Crie sua conta e acesse o conteúdo completo. Cadastrar gratuitamente

Os conhecimentos matemáticos e as experiências das crianças na Educação Infantil

Uma reflexão sobre como as crianças, em contextos significativos para elas, podem se apropriar de relações quantitativas, medidas, formas e orientações espaciais e temporais

POR:
Evandro Tortora
Foto: Acervo Pessoal/Evandro Tortora

Quem é professor sabe que a gente nunca para de estudar e aprender dentro da nossa profissão. No meu caso, tenho dedicado boa parte das minhas experiências de estudo para investigar como os conhecimentos matemáticos tornam-se presentes em contextos da Educação Infantil.

Sou um professor de crianças pequenas que ama a matemática! Amo tanto que optei por fazer meu doutorado sobre aspectos da aprendizagem de conhecimentos matemáticos na etapa. Convido você, colega docente da Educação Infantil, a conhecer um pouco do que tenho estudado.

Esse não é um tema fácil de ser discutido, afinal buscamos uma forma de trabalhar com conhecimentos matemáticos junto às crianças de uma maneira que não antecipe a prática de “aulas de matemática” do Ensino Fundamental, mas que, por meio de uma prática intencional, elas se apropriem desses conhecimentos.

Tradicionalmente, costumamos pensar nos conhecimentos dentro de caixinhas: a caixinha da Matemática, da Língua Portuguesa, da Biologia, da Arte... Trata-se de uma maneira de pensar herdada da nossa época enquanto alunos do Ensino Fundamental e Médio. A ciência se desenvolveu dentro desses moldes em que há uma preocupação em aprofundar conhecimentos dentro de determinadas áreas.

Esse modelo disciplinar possibilitou que conhecimentos científicos avançassem e, dentro dos estudos na área da Educação, temos pensado em pedagogias que possibilitem a aprendizagem de todo esse conhecimento construído pela humanidade dentro de contextos educacionais. Porém, temos procurado tirar esses conhecimentos de suas caixinhas e contextualizá-los com a vida das pessoas.

Logo, qual seria o caminho a ser trilhado na Educação Infantil para trabalhamos com conhecimentos matemáticos com as crianças ou, partindo da provocação que faço na minha tese, “Qual o lugar da Matemática na Educação Infantil”?

Pensar em contextos da Educação Infantil que envolvam conhecimentos da Matemática, frente às demandas curriculares, é uma ação atrelada ao planejamento de práticas que valorizem as experiências das crianças, como propõe a BNCC.

Conheça o curso Jogos Matemáticos na Educação Infantil

Abaixo, você confere o curso organizado pelo colunista Evandro Tortora, autor desta coluna.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI) afirmam que a Educação Infantil deve garantir experiências que recriem “em contextos significativos para as crianças, relações quantitativas, medidas, formas e orientações espaço temporais”. Logo, é preciso entender que, ao pensar em Matemática, não estamos apenas falando de números. As relações que estabelecemos com o espaço e conceitos geométricos, com as práticas de medição, pensamento combinatório e probabilístico, por exemplo, fazem parte de tudo isso!

Na prática, podemos pensar ações que abrangem desde os bebês até as crianças pequenas. Ao propor aos bebês que explorem diferentes materiais que rolam e não rolam, organizando um espaço em que o bebê consiga se locomover e localizar seus pertences nele, mostrar aos pequenos a localização da sua sala em relação aos espaços da creche, conversar sobre o tempo cronológico das atividades diárias, brincadeiras que envolvam encher ou esvaziar com areia ou água diferentes objetos etc. São algumas práticas que, incluídas dentro das interações diárias, iniciam um trabalho intencional com conhecimentos matemáticos com os bebês.

