Matemática: como trabalhar medidas na sala de aula invertida

Selene Coletti, professora e colunista de NOVA ESCOLA, compartilha sua proposta de trabalho para colocar a modalidade em prática na retomada presencial das aulas

POR:
Selene Coletti
Foto: Getty Image

No artigo anterior, ou como costumo dizer, na nossa conversa anterior, falei do ensino híbrido como uma das alternativas no retorno presencial às escolas. Um dos modelos híbridos é a sala de aula invertida ou aula invertida que, diante do atual cenário de início da retomada presencial, é um bom caminho possível a ser adotado.

Segundo alguns autores, a sala de aula invertida é o modelo mais simples para dar início a implantação do ensino híbrido. Sabemos que quebrar paradigmas do nosso cotidiano e colocar o aluno no centro da aprendizagem, não é uma tarefa simples, mas com um bom planejamento é uma estratégia poderosa para professores e alunos. Vamos lá?

Para começar: o que é a sala de aula invertida?
Você já deve ter ouvido falar em sala de aula invertida, mas vale explicar: em linhas gerais, a proposta do modelo híbrido é baseada no conceito da inversão do que seria feito em casa e o que seria feito em sala de aula. Ou seja, os textos que geralmente são lidos em sala e as tarefas que são feitas em casa trocam de lugar no processo do ensino e aprendizagem: o aluno assume a responsabilidade pelo estudo teórico e a aula presencial é usada para o aprofundamento prático dos conceitos estudados, debates e resolução de problemas que são feitos nas parcerias entre professores e colegas.

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Com a transferência do que seria explicado em sala de aula pelo professor para o digital, há também uma personalização do processo de aprendizagem já que ela permite aos alunos acesso aos materiais em seus próprios ritmos.

PARA SABER MAIS
A ideia da sala de aula invertida surgiu em 1991 com o precursor dos estudos dessa prática, Eric Mazur. O modelo consistia em leituras prévias de materiais para discussão e realização de testes em classe. Esse formato foi evoluindo até que a tecnologia entrou em ação, em 2004, quando Salmann Khan, a pedido de sua prima, gravou vídeos e fundou a Khan Academy, popularizando a aula invertida.

A proposta, como vocês podem observar, é exatamente o contrário do que acontece na concepção de ensino tradicional na qual os professores explicam os conceitos e solicitam que os alunos façam em casa o aprofundamento por meio de leituras e atividades.

No planejamento das atividades, é importante ter em mente que a proposta é que o aluno esteja no centro do processo e tenha um papel ativo no processo de ensino e aprendizagem. Por isso, é preciso incluir nas propostas o desenvolvimento de habilidades cognitivas como as socioemocionais. Desta forma, você permite ao estudante que coloque em jogo tudo o que sabe e construa a partir das trocas com o outro, não só o conhecimento do componente curricular, mas também a motivação, a resiliência, a perseverança, a colaboração e a criatividade.

Abaixo você pode ver um quadro que mostra o papel do professor, dos alunos e as habilidades envolvidas no modelo da sala de aula invertida. Essa imagem faz parte de um material que permite revisitar ou mesmo conhecer um pouco sobre este modelo. Clique aqui  e descubra.

Veja na prática como inverter a sala de aula
Tenho certeza que você deve estar pensando “como vou colocar tudo isso em prática?”. O planejamento é essencial para que a sala de aula invertida atinja seus objetivos de aprendizagem. Na primeira etapa é importante que o aluno esteja engajado com a atividade antes de chegar na sala presencial. Por isso, selecione algum material que dialogue com a sua aula e que possa ser consumido previamente em casa, com apoio da tecnologia (vídeos ou mesmo podcasts próprios ou já disponíveis na internet).

O material escolhido é só a porta de entrada da sala de aula invertida. As propostas em sala são mais importantes, mas um bom vídeo (ou outro material de escolha do professor) precisa abrir a conversa para questionamentos, discussão e resolução de problemas, que acontecerão na escola.

Para exemplificar, escolhi o tema “medidas”. Assim, você pode se inspirar para criar a sua aula na volta à escola presencialmente com este ou outro tema que fizer sentido com o conteúdo planejado para sua turma. Portanto, vou compartilhar com vocês o como para que, independente do ano que você atue, possa aderir à sua realidade.

