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Biomas - Comparar para entender

Textos, fotos e mapas foram utilizados pelos alunos do 5º ano do Colégio de Aplicação, em Florianópolis, para estudar as paisagens do Brasil, da mata Atlântica à Amazônia. Dessa maneira, a turma pôde compreender as diferenças, semelhanças e características de cada um

por:
BS
Beatriz Santomauro
NE
NOVA ESCOLA
MS
Márcia Scapaticio
Agosto de 2012
 Biomas: comparar para entender. Foto: Danny Yin

É a primeira vez que os alunos do 5º ano do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (CA-UFSC), em Florianópolis, estudam as características dos biomas brasileiros. A professora Lara Duarte Souto- Maior está atenta para registrar as dúvidas de cada um: por que as plantas da Amazônia estão sempre verdes? Como os animais conseguem viver em um lugar alagado ou em temperaturas muito altas? Por que aqui não vivem os mesmos bichos do pantanal?

Para essas primeiras aproximações com o tema, Lara preparou aulas expositivas explicando que são seis os biomas do nosso país, conforme a divisão estabelecida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): mata Atlântica, pantanal, cerrado, caatinga, Amazônia e pampa. Ela utilizou fotos e textos dos livros didáticos e reuniu outros materiais, como reportagens de revistas e publicações científicas de Geografia, para apresentar as informações principais. Além disso, usou um software desenvolvido pela própria UFSC especificamente sobre a mata Atlântica que permitiu que seus alunos jogassem e reconhecessem, em duplas e pelo computador, quais plantas e animais estão presentes nesse ambiente. O resultado dessa série de iniciativas fez com que os pequenos aprendessem sobre as diferentes paisagens do país, desde a mata Atlântica, que está ao redor deles, até o pantanal, muitas vezes conhecidos apenas pelo nome.

A professora se preocupou em destacar os tipos de clima, de vegetação, o solo, o relevo, a hidrografia, o regime de chuvas de cada região, dados indispensáveis para investigar os biomas. Em seguida, relacionou um com outro, explicando, por exemplo, que uma mata sempre verde está ligada à quantidade e distribuição de chuvas e que as temperaturas são mais altas no nível do mar do que no alto das montanhas (veja outras possibilidades para relacionar as características dos biomas na última página). Em vez de ter acesso a informações fragmentadas, as crianças entraram em contato com o conteúdo fazendo comparações e analisando as características do que foi visto. Conhecer e analisar esse bioma e os demais a fundo fez com que elas fugissem dos estereótipos e vissem que existe uma variedade de aparências de acordo com a ocupação humana, a temperatura, a latitude etc. (veja alguns equívocos comuns na próxima página). Com isso, os estudantes perceberam a complexidade do assunto e que algumas feições dos biomas são mesmo diferentes das outras.

Para João Carlos Nucci, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), análises como essas ficam ainda mais ricas quando se usam mapas, já que eles favorecem o trabalho sobre a escala e a localização de cada bioma. Em sua experiência, Lara notou como os alunos se aprofundaram no tema depois de analisarem os mapas: "As crianças compreenderam que o Cerrado ocupa uma grande área do centro do país e que o pampa está em apenas uma parte do sul". Nucci ressalta ainda que se deve incluir nessas discussões os limites de cada bioma: embora no mapa haja uma linha que delineia o começo e o fim de cada um - como no observado por Lara e sua aluna Júlia na página de abertura desta reportagem -, essa é uma representação da realidade que esconde áreas de transição. O geógrafo brasileiro Aziz Ab'Sáber (1924-2012) chamou a atenção para essa ideia e outras especificidades e apresentou na década de 1970 o conceito de domínios morfoclimáticos (veja no quadro abaixo). De todo modo, até hoje a classificação dos biomas é a que continua sendo adotada pelo IBGE e pelos livros didáticos - porém vale dar atenção às contribuições trazidas por Ab'Sáber.

De olho na transição
O que são os domínios morfoclimáticos brasileiros

O que são os domínios morfoclimáticos brasileiros. Cássio Bittencourt

As paisagens brasileiras foram estudadas pelo geógrafo Aziz Ab'Sáber e agrupadas levando em conta as faixas de transição entre as áreas e a relação entre fauna, flora, clima e outras tantas particularidades. isso deu origem à classificação de domínios morfoclimáticos - conceito próximo ao de biomas, apresentado pelo IBGE, mas que normalmente tem o uso restrito a profissionais e estudantes de Geografia, não chegando à sala de aula do ensino Fundamental. Veja, no mapa à direita, as seis divisões sugeridas pelo pesquisador, além das faixas de transição que circundam todas elas.

