Como fica a BNCC no planejamento de 2021?

No meio de tantas incertezas, o documento pode orientar a reorganização das aprendizagens e repensar a prática do professor. A perspectiva, entretanto, é de que sejam necessários pelo menos dois anos para recuperar o que ficou para trás em 2020

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

Para quem trabalha com Educação, 2020 seria o ano da chegada oficial da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) à escola. Apesar de ofuscada pela pandemia do novo coronavírus, o documento que guia as aprendizagens essenciais ano a ano da Educação Básica teve o papel de apoiar o planejamento das redes no ensino remoto. "Não deixamos de usar o currículo alinhado à Base. Ela continuou sendo uma referência muito importante no processo de priorização curricular", diz João Paulo Derocy Cepa, consultor pedagógico de BNCC e currículo do programa Formar da Fundação Lemann, mantenedora de NOVA ESCOLA.

João acompanha mais de 28 redes públicas pelo país e identifica que, dentro das adaptações necessárias, houve um avanço nas formações de aprofundamento sobre a Base.  Apesar disso, a implementação dos novos currículos e a formação sobre o tema esteve longe de ser igualitária pelo país. "Aquelas com maior condição e estrutura conseguiram avançar com o tema, mas não dá para considerar uma implementação satisfatória se nem todas [as escolas] tiveram acesso", afirma Anna Helena Altenfelder, diretora executiva do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC Educação).

Anna Helena aponta que é necessário que as secretarias promovam uma discussão para repensar o currículo e a organização da escola para o próximo ano letivo. "É a partir da BNCC que vamos conseguir organizar [o planejamento] para que todos tenham o direito de aprender garantido", afirma a especialista. Dessa forma, a perspectiva para o próximo ano é fortalecer o documento como uma guia para o currículo das redes, dar continuidade (ou começar) o processo formativo dos professores e gestores, e fazer o acompanhamento da prática pedagógica alinhada ao documento.

Como fica o documento em 2021?
"2021 continua sendo um ano para trabalhar com as aprendizagens prioritárias", resume João. Quando se trata desse assunto os professores destacam ansiedades como: espera-se que sejam recuperadas todas as aprendizagens no próximo ano? Como dar conta dos conteúdos de 2021 e daqueles que ficaram para trás neste ano? Como fazer dois anos em um?

Falar de defasagem e recuperação de conteúdos ganhou uma nova dimensão após meses de pandemia. Para além dos conteúdos que foram despriorizados em 2020, os alunos também carregam defasagens anteriores. "É um buraco muito maior, não será resolvido em poucos meses. Não dá para colocar tudo na conta de 2021", afirma João. Anna concorda e aponta a necessidade de olhar para o médio prazo: “Mesmo que tenha aumento da carga horária, será muito difícil [recuperar tudo]. Tem um limite do que o aluno consegue absorver, tem um tempo de assimilação que não pode ser acelerado”.

Para especialistas, será necessário 2022 – ou até 2023 – para dar conta das defasagens. João conta que as estratégias internacionais também trabalham com essa perspectiva. "A retomada das aprendizagens não será de um ano para o outro. O Chile propõe uma flexibilização curricular de três anos. A Argentina olha para 2023, o Equador também", diz João.

Vale ressaltar que para fazer essa reorganização a médio prazo é preciso levar em consideração o tempo disponível do aluno na escola – ou seja, os desafios para cada etapa serão diferentes. Pensar em um prazo de recuperação de três anos pode funcionar para os Anos Iniciais do Fundamental, mas para os Anos Finais e Ensino Médio pode ser necessário adotar estratégias diferentes – como por exemplo, a ação da Secretária Estadual de São Paulo de propor o 4º ano do Ensino Médio como opcional. Por isso, é necessário se debruçar na realidade de cada ano e de como a rede conseguiu articular o ensino remoto.