Com as crianças bem pequenas, podemos ampliar as experiências já descritas e pensar práticas de contagem envolvendo crianças presentes e ausentes, trabalhar com estimativas ao distribuir uma quantidade de materiais para a turma, pensar em brincadeiras em que os números possam estar presentes e serem necessários (como na amarelinha), fazer uso intencional de diferentes instrumentos de medicação em situações diárias (como, ao medir o tempo, podemos usar uma ampulheta, um calendário, o relógio...), explorar a densidade dos objetos (coisas que afundam ou não afundam), fazer alguns registros de quantidades aliados a situações do cotidiano e que tenham significado para as crianças (como registrar a quantidade de crianças presentes na turma, o placar de um jogo ou outro número importante para a criança).

Já com as crianças pequenas, novamente podemos ampliar as experiências tidas anteriormente e colocar novas propostas. Os registros numéricos podem ganhar um caráter convencional, bem como as práticas de medição podem seguir para situações convencionais e não convencionais. Além disso, podem ser propostas explorações com balanças de pratos, construir gráficos e tabelas para serem lidos pelas crianças, explorar situações que envolvam o raciocínio combinatório (ao combinar diferentes roupas vestindo bonecas ou montar sanduíches com diferentes ingredientes), construir e explorar mosaicos com figuras geométricas, explorar a contagem pulando corda ou nas parlendas... São muitas possibilidades!

Podem perceber que não citei aqui exercícios de coordenação motora em que as crianças completam pontilhados ou que elas copiam números aleatoriamente. A ideia é se distanciar destas práticas e colocar situações em que conhecimentos matemáticos estejam atrelados às experiências das crianças que dialoguem com as concepções que temos sobre Educação Infantil.

Em um artigo que publiquei recentemente, eu discuti exatamente esse aspecto atrelado às práticas das crianças na minha realidade em que buscamos atrelar práticas da Pedagogia Freinet atreladas a aprendizagem de conhecimentos matemáticos. Acredito que esse é um bom caminho para pensarmos esses contextos de aprendizagem: as escolas e grupos de professoras e professores possibilitarem momentos de estudo e reflexão sobre o seu cotidiano e planejarem em conjunto novas formas de pensar a presença da matemática (ou outros campos de conhecimento) que não estejam alocados em “caixinhas” isoladas umas das outras, mas que possam ser percebidos ou inseridos nas experiências das crianças de forma intencional.

Há muito o que discutir sobre conhecimentos matemáticos e Educação Infantil! É um assunto que me fascina e ganha novas configurações de acordo com os estudos mais recentes sobre a educação de crianças.

Há alguns materiais que podemos consultar sobre o assunto para ampliar nossas discussões. Aqui na Nova Escola eu ministrei o curso Jogos matemáticos na Educação Infantil junto do meu parceiro Fernando Barnabé para discutir a inserção de propostas envolvendo de jogos na Educação Infantil. Também temos o curso Letramento Matemático na Educação Infantil em que são discutidos alguns aspectos básicos do trabalho com Matemáticas e crianças pequenas.

Para leitura, há muitas recomendações descritas no referencial teórico da minha tese “O lugar da Matemática na educação infantil” e outros livros gratuitos, como a obra “Outros olhares para a matemática: experiências na educação infantil” organizado pelos queridos colegas docentes na Universidade Federal de São Carlos (UFScar) Profa. Dra. Priscila Domingues de Azevedo e Prof. Dr. Klinger Teodoro Ciríaco. Nesse livro, os capítulos descrevem reflexões teóricas e práticas sobre práticas com matemática descritas docentes da Educação Infantil.

Para finalizar esse texto, compartilho a reflexão que fecha a minha tese. Afinal, qual o lugar da Matemática na Educação Infantil?

“A Matemática tem lugar na Educação Infantil, não o lugar de disciplina a ser ensinada como no Ensino Fundamental, nem como algo a ser aprendido unicamente na espontaneidade das brincadeiras, mas como produto da ação intencional do professor nas práticas pedagógicas da Educação Infantil. Trata-se de uma construção humana necessária nas práticas sociais do registro, da brincadeira, da literatura, do corpo, dos desenhos, da música e outros tantos contextos que dão significado à matemática que é vivida pelo ser humano”.

Talvez essa seja uma reflexão que valha não apenas para a Educação Infantil, não é? smile

Abraço carinhoso e até breve!

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

Tags

Guias