A ideia dessa proposta surgiu a partir da conversa com duas colegas formadoras sobre o trabalho com medidas que acaba ficando, muitas vezes, desconectado da vida cotidiana do aluno.

Para este tema, escolha um vídeo sobre os instrumentos de medidas e as medidas de capacidade. Você poderá criá-los do seu jeito e de acordo com as especificidades da sua turma. Ao assistir o material, solicite que as crianças anotem as aprendizagens e dúvidas sobre o que ouviram. Essas anotações serão levadas para a escola. Se elas não estiverem acostumadas a este tipo de proposta é preciso ensiná-las a fazer. Fale que pode ser necessário assistir mais de uma vez, anotar as dúvidas, bem como o que estão aprendendo. Você poderá fazer um pequeno roteiro para guiá-las neste momento atendendo às necessidades de orientações para cada faixa etária.

Ainda entre as tarefas realizadas em casa, as crianças precisarão pesquisar com os pais ou responsáveis como medem os ingredientes de uma receita e de medicações líquidas. Depois da pesquisa, elas devem anotar as respostas.

Já em classe, organize uma roda de conversa, respeitando o distanciamento. Lembre-se de planejar boas perguntas para ajudar a reforçar o que eles já sabem e a construir novos conceitos, abrir espaço para dúvidas e trocas. São oportunidades para que os alunos pensem sobre as informações contidas no vídeo e ampliem suas perspectivas e conhecimentos sobre o tema.

Na sequência, abra uma discussão sobre as maneiras de medir os ingredientes da receita e do remédio. Neste momento, por exemplo, você pode solicitar os dados que registraram em casa. Questões do tipo “quando é preciso saber a medida exata de algo?” e “quando a medida pode ser aproximada?” irão ajudar na reflexão.

A ideia aqui é discutir sobre a importância da padronização das medidas e os efeitos de quando as mesmas não são utilizadas. Por exemplo: quando usamos um tipo de xícara ou copo ou colher e isso pode afetar a qualidade (textura, consistência, sabor ou funcionalidade, por exemplo) do que está sendo feito.

Conheça casos reais do ensino híbrido na aula de Matemática

Precisa se inspirar para criar suas aulas no formato de ensino híbrido? Leia a história de uma professora que usou dados dos alunos para planejar a Matemática e acesse duas sugestões de atividades para o Fundamental 1.

Você poderá trazer para classe ou pedir que cada aluno traga colheres e xícaras dosadoras. Eles podem comparar com diferentes copos, xícaras e colheres, questionando se a quantidade será a mesma. Pode também trazer o copo graduado (aqueles comprados que indicam medidas) e anotar os valores de capacidade correspondentes a cada um, aumentando a discussão sobre a precisão e padronização das medidas usadas. Para as crianças menores, proponha a pergunta “quanto cabe numa xícara”, isso permitirá ampliar a visão sobre a quantidade que cabe dentro da xícara, já que muitas vezes as crianças menores acabam por se ater ao número da quantidade das xícaras somente e não ao volume delas.

Outra sugestão é falar sobre o efeito de tomar a dosagem errada de um remédio, diferente daquela prescrita pelo médico. Um tema atrelado a isso é a automedicação que poderá ser aproveitado como um assunto de trabalho em sala.

Bem, este é apenas um pequeno exemplo de recorte de uma sala de aula invertida. Evidente que este tema poderá ser continuado sugerindo a produção de receitas em casa e trazendo para discussão os resultados.

Outra sugestão é utilizar jogos, que podem ser adaptados à sala de aula invertida (por sinal tem um plano de aula de NOVA ESCOLA bem interessante que você pode acessar clicando aqui) ou mesmo trazer situações problemas sobre as medidas. O importante é criar momentos nos quais os alunos possam ser agentes ativos de sua própria aprendizagem em sala e em casa.

Como falamos, tudo no começo requer paciência e toda inovação leva tempo para ser implementada. Mas que os desafios que surgirem nos levem a diferentes descobertas para aperfeiçoar nossa prática. O que importa é começar e nunca parar, não é mesmo?

Até a próxima,

Selene

Selene Coletti é professora há 39 anos na rede pública. Atua na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos tendo trabalhado do 1º ao 5º ano. Recebeu, em 2016, da Fundação Victor Civita, o Prêmio Educador Nota 10 com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada do município. Atualmente é formadora da Educação Infantil, na Prefeitura de Itatiba.

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