Além da perspectiva de uma recuperação nos próximos, os especialistas também apontam estratégias possíveis para tirar o maior proveito de 2021. Prever avaliações diagnósticas no começo do ano para ter um panorama real das defasagens; fazer um bom planejamento do tempo do aluno; investir em atividades fora do horário escolar – por exemplo, utilizando o contraturno –; apostar na aprendizagem por par, ou seja, alunos com níveis diferentes de aprendizagem se apoiando; reorganizar e inovar na organização as turmas; e separar em grupos menores em certos momentos, por exemplo, são algumas ações recomendadas. Além dos desafios pedagógicos, é preciso lembrar que, depois do intenso isolamento social, há necessidade de planejar também ações para fortalecimento do vínculo dos alunos e famílias com a escola, fazer busca ativa para evitar a evasão, manter a articulação com a comunidade, e fazer um acolhimento amplo (veja aqui 6 pontos para organizar a volta dos estudantes depois da quarentena).

Pensando nisso, João sugere que as redes foquem em três frentes que envolvem professores e gestores: a primeira é garantir o bem-estar físico e emocional da equipe escolar e dos alunos; focar na recuperação das aprendizagens; e se preparar para trabalhar em diferentes cenários. "É preciso começar 2021 com um bom planejamento, mas ter flexibilidade de modelo de trabalho [presencial, híbrido e remoto] e ter planos A, B e C para estar preparado. Precisamos transitar por esses modelos com certa rapidez", afirma.

Como conduzir a retomada das aulas presenciais

Neste Nova Escola Box encontrará conteúdos para pensar os cenários previstos para a retomada das aulas presenciais - após o distanciamento imposto pela pandemia de Covid-19. E oferecer estratégias e recursos para o replanejamento.

Para refletir e repensar sobre a prática
“Precisamos recuar um ou dois passos para enxergar melhor o caminho para os próximos mil passos. Precisamos aceitar que isso não é perder, mas sim replanejar para vencer", defende Kátia Chiaradia, pós-doutoranda na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), professora-autora do Time de Autores NOVA ESCOLA e formadora de professores. A partir desse exercício, ela sugere que o educador se faça duas perguntas: onde quero que meus estudantes cheguem ao final do ano? E o que eu tenho para me apoiar a colocá-los lá? A partir das respostas, será possível identificar qual é o objetivo possível e significativo para trabalhar com aqueles estudantes.

Apesar das incertezas, até este momento já há alguns caminhos para pensar o próximo ano. Entre eles, é preciso rever a organização do currículo, investigar a defasagem dos alunos e entender que 2021 possivelmente não tornará possível recuperar todas as aprendizagens e ainda será necessário elencar as prioridades.

Para ajudar nesse exercício de priorização, entenda aqui como elencar as habilidades essenciais com a sua turma. Outro material que também auxilia na tarefa são os mapas de foco, criados pelo Instituto Reúna, que elencam as aprendizagens prioritárias de cada ano do Ensino Fundamental a partir da BNCC – os arquivos podem ser baixados gratuitamente aqui. A partir do estudo do documento, eles sugerem a progressão de habilidades a serem priorização e elencam três objetivos de aprendizagem esperados para cada uma delas. Dessa forma, os mapas de foco apoiam no replanejamento, mas não são um planejamento em si, ainda caberia ao professor pensar na duração e forma de trabalhar.

Mapas de foco na prática

Os mais de 6 mil planos de aula NOVA ESCOLA passaram por revisões em 2020 para atender sugestões de adaptações das atividades para o ensino remoto e, em breve, atenderão também aos mapas de foco. "Entendemos que a priorização das habilidades é fundamental para que os professores consigam aproveitar, da melhor maneira possível, as interações com os alunos, tanto remotamente quanto em contexto híbrido", afirma Wellington Soares, coordenador dos planos de aula NOVA ESCOLA.

Em breve, será possível encontrar essa funcionalidade na nossa plataforma. Dessa forma em um único lugar encontrarão as habilidades a serem priorizadas e a atividade que pode ser desenvolvida. "Depois disso cada professor pode fazer aquilo em que é bom: olhar para seus alunos e decidir quais daqueles materiais serão usados, em quantas aulas e de que maneira", explica a professora Kátia, uma das responsáveis pelo trabalho de fazer o cruzamento entre os mapas de foco e os planos da NOVA ESCOLA. Embora, a funcionalidade ainda não esteja disponível, já é possível encontrar os planos de aula por meio de pesquisa de habilidades da BNCC.

