Modelos de aprendizagem para driblar a defasagem em 2021

Ensino personalizado, reforço e continuum curricular são algumas alternativas para o novo ano letivo

POR:
Ana Paula Bimbati
pessoas espalhadas em linhas que se cruzam, pode significar caminhos e opções que estão conectadas, integradas
Foto: Getty Image

O ano de 2021 traz com ele o desafio de garantir que as aprendizagens que ficaram para trás com a crise causada pela pandemia do coronavírus possam ser recuperadas. Mas será necessário tempo e planejamento. “Pelo que estamos observando, o primeiro semestre de 2021 será  parecido com 2020”,  prospecta Maria Helena Guimarães de Castro, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), sobre o que aguarda a Educação Básica para o próximo ciclo.

Independente do formato da aula ser presencial ou remoto, as escolas precisarão de um planejamento flexível, que integra modelos de aprendizagem e valoriza a diversidade dentro das salas. “Qualquer tipo de engessamento no planejamento pode atrapalhar o direito à Educação de todos os alunos”, diz Adriana Pereira, diretora de uma escola pública em São Bernardo do Campo (SP) e especialista em currículo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Flexibilidade e autonomia para as instituições de ensino serão fundamentais nesse momento. “É preciso garantir o direito à Educação sobre diferentes abordagens do conhecimento, lembrando, sempre, que a regra é não deixar nenhum para trás”. Mais do que se apoiar em um único caminho, será necessário mesclar estratégias para a aprendizagem de acordo com o momento do ano e contexto da escola. Por isso, a educadora sugere que a escola considere os modelos de aprendizagem de forma integrada.

Veja 12 dicas para avaliar as aprendizagens

Antes de planejar 2021 é essencial saber e ter mapeado as aprendizagens oferecidas e absorvidas pelos alunos no ano letivo. No botão abaixo, você pode conferir um conteúdo com dicas de especialistas sobre o que você precisa se atentar para acolher a avaliar seus alunos:

“Substituir [um modelo] não é bom, integrar sim”, diz Lino de Macedo, professor emérito do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e membro da cátedra da Educação Básica da mesma universidade, sobre as possibilidades para 2021. “A pandemia exigiu o uso antecipado de novos formatos e substituiu coisas que não são substituíveis [e que devem ser retomadas num futuro próximo] como a aula presencial”. Assim, o uso da tecnologia para apoiar o ensino remoto pode ser uma estratégia adotada para o novo ciclo letivo, mas não deve ser a única.  Para pensar modelos que podem ser ofertados em sua escola e para sua turma, tenha em mente que é preciso relacionar e unir diferentes esforços.

Como compensar o que ficou para trás em 2021?
Confira quatro dicas para incluir no planejamento escolar

1. Manter contato digital (ou offline) com a família
Depois de fortalecer a relação com os pais e responsáveis do aluno, manter o contato na rotina é essencial para garantir um ano letivo produtivo. Seja por meio digital ou por outras comunicações, Lino de Macedo sugere que professores e gestores continuem interagindo com os estudantes e suas famílias através do melhor recurso que cada aluno tenha acesso (celular, notebook, conversa presencial).

2. Aumentar carga horária na escola
Hoje, em média, os alunos ficam de quatro a cinco horas na escola. Lino indica que pode ser necessário ampliar a carga horária dos estudantes para que se intensifique as interações com professores e colegas, mas também consigam ofertar as habilidades previstas para 2021 (e aquelas que ficaram para trás em 2020).

3. Diversificar formas de aprendizagem
Para quem optar pela ampliação da carga horária, será necessário ofertar uma experiência de aprendizagem em que o aluno é protagonista. “Se a criança fica mais tempo na escola, mas ouvindo apenas o professor falar, a gente vai ter mais do mesmo. É preciso pensar, por exemplo, em atividades com interações com seus colegas”, sugere Lino.

4. Investir nas metodologias ativas
Formas diferentes de aprendizagem envolvem também investir nas metodologias ativas. Elas poderão apoiar o dia a dia e colocar o aluno a atuar de forma ativa no processo de ensino e aprendizagem.

