Educação Infantil: como trabalhar a partir das narrativas das crianças

Trabalho de trocar cartas com os pequenos trouxe grandes reflexões para o educador

POR:
Evandro Tortora
Cartinhas escritas pelo professor Evandro foram enviadas para sua turminha. Foto: Arquivo pessoal

Não só nestes tempos de pandemia, mas também em dias de Educação presencial, as crianças nos surpreendem com as ideias que constroem a cerca das coisas. As narrativas das crianças acabam nos dando indícios de como elas estão lendo o mundo ao seu redor e podem também ser elementos importantes para o professor planejar suas ações junto dos pequenos.

Tive uma experiência recente que pode ilustrar essa reflexão. Planejei uma vivência envolvendo trocas de carta com a turma e meu primeiro passo foi perguntar aos pequenos o que são cartas e se já haviam recebido alguma. Foi quando a Maria, de 5 anos, me mandou um áudio dizendo: “eu não recebo carta, professor. Carta é boleto”. Não sei vocês, mas eu acho muito chato olhar para minha caixa de correios e só encontrar boletos, contudo essa era a principal referência da Maria naquela conversa.

Num primeiro momento, achei a resposta engraçada. Mas depois me fez refletir sobre a relação que essa criança está construindo com um objeto que, para mim, tem um significado muito bonito! Pensem naqueles tempos em que se esperava semanas para chegada da carta da pessoa amada que trazia notícias tão esperadas! Lembram-se dos papeis de carta? Materiais estilizados e coloridos que eram objetos de coleção ou usados para, caprichosamente, escrevermos alguma correspondência para pessoas queridas.

Fiquei me perguntando se a Maria achou que eu enviaria um boleto para ela quando lhe sugeri enviar uma carta. Percebi ali uma oportunidade de ressignificar esse objeto com as crianças.  Pedi para que as famílias me enviassem seus endereços e escrevi cartas à moda antiga ou, melhor dizendo, à mão.

Tenho certeza que outros professores ou professoras já tiveram a mesma ideia de troca de cartas com as crianças nessa pandemia. Logicamente, há interesses pedagógicos por trás desta atividade, além de ser uma prática que carrega uma dose de afeto! Um afeto muito necessário nesses tempos difíceis!

Assim como no exemplo com as cartas, destaco a importância de conhecermos os significados que as crianças dão ao mundo ao nosso redor. Num outro texto, destaco essa mesma significação dada por elas em contextos de letramento na Educação Infantil. As narrativas das crianças nos mostram as leituras de mundo (à Paulo Freire) precedendo a leitura das palavras, ou seja, mostram como as crianças interpretam as informações que nos rodeiam e estabelecem relações entre elas.

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Confira uma atividade que envolve conversa e brincadeira na hora do desfralde, além de dicas de especialistas para manter uma boa relação com os pequenos e suas famílias até mesmo durante a pandemia.

Essa leitura de mundo é tão importante que envolve, inclusive, interpretações de relações de poder e o papel que a criança desempenha nesse universo letrado. Freinet já dizia, por meio de suas invariantes pedagógicas, “a criança é da mesma natureza que o adulto” querendo nos alertar para que as relações estabelecidas com o mundo se desenvolvem dentro do universo em que todos nós estamos imersos e que, dentro desta mesma natureza, aprendemos a significar o mundo que nos rodeia pelos mesmos meios, porém dentro das nossas singularidades.

Daí surge a importância de termos vivências “junto das crianças”. Citando o exemplo das cartas, eu gosto muito de receber cartas, logo as crianças, junto de suas famílias terão esse “convite” para responder às minhas cartas. Estamos vivendo esse momento juntos, apesar da distância.

Quando as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil (DCNEI) e, mais recentemente, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), nos propõe a pensar em experiências com as crianças, estamos falando destes contextos. Falar de experiências é abordar um universo de significação de mundo por meio de práticas com interações entre crianças e crianças, adultos e crianças, crianças e o ambiente físico... são momentos em que o conhecimento ganha significado para os pequenos!

As narrativas das crianças, além de belas, nos trazem elementos para prática. Faz parte da importante função do professor a arte de escutar as crianças! Marianella Sclavi, pesquisadora italiana, tem belíssimas obras em que descreve a arte de escutar e coloca brilhante a ideia do adulto de “adotar uma metodologia humorística. Mas quando aprende a ouvir, o humorismo vem de si mesmo”....

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Veja como garantir cada um dos seis direitos de aprendizagem, previstos na Base, durante a pandemia na Educação Infantil. No botão abaixo, você conhece ainda a experiência real de uma creche que tem trabalhado esses pontos no distanciamento social.

E o que isso significa? Bom, as narrativas das crianças nos parecem engraçadas e chegam ao nosso entendimento, muitas vezes, com um tom de humor. Esse humor nasce dentro de um teor transgressor e evoca situações que não são comuns, saltando-nos a percepção para aquilo que ganha um tom cômico. Essa percepção da fala das crianças está atrelada a uma forma diferente nossa de interpretar o mundo que nos rodeia, nos dá oportunidade de se distanciar do que é rotineiro e ver as situações sob uma perspectiva diferente daquela dita como “normal”. Logo, uma metodologia humorística nos oferece oportunidades de escutar as crianças buscando a boniteza por trás de suas falas, na leveza de suas colocações, enxergar novas possibilidades de leitura de mundo!

Eu gosto muito de registrar as narrativas das crianças para que faça delas parte da documentação pedagógica das crianças, além de, no futuro, poder olhar para elas novamente e continuar me encantando com a leveza e inteligência das crianças.

Todo esse contexto nos remete as (re)significações que podemos propor às crianças nesse contexto de pandemia ou em dias “normais”. Pensando no contexto atual, em que muito se conversa sobre o “novo normal”, encontremos boas possibilidades para, junto das crianças, (re)significar muito dos acontecimentos atuais e aprendizagens das crianças.

Um abraço carinhoso e até breve,

Evandro

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.