Na prática: reinventar a prática no meio do caos e incerteza
Durante o ensino remoto, a professora Simone Matias de Souza Monteiro, que dá aula para o 5º ano na EMEIEF Guadalupe, em Porto Velho (RO), trabalhou com aulas por vídeo e orientações das atividades enviadas via WhatsApp. "Não foi nada fácil. Não tem outra palavra além de reinvenção. Reinvenção todos os dias como professora. Está muito complicado", relata a educadora.

Além dos desafios de se adaptar para a realidade atual, a sua turma já apresentava grandes dificuldades e a professora não encontrou o apoio que precisava nas famílias, por isso, ela relata que o desafio de garantir as aprendizagens se tornou maior. "Se dentro da sala de aula, com o professor, já havia perdas [de defasagem de conteúdo], imagina nessa condição [de ensino remoto]?", questiona.

Sobre 2021, ela ainda não sabe como será. A perspectiva é se dividir entre o ensino remoto e o presencial. Quando chegar o momento de pensar as atividades, ela entende que a BNCC será importante, bem como o apoio da gestão escolar e da secretaria. "Com a priorização das habilidades que recebemos da secretaria foi bem melhor o desenvolvimento do segundo semestre", conta. Para o ano que vem, apesar das incertezas, ela já planeja algumas atividades que não foram possíveis de serem realizadas neste ano, como o seu projeto Notícia na Mala. A proposta é que os alunos conheçam os gêneros textuais do jornal e possam produzir textos dentro dessas características. Cada aluno teria seu caderno e uma mala com suas produções. "No ano que vem, eu tenho a plena convicção que vou conseguir trabalhar com essa mala de notícias", afirma a professora.

Quer saber mais sobre como replanejar suas aulas com a BNCC?
No Nova Escola Box, você encontrará uma série de caixas digitais especiais com materiais que irão te ajudar nesse desafio. Encontre sua etapa e displina aqui:

Educação Infantil
Replanejar para bebês: como apoiá-los durante o isolamento
Replanejar para crianças bem pequenas: como envolver a família
Replanejar para crianças pequenas no isolamento
Replanejar para bebês: como organizar o retorno
Replanejar para crianças bem pequenas: como organizar o retorno

Replanejar para crianças pequenas: como organizar a volta
Apoiando a transição para o Fundamental na pandemia
Preparando a volta em parceria com as famílias
Como apoiar crianças de regiões vulneráveis na pandemia
Como avaliar o trabalho com as crianças durante e após a pandemia

Anos Iniciais do Fundamental 
Língua Portuguesa: como replanejar 2020 a alfabetização
Língua Portuguesa: como replanejar 2020 o 4º e 5º ano
Matemática: Como replanejar 2020 para 1º ao 3º ano
Matemática: como replanejar 2020 para 4º e 5º ano
História: como replanejar 2020 no Fundamental 1
Geografia: como replanejar 2020 nos anos iniciais do Fundamental
Ciências: como replanejar 2020 no Fundamental 1
Arte: como replanejar 2020 com as turmas do Fundamental 1
Educação Física depois da quarentena: tem volta?
Como avaliar as aprendizagens no Fundamental I

Anos Finais do Fundamental 
Língua Portuguesa: como replanejar 2020
Matemática: como replanejar 2020 no Fundamental 2
História: como replanejar 2020
Geografia: como replanejar 2020 no Fundamental 2
Ciências: como replanejar 2020 com a BNCC no Fundamental 2
Língua Estrangeira: como replanejar 2020 nas aulas de Inglês
Arte: como replanejar 2020 no Fundamental 2
Educação Física: como replanejar 2020 no Fundamental 2
Desenvolvendo projetos interdisciplinares no contexto remoto
Veja estratégias para avaliar as aprendizagens no Fundamental II