Como funciona o escalonamento de alunos na retomada presencial durante a pandemia?

Reabertura das escolas no Amazonas, São Paulo e Rio de Janeiro mostram como os estados estão se adaptando ao retorno ainda na pandemia

POR:
Camila Cecílio
Crédito: Getty Images

Nos fundos da sala de aula, há um amontoado de mesas e cadeiras que, antes da pandemia, eram ocupadas por uma turma de 35 alunos. Sete meses após o mundo virar de cabeça para baixo, apenas cinco carteiras estão espalhadas na classe para receber os estudantes recém-chegados do isolamento social. Essa é a nova realidade da EE Dom Miguel Kruse, na zona leste de São Paulo, que retornou ao ensino presencial no dia 14 de outubro de forma escalonada, conforme recomendação dos órgãos competentes para minimizar os riscos de contaminação pelo novo coronavírus.

No guia com orientações para estados e municípios, divulgado pelo Ministério da Saúde, em setembro, o escalonamento de horários de chegada e saída de alunos e, também, dos intervalos, é uma das sugestões para a retomada segura das aulas presenciais. Além disso, não podem faltar os cuidados de praxe: uso obrigatório de máscara, álcool em gel e aferição de temperatura antes de entrar na escola.

Nova realidade no escalonamento

“No primeiro dia de aula meu coração estava apertado, senti medo de voltar. Mesmo tomando todos os cuidados, fiquei apreensiva. Mas, ao ver que a escola estava muito bem organizada, me senti mais tranquila”, lembra Eliete Gonçalves de Oliveira Souza, professora de Língua Inglesa do 9º ano na EE Dom Miguel Kruse. Apesar da apreensão causada pela falta de vacina contra a covid-19, a educadora se diz feliz por voltar para perto dos alunos, ainda que apenas poucos tenham retornado.

Das 620 crianças que cursam os Anos Finais na escola paulista, apenas 59 tiveram autorização das famílias para voltar a frequentar as aulas presenciais. Para atender aos estudantes, as turmas foram divididas em salas com, em média, cinco alunos organizados em carteiras com bom espaçamento entre si. Turmas de 6º e 7º ano têm aula na terça, enquanto as de 8º e 9º vão à escola às quintas-feiras. Nas segundas e quartas é a vez do Ensino Médio. Cada aluno vai à escola apenas uma vez por semana.

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A escola após a pandemia: como conduzir o retorno às aulas

Para saber mais sobre: políticas públicas e o retorno às aulas presenciais; possibilidades de formatos para a reabertura; priorização das propostas e a BNCC; a função da avaliação; o planejamento do professor antes da reabertura; a escola e os aspectos emocionais; como lidar com as diferentes vivências dos alunos; avaliações diagnósticas para o retorno; a tecnologia como aliada; o diálogo com as famílias; e o diálogo com os colegas, direção e coordenação da escola



Antes da pandemia, a escola que funcionava das 7h às 14h por fazer parte do Programa de Ensino Integral (PEI), por segurança, reduziu o expediente, começando às 10h e encerrando às 12h, sem intervalo. “Estamos usando esse tempo para retomar atividades que estavam atrasadas com alguns alunos e, com outros, aprofundar alguma questão. Isto é, estamos trabalhando com recuperação e aprofundamento das atividades”, explica a professora Eliete, que vai à escola duas vezes por semana, assim como os demais professores que puderam regressar ao presencial, e segue dando aulas no ensino remoto.

Ângela Reis Lombardi, diretora da escola, salienta que, mesmo diante do atual cenário, a gestão não teve dificuldades para organizar a volta. Ela explica que os professores do Fundamental 2 e do Ensino Médio estão escalonados por área do conhecimento, de modo que a equipe docente de cada área do conhecimento vai à escola duas vezes por semana.

A gestora explica que o escalonamento foi feito respeitando a opção de retorno dos alunos e dos professores, que se manifestaram por meio de uma pesquisa da direção. “Diante dos dados levantados, distribuímos os professores por área de conhecimento para que não houvesse aglomeração na sala dos professores e nos demais espaços, bem como os alunos”, detalha Ângela.

A rede estadual do Amazonas, primeiro estado brasileiro a voltar ao ensino presencial, é mais uma que aderiu ao escalonamento. Lá, as turmas foram divididas pela metade em grupos A e B, que frequentam a escola em dias alternados para facilitar o cumprimento dos protocolos de segurança em saúde. Apenas as escolas da capital amazonense retornaram às atividades. O estado ainda estuda como retomá-las no interior, mas a extensão e geografia local dificultam a logística e planejamento do retorno.