Formatos para planejar o novo ano letivo
Conheça abaixo os quatro principais modelos que podem ser colocados em prática em 2021:

Continuum curricular
Muito falado desde o início da quarentena, o continuum curricular é uma das grandes apostas para diminuir as defasagens deixadas pelo ano da covid e ainda ofertar as habilidades necessárias para os alunos em 2021. “Países da Europa e alguns estados americanos, por exemplo, estão organizando o calendário escolar considerando continuum curricular já que, em geral, o problema afetou todas as escolas”, conta Maria Helena, presidente do CNE e relatora da resolução que fala sobre a proposta.

Você sabia?
O continuum curricular está previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), na BNCC e também foi pautado em diretrizes do CNE para a Educação Básica. O objetivo, segundo a relatora do tema no Conselho Nacional de Educação Maria Helena Guimarães, é possibilitar que as escolas ofereçam as habilidades previstas em dois anos em um único ano, além de evitar a reprovação em massa. 

O continuum pode ser adotado por escolas que já retornaram presencialmente, mas também para aquelas que estão no ensino remoto. Para Adriana, o benefício trazido pelo modelo é que ele tira a ideia de que o ano educativo deve acabar junto do ano civil. “O continuum é a possibilidade de aprofundar conhecimentos [que não foram trabalhados da forma necessária em 2020]”, diz a gestora. “Não há um rompimento de aprendizagem de um ano para o outro”.

Saiba como apoiar na transição do Fundamental 1 para o 2

Em 2021 será preciso acolher os alunos egressos do 5º ano e reforçar o diagnóstico pedagógico. Você pode conferir também como duas escolas públicas em Mogi das Cruzes trabalham para fazer um transição tranquila para os alunos. 

Reorganizar a sala por grupos de interesse
Entendendo que os modelos de aprendizagem não devem ser vistos de forma isolada, ao adotar o conceito do continuum curricular, Adriana afirma que as escolas podem passar a organizar seus alunos por grupos de interesse e necessidade. “Se vou fazer uma pesquisa temática, então separo os estudantes por interesses no assunto ou até mesmo por necessidade: junto uma criança que tem um desenvolvimento melhor em leitura com outra que está no início”, sugere.

Salas heterogêneas a favor da aprendizagem

A organização por grupos de interesse ou necessidade é diferente de propostas que envolvem a divisão das salas por nível de aprendizagem, ou qualquer outro tipo de separação que possa causar exclusão de alunos – tais práticas de exclusão e classificação não são recomendadas. Apesar de praticada em cursinhos pré-vestibulares, Lino de Macedo indica que ela tem mais consequências negativas do que ganhos para a Educação. “Da mesma forma que a gente critica no contexto social a estratificação – pobre com pobre ou separação de um grupo racial, por exemplo – o mesmo vale para escola”. No século XX, segundo Lino, as escolas faziam a separação de alunos pelos mais e menos preparados. “Mas hoje já é reconhecido que uma criança que sabe mais aprende coisas importantes com a criança que sabe menos e o contrário também acontece”, explica. Além disso, Lino relembra que, da mesma forma, a inclusão de alunos com deficiência em escolas regulares parte do valor que a diversidade de saberes e da interação entre crianças com perfis diferentes pode proporcionar.

Reforço escolar
Uma ação que pode ser essencial para muitos alunos é a de um reforço pedagógico. Muitas escolas já têm adotado esse modelo ainda em 2020, mas para o novo ano letivo será necessário entender quais alunos precisarão de um acompanhamento mais intenso. "Não devemos fazer um reforço paralelo ou individualizado de todo o planejamento. Ele precisar estar integrado", aponta Adriana.

Aprendizagem personalizada
Lino de Macedo sugere também que as redes e escolas se preparem para fazer um planejamento e avaliação “quase que artesanal”, ou seja, considerando caso a caso. “Tivemos alunos que foram mais prejudicados pela pandemia, além do que cada estudante aprende de uma forma. A escola precisa trabalhar de modo a compensar as defasagens de cada um [considerando o contexto vivenciado na pandemia]”, aponta. Por isso, se aprofundar no conceito de aprendizagem personalizada, respeitando o ritmo e a forma de cada aluno aprender pode ser ainda mais essencial para os próximos anos.