Como as oportunidades podem transformar a carreira do professor

Cursos a distância, bolsas de estudo, cotas raciais e mestrados profissionalizantes abrem portas para a formação continuada. A professora Danúbia conta chances que marcaram sua trajetória profissional

POR:
Danúbia da Costa Teixeira
Crédito: Getty Images

No final de 2005, concluí a graduação em Letras e fui morar e trabalhar numa comunidade rural longínqua e de difícil acesso. Não havia acesso à internet, rede de celular, bibliotecas públicas ou nada que me auxiliasse a continuar meus estudos. Durante anos, sonhei em fazer uma especialização, mas a baixa oferta de cursos, os altos preços cobrados e a distância que teria que me deslocar para assistir às aulas, impediam a concretização desse sonho. Apenas em 2011, por meio da iniciativa Universidade Aberta do Brasil (UAB), tive a oportunidade de ingressar na primeira turma de especialização em Mídias na Educação, um curso semipresencial ofertado em universidade pública.

Para muita gente, parece difícil acreditar que há pessoas que não conseguem estudar pela dificuldade de acesso. Ver o mundo fora do contexto que nos cerca não é uma tarefa fácil. Mesmo com esforço, algumas situações só podem ser compreendidas quando vividas na própria pele. Além da distância, eu vivi outro desafio compartilhado por muitos brasileiros: ser negra em um programa de especialização acadêmica e não me ver representada entre meus colegas e professores. Segundo dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), no Brasil, apenas 1 em cada 4 matriculados nos programas de mestrado e doutorado é negro

Êxodo rural: um problema comunitário
Ao pensar em retornar aos estudos, uma das coisas que mais me afligia era pensar que  teria que me mudar. Percebi que esse problema não era apenas meu. Todos os dias olhava meus alunos e pensava sobre as opções de futuro deles: ficar aqui e parar de estudar, ou precisarão se mudar para outra cidade, aprender a viver em outro contexto, separar-se da família, das origens, e das atividades cotidianas a que estão acostumados para cursar uma faculdade. Parecia-me muito injusto – era como seguir incentivando o êxodo rural. Por isso, realizar esse curso por um programa semi-presencial foi tão importante. Além de um diploma, me deu esperança de que outras pessoas da minha comunidade pudessem estudar sem a necessidade de se mudarem para a "cidade grande".  

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A modalidade Educação a Distância (EaD) foi outro fator extremamente relevante no que se refere à acessibilidade e à criação de oportunidades mais equânimes. O Censo da Educação Superior de 2018, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), revela o crescimento da demanda: em 2018, 40% dos estudantes que ingressaram no Ensino Superior optaram por cursos a distância, sendo as licenciaturas as formações mais procuradas.

Tenho atuado como professora em alguns cursos na modalidade EaD e vejo uma série de vantagens como preços acessíveis, bons materiais e autonomia para que o estudante crie sua rotina de estudo. Porém, para mim, o principal ponto positivo é permitir que o aluno estude onde ele estiver, ou seja, é uma modalidade que dá acesso à Educação.

Continuar os estudos depois de estar em sala de aula
Depois da especialização, novamente fui acometida pelo desejo de continuar estudando. Vontade que sempre me persegue. Apesar da distância entre o lugar onde eu moro e o restante do mundo, eu continuo buscando oportunidades para cumprir meus objetivos. Foi assim que fiquei sabendo sobre os programas de mestrado profissional do Ministério da Educação e, em 2013, entrei na primeira turma do ProfLetras.

O diferencial desses programas de mestrado profissional, como o ProfLetras, o ProfMat e o ProfBio, é o fato de serem voltados exclusivamente para professores em exercício na rede pública de ensino. Entrar na academia não é uma tarefa fácil para ninguém, quanto mais para professores já em exercício. As dificuldades aumentam significativamente para aqueles que não residem em capitais. Participar de eventos acadêmicos, publicar em revistas científicas, construir um bom currículo Lattes ou saber como ingressar no mestrado, são etapas que podem intimidar e desmotivar os educadores. 

Infelizmente, no Brasil, há um grande abismo entre a academia e as escolas. Pesquisadores raramente têm acesso às rotinas e metodologias utilizadas em sala de aula, e os professores raramente têm acesso às teorias e estudos realizados nas universidades. Dessa forma, os programas de mestrado profissionais voltados para professores são de suma importância por minimizar essas lacunas e oportunizarem que os professores realizem pesquisas que vinculem a prática pedagógica às teorias, unindo as duas pontas - como deveria ser. Durante essa experiência, pude ver vários colegas meus tendo a oportunidade de continuar os estudos, se capacitando e fazendo pesquisa de qualidade a partir da realidade da sala de aula.

A oportunidade das cotas no doutorado
Por fim, para saciar meu eterno desejo de continuar estudando, ao terminar o mestrado fui buscar por uma oportunidade de ingressar no doutorado. Descobri, com tristeza, que não havia doutorados voltados para a formação de professores. Minha oportunidade veio em 2017, através da abertura de vagas para cotistas no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos (POSLIN) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Olhando para trás, tenho certeza: foi uma longa jornada até aqui. Mas, como uma grande otimista, percebo que as mudanças, embora tímidas e precárias, seguem ocorrendo. É animador saber que meus alunos, como muitos outros espalhados pelos rincões do Brasil, poderão estudar sem a necessidade de optar entre a migração e o diploma; que meus colegas de profissão podem seguir estudando; e que existem ações afirmativas que visam corrigir distorções históricas. Resta lutarmos para que nenhuma dessas conquistas seja tirada de nós. Por fim, é preciso ainda estar preparado para reconhecer e aproveitar as oportunidades no momento em que elas aparecerem, pois de nada adianta ter um sonho se você não estiver disposto a se mover para que ele se torne realidade. 

Danúbia da Costa Teixeira é mãe de dois filhos maravilhosos, irmã de três pessoas incríveis e filha de pais sensacionais. Além disso, é coordenadora do curso de Letras-Português da Faculdade Prominas de Montes Claros, Professora/Tutora da Faculdade Única de Ipatinga e professora da Escola Estadual Alberto Caldeira. Também é doutoranda em Linguística pela UFMG, mestre em Letras pela Unimontes e especialista em Mídias na Educação pela UFOP.

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