A professora Eliane Araújo Braga também sentiu medo de voltar a trabalhar durante a pandemia. Ela dá aulas de Matemática para turmas de 7º e 8º ano na EE Milburges Bezerra de Araújo, em Manaus (AM), e desde o dia 30 de setembro vai à escola todos os dias. Nas segundas e quartas, a educadora se encontra com as turmas do grupo A e, nas terças e quintas-feiras, com as do grupo B. Estudantes que não estão na escola continuam tendo aulas online.

O horário de aula não sofreu alteração na rede amazonense e continua das 7h às 11h, como era antes da pandemia. Por isso, professores e funcionários continuam atuando conforme suas cargas-horárias antes do isolamento social, com exceção daqueles que integram grupos de risco.

Para não ter tumulto, o acesso à escola é controlado. O bloco 1, formado por alunos do 6º e do 7º ano entra primeiro, seguido do bloco 2, que são os estudantes do 8º e 9º ano. A mesma lógica segue nos intervalos: bloco 1 tem 15 minutos de pausa, às 8h30. Às 9h é a vez do bloco 2. “No começo foi complicado porque os alunos queriam ficar juntos, então tivemos que conversar muito para conscientizá-los da necessidade do distanciamento e agora acho que estamos indo bem”, afirma Eliane.

Como conduzir a retomada das aulas presenciais

Para quem é útil: Professores e coordenadores pedagógicos do Ensino Fundamental.
Qual o objetivo: Debater os cenários previstos para a retomada das aulas presenciais - após o distanciamento imposto pela pandemia de Covid-19. E oferecer estratégias e recursos para o replanejamento


A pandemia não acabou

Em um contexto em que a pandemia segue até que se crie uma vacina, cuidados como esses são fundamentais para a retomada das aulas. Mais ainda porque a realidade de boa parte das escolas públicas brasileiras é de salas cheias e poucos recursos ou mesmo espaço útil disponível para criação de novos ambientes.

Mozart Neves Ramos, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e colunista da NOVA ESCOLA, observa que muitas escolas não tiveram como se reinventar a partir do ambiente físico, mas procuraram se adequar com a reorganização das carteiras na sala, ampliação de limpeza e rotia de higienização e, em alguns casos, aberturas de novas janelas para melhorar a ventilação. “O que vimos, de maneira geral, foi que as escolas brasileiras procuraram tomar todas as providências para fazer esse retorno com segurança”, explica o conselheiro do CNE. No caso das escolas que não têm a infraestrutura necessária para receber os alunos, a recomendação é reforçar o planejamento do ensino remoto.

O retorno sem escalonamento

Há redes, no entanto, que retornaram e não aderiram ao escalonamento. É caso do Rio de Janeiro que retomou o ensino presencial, de forma opcional, no dia 19 de outubro apenas para alunos do 3º ano do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

De acordo com a Secretaria de Educação do Estado, além de restabelecer o vínculo desses estudantes com a escola, o objetivo do retorno é garantir aulas presenciais aos cerca de 50 mil estudantes fluminenses da rede que estão inscritos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Demais etapas permanecem com aulas remotas e deverão voltar às atividades presenciais em 2021.

A secretaria informou, ainda, que todos os protocolos estabelecidos pelas autoridades sanitárias estão sendo seguidos pelas escolas, viabilizando o retorno seguro de professores e funcionários. 

Embora sem qualquer escalonamento, a volta presencial segue tranquila no Colégio Estadual Leonel Azevedo, localizado na Ilha do Governador (RJ), segundo Fabiano Rapozo de Carvalho, professor de Matemática do 3º ano de Ensino Médio e EJA. “Estava ansioso pelo retorno porque a maioria dos meus alunos não tem condições de acessar internet e, para fazer uma atividade, precisam emprestar o celular de alguém da família”, explica.

O educador, que recebeu dois prêmios por projetos educacionais, diz que criou diversas atividades remotas durante os meses de pandemia, mas a dificuldade de acesso dos estudantes foi um problema. “Nossa realidade na escola pública é essa em que o professor prepara muito material online, mas poucos alunos conseguem acessar”, reforça. Por isso, agora o objetivo é correr contra o tempo e tentar minimizar os impactos dos últimos tempos.

Na escola de Fabiano as aulas seguem de segunda à quinta-feira, das 18h às 22h, com 50% dos alunos em sala (cerca de 15 estudantes). As salas são amplas, o que favoreceu o espaçamento recomendado de 1,5 metros entre as carteiras. Também há álcool em gel e tapete sanitizante no espaço, além do uso obrigatório de máscara. Quanto aos professores, nem todos voltaram. Aqueles que fazem parte de grupo de risco seguem no ensino remoto.