Literatura internacional: 5 livros escritos por autores africanos

Diversificar os escritores permite enriquecer a experiência com a leitura e conhecer outras culturas e histórias

POR:
Paula Salas, Duda Oliva
Créditos: Getty Images

Os livros são capazes de nos transportar para outros lugares e épocas. Eles podem nos apresentar cenários e histórias fantásticas baseadas em fatos e acontecimentos. A riqueza da literatura está em conhecer cada universo criado pelos autores. E por isso, diversificar os autores que entramos em contato nos permite ter um número maior dessas experiências. Essa é uma dica dada por muitos especialistas para estimular o hábito da leitura - inclusive dos alunos: explorar histórias além das escritas por autores brancos norte-americanos ou de países europeus. 

Para te ajudar nessa aventura, separamos 5 livros de autores que criam suas narrativas em países africanos como Nigéria e Uganda, conheça: 

1. O mundo se despedaça, Chinua Achebe
Considerado um dos romances africanos mais importantes do século XX, a obra de Chinua inaugura uma fase da literatura nigeriana. Neste livro, o autor retrata a colisão entre a cultura tribal e a do homem branco europeu. A narrativa traz a história do bravo guerreiro Okonkwo, pertencente à etnia ibo. Na primeira parte apresenta a cultura que o protagonista está inserido, sua história e personalidade. Depois, relata a chegada dos colonizadores na tribo de Ibolândia e a desintegração daquele clã com a imposição do cristianismo e organização política e social. Dessa forma, o autor traça a tensão entre a resistência da cultura local, representada por Okonkwo, e as novas crenças e valores que passam a ganhar seguidores próximos do protagonista. 

Publicado em 1958, dois anos antes da independência da Nigéria, Chinua conta a história do país e as transformações sofridas com a chegada dos europeus. 

Curso: Literatura no Ensino Fundamental 2

Não sabe como aproximar os alunos do Ensino Fundamental da literatura? A proposta deste curso é discutir estratégias didáticas que contribuam para a formação de adolescentes que sejam leitores literários, por meio da apresentação de gêneros que dialogam com a realidade deles.

2. O que acontece quando um homem cai do céu, de Lesley Nneka Arimah
"Quando Enebeli Okwara enviou sua filha ao mundo, ele não sabia o que o mundo fazia com as garotas. Não sabia quão rápido lhe tiraria o orvalho, como a devolveria oca, como tiraria dela o que ela tinha de melhor". De forma sucinta e melancólica, Lesley abre um de seus contos falando do peso das relações familiares e a pressão sob a condição feminina negra que permeia sua obra.

Cada mergulho na coletânea da autora revela mundos agridoces em que os personagens precisam lidar com situações reais ou ficcionais e de consequências (ou significados) concretas e físicas. Em cenários que se alternam (uma floresta folclórica com deuses e ninfas, um subúrbio pobre e mágico nos tempos atuais e uma Nigeria futurista pós-guerra-biológica), todas as histórias exploram contextos como: as cicatrizes de relacionamentos abusivos, o desejo nunca atendido de ser mãe, as pressões dos pais sobre os filhos, as relações, por vezes doce, por vezes dura entre irmãs, o afeto ambíguo entre pai e filha. 

Lesley costura os textos de forma ágil, como se tivesse pressa em dar voz a tantas personagens. Os contos acontecem de forma repentina, como se a história tivesse começado e o leitor chegou atrasado para o relato. Aos poucos, nas falas dos personagens, em suas roupas, no ambiente que os cerca, vamos completando este quadro, até um ponto de desfecho que não encerra a história, mas encerra nossa visita: cada conto é como um encontro breve, um momento de tangência entre nós e estas narrativas breves. 

Vencedora de prêmios como Kirkus (2017), Caine de Escrita Africana (2017) e do Commonwealth para Contos Curtos Africanos (2015) a autora, nascida no Reino Unido, mas criada pelos pais na Nigéria, traz em sua obra uma relação extremamente potente com o país africano, usando esta herança para refletir sobre o sociedade nigeriana, a colonização cultural europeia e os papéis (assumidos e infligidos) às mulheres negras. Uma leitura profunda nos fazendo refletir sobre como moldamos nossas relações e somos moldados por elas! 

