pandemia, se viu diante de um grande desafio. Pensando nos alunos do Fundamental 2, Greiton se questionou sobre como garantir uma aprendizagem criativa, formativa e que, de fato encoraje o estudante a assumir uma postura mais engajada em sociedade diante de tantos fatores negativos, como falta de acesso à internet e a equipamentos tecnológicos e os altos índices de contaminação e mortes por covid. “O que é mais importante: trabalhar de forma significativa os conteúdos propostos, de diferentes perspectivas e formas, ou repetir o que a tradição sedimentou? Ou, então, colocar uma lista de exercícios, que pouco se justifica, como se estivesse tudo normal e os alunos tivessem todas as condições para fazer? Essas foram questões que, enquanto professor, me instigaram a pensar”. A partir de reflexões como essa e do resultado prático que essas atividades tiveram com os estudantes, Greiton guiará alguns dos pontos da sua autoavaliação deste ano.

Para quem trabalha com os pequenos, o professor Evandro Tortora, compreende que, embora não acredite que exista Educação à distância na Educação Infantil, ficou constatado que há o movimento de sugerir experiências para as crianças em contextos familiares. “Porém, não conseguimos ter, como fazemos na escola, o aparato pedagógico de pensar em objetivos de aprendizagem atrelados à questão de observação de antes, durante e depois da prática. O que fazemos no remoto é outro movimento, diferente de Educação à distância e a autoavaliação deve considerar isso”. 

Para Evandro, a principal aprendizagem desse ano é o estabelecimento de uma nova cultura de relação entre escola e famílias. Isso porque, no contexto presencial do seu dia a dia na Educação Infantil, a interação era pensada diretamente com as crianças e, no ensino remoto, há uma relação direta com as famílias e indireta com as crianças, pois há um adulto intermediado esse contato. “Essa cultura de tentar aproximar as famílias das nossas práticas, envolvê-las nesse movimento de trabalho junto das crianças, é um dos principais ganhos”, enfatiza.

6 DICAS DE PROFESSOR PARA PROFESSOR

Nossos entrevistados da reportagem comentam alguns pontos que aprenderam em seus próprios processos de autoavaliação e compartilham suas experiências e conselhos:

1. Para pensar as próprias práticas, é importante estar bem consigo mesmo
Greiton Toledo de Azevedo: “Muitas vezes, eu acredito que nós, professores, antes de estarmos bem para os nossos alunos, precisamos estar bem com nós mesmos para poder criar, imaginar, inventar situações-problemas pedagógicos, metodológicos e tecnológicos. Sempre tratei de correr, praticar exercício físico, cuidar da saúde e fazer outras atividades na rotina porque isso me faz muito bem e me ajuda a chegar aos meus alunos”.

2. Converse com os colegas, você também pode aprender com o outro
Camila Zentner Tesche: “É fundamental que a autoavaliação seja realizada junto com o coletivo da escola e que, antes, seja feita uma escuta muito cuidadosa para que cada professor possa desabafar sobre tudo que passou nesse ano e falar de suas dificuldades. Ou seja, uma roda de conversa acolhedora para perceberem que todo mundo estava no mesmo barco e passou por muitas aflições e que a gente fez o máximo que podia”.

3. Se orgulhe do que você conseguiu fazer
Greiton Toledo de Azevedo: “O professor deve se orgulhar muito do que fez, mesmo que não tenha conseguido o papel ideal entre o feito e o perfeito, o feito foi realizado e isso não pode ser desconsiderado, sobretudo, tratando de um momento tão difícil. Precisamos considerar, de fato, os ganhos pequenos, isolados, e as pequenas conquistas mobilizadas no processo pedagógico e formativo do estudante e até mesmo do professor”.

O que deu certo e não deu no planejamento de um professor na pandemia?

Ao refletir sobre esses seis meses de trabalho na quarentena, o educador Guilherme mapeou o que funcionou durante o período e que não funcionou. Conheça os aprendizados dele neste processo. 

4. Reflita sobre as interações desse ano e observe as aprendizagens
Evandro Tortora: “Refletir, para autoavaliar-se, sobre todas as ações que tivemos ao longo desse ano. Acho que no presencial isso é importante, mas 2020 foi um ano de muitas aprendizagens, de possibilidades de novas interações com as famílias. E olhar para esse caminho, pensando se a gente interagiu sempre da mesma forma, se a gente não buscou novas alternativas, o que aprendemos de novo, se conseguimos aplicar esses conhecimentos tecnológicos nesse momento. Olhar para o percurso como um percurso de aprendizagem mesmo”.

5. Reveja o planejamento de 2020 para pensar em 2021
Evandro Tortora: “É importante olhar para o planejamento que tivemos nesse ano, afinal, passamos por muitas modificações. Iniciamos o ano com um planejamento pensado para o contexto presencial e, na sequência, tivemos que, às pressas, mudar os planos e pensar em interações à distância. Chegando o fim do ano, temos que avaliar tudo isso e é de muita importância porque não sabemos como vamos começar 2021, se teremos uma vacina até fevereiro. Se o ano não começar dessa forma, teremos que nos manter nesse regime ainda por alguns meses. Então, 2020 servirá para avaliar as ações futuras”.

6. Procure ouvir seus alunos sobre o momento que vivemos.
Camila Zentner Tesche: “Elenco alguns tópicos que considero que não podem faltar na autoavaliação desse ano e que podem ser levados para que os estudantes (ou responsáveis também no caso dos pequenos):

- Como os alunos avaliam os recursos utilizados pelas professoras nesse período de aulas remotas? Todos acessaram? Por que não acessaram? Como gostariam que fosse?
- Como eles se sentiram durante esse período? Pedir para que destaquem coisas boas e ruins que aconteceram nesses meses longe da escola
- O que aprenderam? Quais aprendizagens foram mais significativas? O que não aprenderam? Quais dificuldades?
- Sobre a covid-19: O que já sabem? O que ainda não sabem? O que gostariam de saber? Que aspectos da pandemia querem aprofundar?
- Como foi a participação das famílias na realização das propostas pedagógicas à distância?
- Desejam retornar à escola? O que pensam sobre o retorno? Como gostariam que ele acontecesse?”

Tags

Guias