Por fora das quatro paredes, se veem outras tantas coisas

Uma atividade-chave da Geografia é o trabalho de campo. Os alunos da Escola de Aplicação visitaram o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, a 66 quilômetros da escola. Por estar em área de mata Atlântica, as crianças observaram os diferentes ecossistemas que fazem parte do bioma. Eles notaram que o manguezal se desenvolve em um solo lodoso e negro, que fica constantemente inundado pelo contato com a água do mar e do rio. Viram também que na beira do mar cresce a vegetação de restinga, com plantas rasteiras e ralas sobre a areia. "Antes da visita, era comum os estudantes considerarem a mata Atlântica como uma coisa só. Depois, passaram a ressaltar a diversidade presente nela", diz Lara.

Momentos como esses são bons para distinguir ecossistema - seres vivos e não vivos que ocupam o mesmo ambiente e se relacionam nele, como o manguezal e a restinga - de bioma - um conjunto de ecossistemas sob um mesmo clima, como a mata Atlântica. "Estimular a visão de perto e de longe, perceber que o vento é maior no campo aberto do que no meio da mata são exemplos de como os alunos podem aproveitar os trabalhos de campo e fazer com que usem seus sentidos de maneira mais ampla", explica Sueli Furlan, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

No planejamento da professora Lara, estão detalhadas quais atividades serão feitas antes, durante e depois da visita à serra do Tabuleiro. Isso inclui um roteiro para estabelecer os objetivos da viagem e a orientação de como preparar um relatório do que foi visto. "Quando os estudantes interagem com o ambiente, se aproximam da paisagem e de um assunto que parecia muito distante da realidade", conta satisfeita.

Estereótipos são estereótipos, e não verdades
Os biomas são extensos e recebem influências de diversos fatores. Por isso, é importante não generalizar as descrições

A caatinga nem sempre é seca. Foto: Flavio Ciro

A caatinga nem sempre é seca O clima é seco na maior parte do ano, mas, na época das chuvas, a paisagem muda, favorecendo o crescimento da vegetação.

A Amazônia não é só nossa. Foto: Carol da Riva

A Amazônia não é só nossa Embora a maior parte da floresta se encontre dentro dos limites do nosso país, ela se estende por outros sete países da América do Sul.

O cerrado não é sempre igual. Foto: Luigi Mamprin

O cerrado não é sempre igual O bioma é extenso, com variado relevo e vegetação. As árvores retorcidas, símbolo da região, dividem espaço com as matas de galerias e ciliares.

A Amazônia não é só plana. Foto: Oscar Cabral

A Amazônia não é só plana Prova dos desníveis são as cachoeiras, como esta, no rio Jari, no Pará. também nesse bioma fica o pico da neblina, o mais alto do Brasil.

Mata Atlântica x outros

Veja sugestão de como pensar um bioma em relação aos demais, contrapondo algumas de suas características principais

Mata Atlântica - localização. Foto: Valdemir Cunha

Localização Enquanto a mata Atlântica abrange 17 estados, o pampa, menor dos biomas brasileiros, está presente apenas no Rio Grande do Sul. Além das fronteiras do país, ele se estende por terras do Uruguai e da Argentina.

Mata Atlântica - vegetação. Foto: Irmo Celso

Vegetação Mata Atlântica e Amazônia são conhecidas pela diversidade vegetal. A primeira tem musgos, gramíneas, arbustos e árvores altas, e a segunda caracteriza-se pelas matas de terra firme, de várzea e de igapó (essas inundáveis na maior parte do ano).

Mata Atlântica - solo. Foto: Luigi Mamprin

Solo Na mata Atlântica, ele está sempre úmido porque os raios solares são absorvidos pelas folhas das árvores mais altas. Ele é pobre em nutrientes, mas tem uma fértil camada de matéria orgânica. Na caatinga, o solo é rico em minerais, mas tem pouca matéria orgânica.

Mata Atlântica - água. Foto: Franco Hoffchneider

Água As bacias hidrográficas localizadas em áreas de mata Atlântica, como as dos rios Paraná e São Francisco, são alimentadas pelas águas das chuvas. O volume dos rios do pantanal varia conforme as estações - de novembro a fevereiro, alagam a planície.

Mata Atlântica - clima. Foto: Gladstone Campos

Clima Por estar presente em diferentes latitudes, a mata Atlântica tem regiões marcadas tanto pelo clima subtropical úmido como pelo tropical. No cerrado, de clima tropical, há estações bem definidas: a seca, entre abril e setembro, e a chuvosa, entre outubro e março.

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