3. Nossa senhora do Nilo, de Scholastique Mukasonga
Este livro foi indicado pela Bruna Paiva de Lucena, professora na rede pública do Distrito Federal e pós-doutora Linguística Aplicada na Universidade de Brasília (UnB), no Nova Escola Box. O título pode criar dúvidas sobre o que se trata. A narrativa se passa em uma escola de elite para meninas que fica perto da nascente do Rio do Nilo, na Ruanda. Lá há um sistema de cotas em que 10% das alunas devem ser da etnia tutsi. O pano de fundo da obra é o tenso cenário político de disputa entre as etnias tutsis e hutu. 

A narração dos capítulos passa pela vida de algumas das estudantes. O leitor conhece a história das meninas, suas vivências, os valores sociais - por exemplo, as meninas pertenciam a famílias ricas e eram “preparadas” para conseguir um bom casamento - seus dramas pessoais e aventuras, e como a conjuntura do país refletia na sua vida conforme pertenciam a uma etnia. Com uma linguagem acessível, a autora traça, dentro daquele universo, a tensão racial que acontecia no país africano - que logo se tornaria o genocídio do povo tutsi em 1994, quando o país vivia a sua Guerra Civil. Quem se interessar pelo livro, e por saber mais sobre esse momento histórico, também está a indicação do filme Hotel Ruanda, de 2004. 

Por que diversificar a autoria dos livros que são trabalhados na escola?

Neste Nova Escola Box apresentamos a importância de variar os autores que são apresentados para os alunos e como fazer boas escolhas. Conheça também um projeto que valoriza a leitura de livros escritos por mulheres. 

4. Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie
É possível que já tenha ouvido falar da Chimamanda Ngozi Adichie. A autora nigeriana ganhou muito destaque nos últimos anos, principalmente com seu livro Americanah. Com livros publicados de não-ficção e ficção, a escritora tem uma variedade de narrativas. Entre elas está “Meio Sol Amarelo”, que retrata um período importante para o país. 

Neste romance, Chimamanda retrata o que foi a Guerra Civil Nigeriana (1967-1970) que dividiu o país na tentativa de criar o estado de Biafra - cuja bandeira era um meio sol amarelo, por isso o título do livro. A narrativa é contada a partir do ponto de vista de quatro personagens: Ugwu, Olanna, Odenigbo, e Richard. Conhecemos a história dos protagonistas no período anterior à guerra e acompanhamos as transformações e horrores vividos por aquele grupo durante o período de conflito até a desintegração do estado independente em 1970. 

O livro é uma ótima oportunidade para conhecer mais a história da Nigéria, além de ter acesso a personagens ricos e uma narrativa envolvente. Outra boa indicação para quem quiser conhecer mais obras de Chimamanda é o livro “Hibisco Roxo”, ele traz a adolescente Kambili como personagem central e traça um panorama cultural, social e político do país após a independência do país. 

5. As alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta
Talvez você lembre desta indicação. No primeiro texto do Leitura de Cabeceira, ele foi citado como um dos livros mais marcantes, por isso não podia ficar de fora desta lista. A obra de Buchi Emecheta não é uma narrativa apenas sobre maternidade. Ele retrata os valores e cultura da Nigéria do século passado, as marcas deixadas pelo colonialismo, a perspectiva das cidades criadas para que os europeus morassem como um lugar de prosperidade, o impacto da 2ª Guerra Mundial no país e muito mais. 

Nesse cenário cultural, social e político, a autora apresenta a história de Nnu Ego, que sai de sua aldeia para morar com o marido em Lagos, capital da Nigéria, onde ele trabalha lavando roupa na casa de um dos colonizadores. A narrativa discute o lugar da mulher na sociedade, a ideia da “mulher completa” - que é atingida apenas ao se tornar mãe - as alegrias (e desilusões) da experiência de Nnu Ego com a maternidade. É um livro envolvente do começo ao fim, que trata sobre assuntos difíceis e complexos, mas de uma forma sensível e real. Quem se interessar pela autora, já foram traduzidos para o português outros livros de Buchi como o “Cidadã de segunda classe” e “No fundo do poço”.

Tags

Guias

Tags

Guias