Para entender o ensino híbrido em 14 perguntas

Conheça a proposta do modelo, suas características e como ele se dá na prática. Tire suas dúvidas

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

Em 2020, o novo coronavírus mudou o jeito de existirmos em comunidade: uso obrigatório de máscara para sair na rua, isolamento social, escolas vazias, professores ensinando a distância por meio de tecnologia e de materiais impressos. Depois de uma longa temporada de ensino remoto e com a expectativa de uma vacina em 2021, um novo caminho começa a ser mapeado pelas escolas para dar conta do desafio do retorno presencial: o ensino híbrido.

O termo não foi criado neste ano, mas diante do desafio do retorno, ele ganha força na agenda docente. Como o próprio nome sugere, se trata de um modelo de ensino em que a aprendizagem é obtida mesclando formatos: neste caso, modelos mais tradicionais de propostas escolares (como a leitura de materiais de texto e aulas expositivas) são combinadas com formatos mais inovadores (como discussões coletivas e atividades de pesquisa prática) e, ao longo do processo, há tanto atividades offline quanto propostas digitais. 

Para te ajudar a entender os conceitos que definem esse modelo de ensino, preparamos 14 respostas sobre o tema. Confira e entenda mais:

 1. O que é ensino híbrido?
Conceitualmente, o ensino híbrido é considerado um programa educacional em que o aluno aprende uma parte pelo ensino online, em que ele controla o tempo, lugar, modo e/ou ritmo estudo. A outra parte dos estudos acontece em um ambiente físico (fora de sua casa) sob a mediação de alguém (o professor, neste caso).

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2. Quais são as principais características do ensino híbrido?
O modelo híbrido mescla estratégias presenciais com on-line, coloca o aluno como protagonista da aprendizagem, transforma o professor em mediador do conhecimento, e permite a personalização do ensino de forma a atender melhor às necessidades individuais de aprendizagem dos alunos.

3. Quais os benefícios do ensino híbrido?
O ensino híbrido se relaciona muito com a forma como aprendemos: "Falar em Educação híbrida significa partir do pressuposto de que não há uma única forma de aprender e, por consequência, não há uma única forma de ensinar. Existem diferentes maneiras de aprender e ensinar", explicam Lilian Bacich e José Moran neste artigo. Dessa forma, é um modelo que amplia as formas que o aluno tem para atingir aquele conhecimento. Além disso, permite o desenvolvimento de habilidades transversais ao currículo como autonomia e protagonismo na construção do conhecimento.

4. Quais as transformações que o ensino híbrido traz para a Educação?
Os especialistas apontam que o futuro da Educação, que foi acelerado pela pandemia e o ensino remoto, deve nos levar para modelos híbridos e mais flexíveis de ensino. Essa mudança é significativa para a relação entre o aluno e professor. O aluno se torna protagonista do processo de construção do conhecimento ao assumir que parte da aprendizagem se dá no percurso individual do aluno e na relação que ele desenvolve com o todo, na escola. Nesse contexto, o professor assume o papel de mediador da aprendizagem e instiga o desenvolvimento de habilidades que guiem os estudantes na construção do conhecimento. Propostas interdisciplinares, metodologias ativas e a presença das ferramentas tecnológicas também ganham um maior destaque e colaboram para a execução dos modelos híbridos.

Curso: Ensino Híbrido e Aprendizagem Baseada em Projetos

Neste curso, a formadora e especialista em metodologias ativas Lilian Bacich apresenta estratégias, como sala de aula invertida e rotação por estação de aprendizagem, que promovem maior engajamento dos alunos por meio de uma participação mais ativa na construção de conhecimento.

5. Qual é o papel do professor no ensino híbrido?
Apesar do estudante ganhar protagonismo e autonomia, o professor não perde sua importância. Ele continua sendo uma peça fundamental para a construção do conhecimento. Ele é mediador de todo o processo de aprendizagem dos alunos. Com as dinâmicas dos modelos híbridos, o professor tem mais tempo para dedicar a tirar as dúvidas e fazer um acompanhamento próximo e individualizado, possibilitando a personalização do ensino – um dos objetivos do ensino híbrido.

6. Quais são os modelos de ensino que são possíveis no ensino híbrido?
dois modelos híbridos: os sustentados, mais próximos do tradicional, isto é, requerem menos modificações na forma tradicional de ensino, e os disruptivos, que representam uma quebra em relação a forma anterior de trabalhar, ou seja, requerem modificações mais significativas na forma de trabalho do professor e da escola. Conheça os modelos sustentados e disruptivos, respectivamente, nas perguntas 7 e 8.

7. Quais são os modelos sustentados?
Os três modelos mais conhecidos são chamados de: 

- Sala de aula invertida
Neste formato, o professor envia previamente para os alunos estudarem o conteúdo que será trabalhado em sala de aula. Assim, os alunos usam o espaço da casa para fazer leitura de materiais e terem o contato inicial com o tema e, na escola com o professor e a turma, tiram dúvidas, resolvem atividades e aplicam aquele conhecimento de forma prática. Há, portanto, uma inversão do que acontece tradicionalmente na escola e em casa, de onde surge o nome do modelo: sala de aula invertida.

- Laboratório rotacional
A turma é dividida em dois grupos. Uma parte realiza atividades de forma autônoma, com apoio de ferramentas digitais, e o outro fica em sala com o professor e tem a oportunidade de trabalharem mais próximos tirando dúvidas.

- Rotação por estações
Este modelo prevê que a sala seja dividida em estações de aprendizagem com propostas diferentes mas que sejam complementares entre si. Os alunos circulam por cada estação e o professor atua como mediador e intervém quando necessário.

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8. Quais são os modelos disruptivos?
São aqueles que representam uma ruptura maior com o formato da sala de aula tradicional. Entre os principais modelos aparecem:

- Rotação individual
Aqui, as necessidades de cada aluno ganham destaque. O planejamento do professor é focado nas demandas dos alunos, o que significa, que ele irá produzir atividades variadas considerando a heterogeneidade da turma e os alunos com perfis ou necessidades semelhantes desenvolverão propostas focadas no seu grupo. Este modelo pode ser interessante em turmas com alunos com diferentes níveis de aprendizagem.

- Flex
Semelhante a como algumas escolas trabalharam durante o ensino remoto, neste modelo os alunos recebem roteiros digitais. Uma parte das atividades são realizadas acompanhado pelo professor e outras ele trabalha em projetos com os colegas ou em uma atividade off-line. Aqui misturam-se momentos individuais e outros que são coletivos on-line 

- À la carte
Este modelo é o que mais foge da realidade da Educação brasileira. Nele, o aluno escolhe e organiza os seus estudos a partir de seus interesses e objetivos, com optativas. No modelo à la carte, pelo menos uma das disciplinas é realizada on-line.

- Virtual aprimorado (ou virtual enriquecido)
Todas as disciplinas acontecem on-line e o estudante vai presencialmente apenas para realizar projetos e discussões com base naquilo que foi visto online. Quando estão na escola, é também o momento de verificar como anda a aprendizagem dos alunos.

9. Todos esses modelos são possíveis na realidade brasileira?
Sim. Segundo Fernando Mello Trevisani, pesquisador, consultor educacional e professor da pós-graduação em Metodologias Ativas do Instituto Singularidades, todos são possíveis de serem implementados. Entretanto, o indicado é começar pelos modelos sustentados (explicados na pergunta 7), porque são os mais próximos da prática do professor e do modelo de escola atual, ou seja, requerem menos modificações na prática. No entanto, com a retomada gradual, é possível que sejam necessários aderir modelos disruptivos, pela necessidade de aproveitar melhor o tempo de aprendizagem em casa e lidar com diferentes níveis de aprendizagem dentro das turmas. Por isso, é interessante conhecer as diferentes opções de modelos e verificar quais podem ser as mais adequadas dentro da sua realidade.

10. Se a escola está mesclando ensino remoto com presencial, ela está praticando o ensino híbrido?
Não. Para ser ensino híbrido é preciso que o trabalho realizado no presencial e no remoto dialoguem, ou seja, é preciso ter um planejamento estratégico. Isto é, seguir metodologias híbridas. É preciso garantir o cumprimento das características apresentadas nas perguntas 1 e 2. 

11. Transmitir para os alunos que estão em casa as aulas que estão acontecendo presencialmente pode ser considerado um modelo de ensino híbrido?
Também não. A transmissão simultânea das aulas presenciais para quem segue no ensino remoto integra um planejamento híbrido da retomada presencial das atividades escolares, mas não é um modelo de ensino híbrido. Este modelo é mais do misturar ensino presencial e remoto, ou dar acesso à aula para os alunos que estão a distância. Para ser um modelo híbrido é preciso garantir o cumprimento das características apresentadas nas perguntas 1 e 2. 

12. Quais ferramentas utilizar para o ensino híbrido?
As ferramentas utilizadas para o ensino remoto podem ser aproveitadas para o ensino híbrido. Durante a pandemia, NOVA ESCOLA realizou diversas reportagens e cursos explicando como utilizar ferramentas como o Google Drive, Flipboard, Padlet, Instagram, Facebook e outras que invadiram o planejamento escolar. Se quiser se aprofundar sobre recursos tecnológicos que podem te ajudar neste novo desafio, baixe gratuitamente nosso guia com mais de 100 dicas para planejar e inovar nas aulas no ensino híbrido ou remoto.

13. O ensino híbrido é obrigatório para o retorno presencial?
Não, ele não é obrigatório. Cabe a cada rede, escola e professor considerar práticas e formas de ensino e aprendizagem que considerem o desafio de suas turmas. No entanto, o ensino híbrido pode ser bem aproveitado com escolas que estejam fazendo escalonamento dos alunos - entenda aqui como funciona - para evitar aglomerações na retomada presencial.

14. É preciso planejar atividades diferentes para quem está presencialmente e on-line?
No ensino híbrido existe um planejamento complementar daquilo que deve ser aprendido no presencial e o que deve ser contemplado no virtual. Dessa forma, é necessário ter um planejamento específico para cada ação, mas as duas aprendizagem devem se conectar.

PARA SABER MAIS
VÍDEOS
Palestra de Lilian Bacich sobre ensino híbrido
Canal no Youtube Ensino Híbrido: aqui encontrará diversos vídeos que apresentam o modelo híbrido.
ARTIGOS
Aprender e ensinar com foco na educação híbrida, por Lilian Bacich e José Moran.
Metodologias ativas e modelos híbridos na educação, por José Moran 
LIVROS
Ensino Híbrido: Personalização e tecnologia na Educação, de Adolfo Tanzi Neto,  Fernando De Mello Trevisani e Lilian Bacich.
Blended: Usando a Inovação Disruptiva para Aprimorar a Educação, de Heather Staker e Michael B. Horn